A Hypermarcas desaba 8% na Bovespa esta tarde com a revelação de que Nelson Mello, executivo da empresa até o início deste ano, pagou 30 milhões de reais em propina a políticos do PMDB.  Os recebedores dos pagamentos — Milton Lyra e Lúcio Bolonha Funaro — são, respectivamente, notórios operadores de Renan Calheiros e de Eduardo Cunha, o deputado afastado cujo mandato está em vias de ser cassado.

A Hypermarcas nega que esteja envolvida em qualquer impropriedade, e afirma que “o Sr. Mello autorizou, por iniciativa própria, despesas sem as devidas comprovações das prestações de serviços.”  Em delação premiada, Mello disse à Procuradoria Geral da República que ressarciu a empresa, e que a Hypermarcas “não auferiu nenhuma vantagem e nem sofreu prejuízos porque foi reembolsada”.

Mello trabalhou por quase 40 anos com o fundador e controlador da empresa, João Alves de Queiroz Filho, o Júnior, e por um breve período co-presidiu a Hypermarcas com o atual CEO, Claudio Bergamo.  

“Os pagamentos são muito altos para terem sido aprovados por apenas um executivo, por mais sênior que fosse,” disse um gestor que acompanha a empresa, sinalizando o tipo de questionamento que a Hypermarcas vai enfrentar no mercado.

Conhecido por seu temperamento explosivo, Funaro — que também esteve envolvido no mensalão — tem contatado a imprensa pra dizer que seu relacionamento na Hypermarcas sempre foi com Júnior, e não com Mello.

A revelação — que atinge frontalmente uma empresa que nunca teve negócios diretos com o governo — sugere que o envolvimento de empresários com a corrupção pode ir muito além do já conhecido círculo das empreiteiras. Segundo uma fonte em Brasilia, a delação de Mello pode ser o início de uma série mostrando como políticos do PMDB usam mandatos para operar um balcão de negócios do Congresso, aprovando medidas que favorecem grandes empresas.

É um mundo de Land Rovers, Tucsons, Porsches Cayennes e BMWs que fariam corar o dono de uma Fiat Elba.

É, também, uma notícia sombria para os empresários que, no anos Lula-Dilma-Cunha, decidiram que manter boas relações com o Governo e investir em ‘arbitragem regulatória’ eram parte do ‘opex’ da empresa — uma despesa operacional corrente.  A conta da meia-entrada chegou.

Cunha já foi acusado de cobrar propina para liberar recursos do FI-FGTS, para favorecer empreiteiras fazendo as obras da Olimpíada, além de ter tido ‘atuação decisiva’ na aprovação da MP que abriu o setor de hospitais ao investimento externo — ainda que não haja uma denúncia formal neste caso. Cunha nega tudo.

Mesmo com o Brasil em recessão, a Hypermarcas estava sendo celebrada como uma das empresas mais bem sucedidas da Bovespa. No ano passado, vendeu seu negócio de consumo e higiene pessoal por múltiplos recordes, zerou seu endividamento e passou ser negociada no mercado por quase 20x sua geração de caixa.