Uma história que mais parece filme de ficção científica aconteceu em Goiânia, em 1987 – e quase quatro décadas depois, é pouco lembrada pelos brasileiros.
A tragédia radiológica do Césio-137, que gerou, segundo dados oficiais do governo, quatro mortes imediatas e contaminou mais de mil pessoas, inspira a série Emergência Radioativa. Disponível na Netflix, a produção é um exemplo de como o audiovisual brasileiro atingiu um nível de excelência e aprendeu a dialogar com o mercado internacional.
Os números endossam a qualidade. Os cinco episódios do programa tiveram mais de 10,8 milhões de visualizações, com presença no Top 10 de 55 países. Assim, Emergência Radioativa foi a mais vista de todas as séries de língua não inglesa da plataforma entre os dias 23 e 29.
Criada por Gustavo Lipsztein e sob a direção-geral de Fernando Coimbra, a série recriou os fatos e fundiu personagens para melhor dramatizar a realidade. Como não se trata de um documentário, o resgate histórico descarta uma extrema fidelidade e, para garantir a fluência do roteiro, os autores adaptaram o perfil dos envolvidos e universalizaram o drama.
Na série, Evenildo (interpretado por Bukassa Kabengele), o dono de um ferro-velho, compra e leva para casa uma cápsula de chumbo que contém um sedutor pó azul brilhante. Em pouco tempo, a família começa a sofrer com náuseas, tonturas e queda de cabelo. Desconfiada, Antônia (papel de Ana Costa), mulher de Evenildo, entrega o material para a vigilância sanitária, que ignora a queixa.
O jovem físico nuclear Márcio (representado por Johnny Massaro), de passagem pela cidade, assume a investigação apoiado por uma força-tarefa que inclui colegas mais experientes e médicos preocupados com o avanço da contaminação. O descaso do governo e as carências do sistema de saúde colaboram para a propagação da crise.
Em uma fórmula próxima à das séries médicas que fazem tanto sucesso, Emergência Radioativa usa a tragédia do Césio-137 como o principal gancho narrativo. O que sustenta o ótimo roteiro e comove os espectadores, porém, são os dramas pessoais, a luta pela sobrevivência e o desafio coletivo para minimizar o caos social – e estes conflitos seriam iguais na maior parte do mundo.
A dimensão humana é vista nas dores e inquietações dos principais personagens. O remorso de Evenildo com o agravamento do estado de saúde de Antônia, a inabalável convicção profissional de Márcio mesmo depois de descobrir que será pai, e o desespero de Catarina (a atriz Marina Merlino), separada do marido (o ator Alan Rocha) e da filha, Celeste (a menina Mari Lauredo), também infectados, servem de eficiente gatilho emocional a um imenso público.
As reverberações políticas são tratadas através dos confrontos do governador Roberto Correia (o ator Tuca Andrada), que dificulta as ações para se eximir de responsabilidades, com Benny Davi Orenstein (o ator Paulo Gorgulho), físico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
A dedicação da equipe médica capitaneada pelo Doutor Eduardo Souto (o ator Antonio Saboia) em oposição à falta de infraestrutura hospitalar abre espaço para uma narrativa heroica e de denúncia social. Há também espaço para a poesia, como na bela cena em que Celeste ouve um disco de Elza Soares e é convencida a cortar o cabelo.
Diante de todos estes ingredientes, a premissa se torna irresistível por explorar com eficiência doses de resgate histórico e melodrama. O Brasil é pouco citado nos diálogos, e essa localização geográfica menos reafirmada continuamente ajuda a explicar o êxito internacional de Emergência Radioativa. As constantes menções ao acidente nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986 na Ucrânia, colaboram ainda para a conexão dos espectadores.
O Brasil é um país acusado de renegar o passado e de se recusar a revisitar os traumas, principalmente os recentes. Depois da repercussão mundial dos filmes Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, baseados em questões da ditadura militar, o sucesso de audiência de Emergência Radioativa prova que a memória nacional pode render um farto e rentável material para o audiovisual.
A ampliação desse diálogo, entretanto, só é possível com uma linguagem que universalize o assunto. Emergência Radioativa vai além do impacto local ou do discurso político e, mesmo o ótimo e coeso elenco, com poucos rostos populares, funciona como isca para um espelhamento maior daqueles problemas aos olhos do público.
Nos 55 países em que a série marcou presença no Top 10 da Netflix, a cidade de Goiânia e o episódio do Césio-137 certamente não significam quase nada aos espectadores. Tudo o que se vê naquela história pode ser encarado como uma trama de ficção científica semelhante àquelas de tantos filmes de Hollywood que plateias do mundo afora assistem sem comprometimento histórico ou passional.
Para o público da Netflix, não faz diferença se aquela série foi inspirada em um dos maiores desastres radiológicos do planeta e o quanto de gente sofreu – e, talvez, sofra até hoje – com as consequências do desastre. O que importa é um ótimo roteiro, boas interpretações e uma direção capaz de alcançar o difícil equilíbrio entre o distanciamento de defesa e uma relativa identificação. Estas qualidades, sem dúvida, Emergência Radioativa tem de sobra e garantem o seu sucesso.











