A Franklin Templeton – um gigante com US$ 1,7 trilhão sob gestão – decidiu mudar a forma como investe em crédito no Brasil.

O estopim foram os defaults de Americanas e Light, empresas em cujos papéis os fundos da gestora investiram.   

“Duas coisas ficaram claras: não dá para confiar no quantitativo, ou seja, nos números dos balanços, mesmo auditados,” Adriano Casarotto, o portfolio manager de crédito da Franklin Templeton Brasil, disse ao Brazil Journal.

“Além disso, falta transparência para algumas classes de credores, como os debenturistas, que tiveram muita dificuldade para recuperar créditos em casos recentes.”

Para mitigar os riscos, a gestora reduziu o limite de exposição por emissor e por rating. Companhias com classificação triple A podem representar até 1,5% do portfólio de crédito da casa – ou seja, esta passou a ser a exposição máxima por emissor. 

No passado, o limite era dado por meio da análise do tamanho do endividamento da companhia e das características da emissão – e algumas empresas podiam responder por cerca de 3% do portfólio de crédito. 

“Mas as condições do mercado local mostraram que essa análise não é suficiente,” disse Casarotto. “Dada a baixa confiança nos dados públicos, nossa defesa é diminuir a exposição.”

Empresas com rating A podem representar até 0,5% do portfólio e, a partir da classificação triple B, os papéis integram apenas as carteiras de maior risco. 

A Templeton abriu uma exceção para os grandes bancos, classificados como S1 pelo Banco Central: nesse caso, o teto pode chegar a 5% em razão da camada extra de regulação e fiscalização do BC.

Além desse corte quantitativo, a Franklin Templeton passou a fazer também uma avaliação qualitativa dos emissores “que vai até o CPF da pessoa física controladora,” disse Casarotto. “Isso é essencial especialmente nos casos de negócios que são controlados por fundos ou diferentes CNPJs.”

O Brasil é o único mercado em que a Templeton adota essas políticas – que, segundo Casarotto, foram sugeridas pela equipe local à matriz. 

A gestora tem R$ 12 bilhões de AUM em crédito no País – e levou um ano e meio, até meados de 2024, para ajustar as carteiras de acordo com as novas regras.

Nesse período, a participação das letras financeiras no portfólio de crédito aumentou de cerca de 15% para 50%.

“Foi bom investir em crédito mesmo com os eventos de Americanas, Light e Ambipar. Mas aprendemos que US$ 1 perdido sai mais caro que US$ 1 ganho, porque gera um grande estresse com investidores, especialmente os institucionais. Por isso decidimos ser mais conservadores,” disse Casarotto.

Em paralelo, o gestor trabalha com a Amec para propor melhorias na regulação do mercado de crédito. 

Uma proposta é liberar aos fundos o acesso ao SCR, o sistema de informações de créditos do BC, hoje restrito aos bancos. Na visão dele, isso ajudaria a medir o risco dos emissores com maior precisão, já que o SCR mostra o total de empréstimos por empresa.

Outra sugestão é aumentar a transparência das documentações das ofertas de crédito, para que os credores tenham clareza de sua posição na estrutura de capital e na “fila de pagamentos” no caso de uma recuperação judicial ou extrajudicial, por exemplo. 

Casarotto também defende que as debêntures sejam emitidas prevendo a criação de uma conta-reserva para cobrir custos com processos de recuperação de créditos. Segundo ele, isso já existe em FIDCs, CRIs e CRAs. 

No caso das debêntures, essas despesas hoje são pagas pelo emissor – que acaba não pagando ao entrar numa RE ou RJ. 

“Os credores hoje precisam convocar uma assembleia para discutir como contratar e como pagar um assessor jurídico, o que torna o processo de defesa do credor muito mais lento.”