Da mesma maneira que assumiu o domínio das cadeias de produção de produtos como veículos elétricos, aparelhos eletrônicos e painéis solares, a China agora tem planos de não apenas reconquistar a autossuficiência na produção de alimentos como também controlar segmentos do supply chain do setor.
Para uma nação de 1,4 bilhão de habitantes e escassez em áreas férteis e água, a meta parece despropositada. Mas o projeto é uma das prioridades dos mais recentes planos quinquenais e vem mobilizando investimentos vultosos em tecnologia.
“A era da China como a principal compradora de produtos agrícolas do mundo pode estar chegando ao fim,” Pascal Lamy, o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, escreveu num artigo recente para a Reuters.
De acordo com o francês, essa transformação “poderá remodelar os mercados globais e levar os atuais países produtores a repensar seus modelos de crescimento.”
O Brasil que tome nota.
A maior produtora de carne suína da China já dá uma mostra do possível impacto nos próximos anos.
A Muyuan Foods, o maior frigorífico de suínos do planeta, vem testando dietas de engorda com menos proteína vegetal. A empresa reduziu a inclusão de farelo de soja para 6% na composição da ração, menos da metade da média de 13% usada normalmente. Isso propicia uma economia de 31 quilos de soja por animal.
Segundo as projeções da consultoria britânica Systemiq tendo como base estimativas do Governo chinês, a importação de soja deverá ter uma redução de 25% até 2030, uma queda de 23,5 milhões de toneladas ante o total de 2025.
Detalhe: quase 70% da soja exportada pelo Brasil tem como destino os portos chineses. No ano passado, esse comércio gerou mais de US$ 26 bilhões.
Até o início dos anos 2000, a China era autossuficiente na produção de alimentos – mas era também uma nação bem mais pobre.
De lá para cá, o consumo de proteína animal foi multiplicado por 6, e o país passou a ter grandes déficits na sua balança comercial de produtos agropecuários. No ano passado, o saldo ficou negativo em mais de US$ 120 bilhões.
Para um país com um superávit industrial superior a US$ 1 trilhão, isso não é nada. A questão de fundo é estratégica, em um momento de guerras comerciais e da crescente dominação de cadeias de suprimento como arma geopolítica, como os chineses têm feito com as terras raras, e os americanos, com os chips de AI.
EUA e Europa são autossuficientes na produção de alimentos. A China, não – e a dependência de importados é um enorme calcanhar de Aquiles para o Governo de Xi Jinping.

As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio desestabilizaram algumas cadeias de alimentos e fertilizantes, dando mais urgência ao projeto chinês de reduzir a dependência das importações de alimentos.
“A resposta chinesa não indica a busca por autossuficiência absoluta nem o abandono do comércio internacional, mas a redução de vulnerabilidades,” afirmam Bruno Capuzzi, Leandro Gilio e Marcos Jank, pesquisadores do Insper Agro, em artigo para a carta de agosto do Conselho Empresarial Brasil-China.
De acordo com os pesquisadores, para reduzir a vulnerabilidade na oferta de soja a China atua em duas frentes principais: elevar a produtividade na área já cultivada e diminuir o uso do farelo de soja nas rações.
A projeção de ganho de produtividade, mantida a área atual, elevaria a produção doméstica de cerca de 21 milhões para 28,6 milhões de toneladas até 2034. O país vem investindo também na melhoria de áreas hoje pouco férteis.
Ao mesmo tempo, a meta de reduzir a utilização de farelo nas rações pode diminuir o consumo de soja para essa finalidade em quase 40% nos próximos cinco anos – de cerca de 100 milhões de toneladas/ano para pouco mais de 60 milhões.
O Brasil continuará sendo um grande exportador, mas terá que se adaptar às transformações do mercado agropecuário chinês, dizem os pesquisadores do Insper.
“A relação agroalimentar entre Brasil e China não pode permanecer limitada à compra e venda de commodities,” escrevem. “O processo chinês de modernização abre espaço para uma agenda mais ampla de cooperação em inovação, logística, sanidade, segurança alimentar e desenvolvimento tecnológico.”
Para os analistas da StoneX, a consultoria americana especializada em commodities, ainda é cedo para vislumbrar um cenário em que a China reduza drasticamente sua importação de alimentos – mas há ameaças para os produtores brasileiros.
“Um dos riscos é a desaceleração do crescimento populacional chinês somado ao envelhecimento da população, o que seriam fatores de pressão sobre a demanda doméstica,” Raphael Bulascoschi, um analista de inteligência de mercado da StoneX, disse ao Brazil Journal.
Na carne bovina, o Brasil responde hoje por 40% das compras internacionais da China e é um parceiro comercial difícil de substituir, pela escala e competitividade que oferece, segundo Larissa Alvarez, outra analista da StoneX. “O principal desafio para os exportadores brasileiros seria o avanço da diversificação de fornecedores promovida por Beijing.”
Para a Systemiq, no entanto, este é um jogo que entrou em uma nova fase. A China começou a aplicar aos setores ligados à produção de alimentos a mesma estratégia que a levou à liderança em áreas como energia renovável e transporte.
Como apresentado no 15° Plano Quinquenal, o esforço em segurança alimentar envolve ampliar a pesquisa em biotecnologia, particularmente para aumento da produtividade e desenvolvimento de proteínas sintéticas – enfrentando a matemática adversa de uma nação que possui 15% da população mundial, mas apenas 8% das terras cultiváveis e 6% da água doce.
O roteiro estratégico opera por meio de cinco mecanismos que se reforçam mutuamente: visão coordenada, que se desdobra do governo central para províncias, empresas estatais e instituições financeiras; ambiente empresarial competitivo e parcerias com universidades; apoio financeiro via bancos estatais, subsídios e financiamento contínuo de P&D; suporte político e regulatório; e, por fim, indução da demanda por meio de compras públicas e estímulo para o mercado interno.
Segundo a consultoria, os investimentos em tecnologia e as transformações estruturais do mercado poderiam tornar a China uma exportadora relevante de proteína animal dentro de 15 anos.
No cenário traçado pela consultoria, em 2050 os chineses seriam líderes globais na indústria de alimentos.
“A China já remodelou cadeias globais de suprimentos no passado, quando as prioridades estratégicas se alinharam à capacidade industrial,” diz o estudo da Systemiq.
Algo parecido poderá ocorrer agora nas cadeias de proteína, e os produtores agrícolas mais expostos são os países que mais exportam comida para a China: Brasil, EUA e Argentina.
Para Ricardo Geromel, um ex-trader de commodities agrícolas em Hong Kong e autor do recém-lançado O Novo Poder da China, muitos analistas e produtores brasileiros ainda não compreenderam o impacto das transformações que poderão ocorrer no mercado global de alimentos.
“O Brasil não encontrará um outro cliente que compense a redução do apetite chinês,” Geromel disse ao Brazil Journal. “Converso com os líderes do agro e o principal problema é que eles não conhecem a China. O que os chineses mais querem é reduzir essa dependência, vão investir mundos e fundos nessa revolução tecnológica. Esse é o foco deles.”
Para o consultor, seria um risco contar com o fracasso chinês nessa empreitada.
“O que me espanta é ouvir os brasileiros dizendo que os chineses são dependentes das importações de alimentos,” disse Geromel. “Os chineses dão risada quando ouvem isso. Eles dizem que estão dependentes – não são dependentes.”






