André Jakurski, o sócio-fundador da JGP, está otimista com o mercado de dívida e vê um período de pujança à frente para a área de crédito da gestora.

“Claramente hoje eu tenho uma preferência pessoal por dívida em vez de equities. Ninguém consegue competir com um juro de 14%,” Jakurski disse hoje durante o 2º JGP Credit Day em São Paulo.

Para ele, nas próximas semanas, com o final das negociações sobre a PEC da transição e a definição da equipe do novo governo, será possível ter uma noção da intensidade dos movimentos que já estão dados.

“Já foi verbalizado que o plano de governo do Lula vai focar no social. A consequência disso vai ser uma taxa de juros maior do que seria num governo mais conservador,” disse Jakurski. ”Provavelmente os ativos financeiros ‘ex-juros’ não vão ter uma performance tão alvissareira.”

Para Jakurski, o novo governo vai ter que entender que as condições que existiam no primeiro Governo Lula e nos últimos anos do Governo Bolsonaro não estarão presentes daqui para a frente.

“O juro real ficou extremamente negativo, agora está extremamente positivo, então não vai ter aquela vantagem de gastar muito sem ver a dívida subir,” disse Jakurski.  “Mesmo que não gaste muito, a dívida vai subir, porque quando o Lula assumiu o governo em 2003, tínhamos superávit primário de 3,5% do PIB, expansão do crédito e formalização da economia que criou mais receita para o governo.  A dinâmica da dívida hoje é totalmente diferente.”

Para o fundador do velho Pactual, se o PT não entender essas diferenças, a situação “vai complicar”.  “Não é que existe maldade no mercado financeiro, é a realidade.”

Mercado local

Neste ano, o mercado de capitais está se consolidando como a principal fonte de financiamento das empresas: de janeiro a setembro, o estoque de crédito nas mãos de investidores soma R$ 706 bilhões, valor superior aos R$ 700 bilhões de crédito bancário.

A maior participação do mercado acompanha a redução de subsídios para crédito pelo Tesouro, que caiu de R$ 52,4 bilhões em 2014 para R$ 1,4 bilhão em 2022.

Alexandre Muller, sócio e head de crédito da JGP, disse que apesar das incertezas em relação à política econômica, é pouco provável que haja uma expansão material de subsídios concedidos pelo Tesouro para competir com o mercado financeiro, dada a restrição fiscal.

“É uma ineficiência alocativa enorme e que abre espaço para desvios de conduta”, disse Alexandre, que acredita que as prioridades do governo serão o Auxílio Brasil, o reajuste do salário mínimo e a expansão do Bolsa Família.

A expectativa da JGP é que as emissões de renda fixa (debêntures, notas promissórias, letras financeiras, CRAs e CRIs) rompam R$ 160 bilhões este ano, superando o recorde de R$ 154 bi de 2021. No acumulado até outubro, essas emissões estavam em R$ 135 bilhões.

“E isso vai acontecer mesmo num momento de aperto monetário global. O mercado está crescendo graças à procura pela renda fixa pós-fixada, o desenvolvimento das plataformas e também da performance,” disse Alexandre.

Nos nove primeiros meses de 2022, o retorno do Idex-CDI, o índice da JGP que acompanha o crédito privado pós-fixado, é de 10,7%, superando o CDI (8,9%) e o Ibovespa (5%).

O spread médio mensal medido pelo Idex-CDI está relativamente estável em 1,8% há dois anos; ele se acomodou nesse patamar depois do estresse do início da pandemia, quando foi a 4,8%.

O índice da JGP também mostra que o crescimento do mercado está  acompanhado de uma maior dispersão – a participação das emissões com ratings igual ou inferior a A no índice saiu de 12% em 2020 para 22% em 2021 e está em 24% este ano até outubro.

“Tem mais low-rated names no mercado. O desafio para a seleção de papéis hoje é maior e é importante ter mais cuidado porque tem mais risco na indústria,“ disse Alexandre.

Ele lembra que este ano houve vários eventos adversos de crédito, como downgrades de 5 níveis de rating em Tenda e Le Biscuit; o descumprimento de obrigações pecuniárias do VirtusPay; os problemas na Captalys e uma performance negativa de bonds.

“Não faltou susto no crédito, e provavelmente essa vai ser a tônica a partir de agora. Provavelmente vamos ter um evento de crédito a  cada dois meses, até pelo crescimento de mercado para produtos estruturados,” disse Alexandre. “Vamos ter mais dispersão, aquela história de todos os fundos de crédito performando mais ou menos igual acho que vai acabar.”

Offshore

No mercado de dívida offshore, o ano foi “extremamente desafiador,” e a performance dos papéis foi guiada por fatores macro, disse Nikolau Müller, o sócio da JGP responsável pela análise de crédito offshore.

“Os riscos geopolíticos aumentaram, com o conflito entre Rússia e Ucrânia, eleições polarizadas na América Latina e o risco cada vez maior risco de uma recessão global,” disse Nikolau.  “Tudo isso trouxe impactos negativos para a renda fixa global.”

O índice CEMBI Latam acumula queda de 15,7% no ano até outubro e caminha para seu pior ano da série histórica iniciada em 2002. Nesses 20 anos, o índice teve quatro performances negativas: as piores foram em 2008 (queda de 10,5%) e 2015 (queda de 8,8%).

O CEMBI Brazil perde 12,5% no ano até outubro.

Essa desvalorização, disse Nikolau é explicada pela abertura de cerca de 300 pontos-base na Treasury de 5 anos, o que gerou um impacto negativo de 13,36%; e pela abertura de 70 pontos-base do CDS, com o aumento do risco Brasil, que respondeu por -3,24%. Duas outras componentes compensaram esses fatores macro: o carrego e o spread de crédito, que ficaram positivos em 4%.

O levantamento da JGP também mostrou abertura nos yields de  bonds brasileiro ao longo do ano: no final de 2021, eles estavam na casa de 5% e agora estão mais perto de 9%. Novamente, o impacto das Treasuries e do CDS foi responsável pela abertura, já que o spread de crédito de cerca de 2% está perto dos menores níveis dos últimos 10 anos.

O ano também caminha para ser o pior desde 2014 em termos da saída de recursos de bonds corporativos emergentes, na série calculada pela JGP: até outubro, as retiradas somavam US$ 28,5 bi, ou 12% dos ativos sob gestão nesses fundos.

“Houve saídas de recursos em quase todas as semanas do ano, o que afeta a negociação dos bonds, já que os fundos têm que vender os ativos e o mercado perde liquidez,” disse Nikolau.

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