O livro A Night to Remember, de Walter Lord, reconstruiu a tragédia épica do Titanic narrando o encadeamento dos eventos a partir das pessoas envolvidas no desastre.
Essa foi a ambição do jornalista americano Andrew Ross Sorkin quando se lançou à jornada de recontar a história do crash de 1929.
“Meu objetivo era fazer para 1929 o que Lord fez para aquela terrível tragédia de 1912: restaurar a textura e os detalhes das vidas humanas no centro de um evento histórico épico,” Sorkin escreve em 1929 – Por dentro da maior crise da história de Wall Street e como ela abalou o mundo. (Compre aqui)
Lançado nos EUA no ano passado, a obra chega às livrarias brasileiras em junho, com edição pelo selo Portfolio-Penguin da Companhia das Letras.
Sorkin – que não é parente do roteirista Aaron Sorkin – tem um currículo dos mais admiráveis entre os jornalistas de economia e finanças dos EUA. Começou a carreira como estagiário do New York Times quando ainda cursava o colegial. Em 2000, aos 23 anos, virou o principal repórter de fusões e aquisições do jornal. No ano seguinte, criou a newsletter DealBook, da qual segue como editor.
Foi ele que escreveu Too Big to Fail, um dos melhores relatos do colapso da Lehman Brothers e da crise de 2008. O livro foi publicado em 2009 e adaptado para um documentário.

1929 nasceu de um trabalho de oito anos. Graças à enorme quantidade de documentos e relatos da época ao quais o autor e seus pesquisadores tiveram acesso, Sorkin construiu uma narrativa ágil e detalhista, repleta de bastidores das decisões e transações que levaram à euforia da especulação na Bolsa até a fatídica derrocada e suas terríveis consequências.
Com o estouro da bolha, em apenas dois meses o valor do mercado acionário caiu à metade, uma perda de US$ 50 bilhões que representava metade do PIB americano.
O que se seguiu foi uma caça aos possíveis culpados, com investigações e audiências no Congresso, e uma série de reformas na regulação do sistema financeiro – entre elas, o Glass-Steagall Act.
“Em última análise, a história de 1929 não se resume a taxas de juros ou regulamentação, nem à astúcia dos short sellers ou às falhas dos banqueiros. Trata-se de algo muito mais duradouro: a natureza humana,” escreve Sorkin. “Não importa quantos avisos sejam emitidos ou quantas leis sejam escritas, as pessoas sempre encontrarão novas maneiras de acreditar que os bons tempos podem durar para sempre.”
Em sua opinião, o “antídoto para a exuberância irracional não é a regulação por si só, nem o ceticismo, mas a humildade – a humildade de saber que nenhum sistema é infalível, nenhum mercado é totalmente racional, e nenhuma geração está isenta.”
Há livros clássicos que focaram em questões macroeconômicas daquela crise. O 1929 de Sorkin, escrito em ordem cronológica, desenrola-se como um thriller. Descreve a força da especulação e da ambição de figuras centrais da Corporate America à época – e também como empresários e banqueiros manipulavam a imprensa, trocavam informações privilegiadas e favores com políticos, e chantageavam publicamente reguladores. Nada de novo no front.
Um dos personagens centrais é o banqueiro Charles Mitchell, presidente da então maior instituição financeira do país, o National City – que daria origem ao Citibank.
Em um período de enorme liquidez e crescente integração internacional, Mitchell estruturava operações agressivas e alavancadas, já que não havia restrições para os bancos especularem com o próprio capital.
“Wall Street não é mais um mercado local,” dizia o banqueiro. “Agora estamos em um mercado global. As possibilidades são ilimitadas.”
Um exemplo narrado no livro envolve o Brasil. Em 1928, Mitchell pressionou o banco para promover aos clientes títulos da dívida de Minas Gerais, mesmo com um relatório interno alertando para a “ineficiência e incompetência… e completa ignorância, descuido e negligência dos funcionários estaduais.”
O alerta ficou na gaveta. Com o aval do National City, os títulos foram rapidamente adquiridos por investidores americanos.
Abaixo, um excerto do livro – em que Sorkin narra o início dos apuros de Mitchel.
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Charles Mitchell acordou cedo na manhã seguinte após uma noite mal dormida, repassando os acontecimentos da véspera, ainda desesperadamente à procura de uma solução. Fez o que julgava uma obrigação diária: quinze minutos de exercícios físicos – uma ginástica de “preparação”, como ele a chamava, e que geralmente produzia um efeito calmante sobre ele. “Nenhuma quantidade de brilhantismo ou charme pessoal levará um homem ao topo e o manterá lá em cima a menos que ele possa aparecer sorrindo todos os dias”, costumava dizer sobre sua rotina de exercícios.
Enquanto tomava o café da manhã, Mitchell sempre dava uma espiada nos jornais. Será que vazara alguma coisa sobre o National City? Será que alguém sabia dos seus apuros? “Preços das ações despencam 14 bilhões de dólares em corrida nacional para vender; banqueiros prometem apoio ao mercado hoje”, era a manchete do New York Times, enquanto o Daily News estampava: “Queda das ações chega a 10 bilhões de dólares”. Nada disso era novidade para ele.
Na página 2 do Daily News, porém, havia uma foto de Mitchell. De modo geral, ele gostava de se ver nos jornais, mas ultimamente nem tanto – desde que o contexto passara de agradavelmente positivo para decididamente negativo, ele se tornara um alvo fácil para os políticos de Washington que atacavam Wall Street.
O crítico mais ferrenho de Mitchell era o senador Carter Glass, um democrata da Virgínia que via o mercado de ações como um imposto sobre a prosperidade americana e culpava os banqueiros por concederem crédito a especuladores de forma irresponsável. Ele chegara inclusive a cunhar o termo “mitchellismo”.
Mitchell e os colegas banqueiros já tinham traçado uma estratégia para lidar com figuras como o senador Glass – simplesmente ignorá-las. Na opinião deles, o que se passava em Wall Street não era da conta de Washington. Essa posição, no entanto, ficou insustentável depois de outubro de 1929.
Mitchell saiu de casa para um encontro com Gordon Rentschler na Quinta Avenida. O dia estava nublado e frio, e Mitchell, embora mantivesse dois motoristas em sua folha de pagamento, e uma garagem particular com oficina e pessoal próprio na rua 97, gostava de caminhar. Os dois homens seguiram para o sul, a pé. Na esquina da rua 65 com a Quinta Avenida, enquanto esperavam uma brecha no fluxo de automóveis que cruzava a via transversal do Central Park, Mitchell fez ao amigo uma revelação surpreendente.
Ele contou que, a fim de proteger o banco, decidira naquela manhã tomar um empréstimo pessoal de 12 milhões de dólares – um valor muitas vezes superior ao seu patrimônio líquido – e comprar ações do National City. “É preciso fazer alguma coisa”, disse.
Rentschler ficou espantado. “Não faça isso”, implorou. “Não se exponha desse jeito. Vamos pensar em outra solução.”
A proposta de Mitchell colocava em risco não apenas sua fortuna, mas também o futuro de sua família. Se as ações continuassem caindo, seria a ruína de Mitchell, da mulher Elizabeth e dos dois filhos, Rita e Craig.
Mas esse era apenas um dos riscos, pois havia outro: para que tivesse alguma chance de funcionar, o plano precisava ser executado com o máximo sigilo. Se investidores rivais descobrissem que o presidente do maior banco dos Estados Unidos estava resgatando, pessoalmente, sua própria instituição, seria o caos.
Enquanto continuavam a caminhar, Rentschler fez o que pôde para dissuadir Mitchell – sem sucesso.
Era terça-feira, 29 de outubro de 1929, dia que o economista John Kenneth Galbraith viria a chamar de “o dia mais devastador na história da Bolsa de Valores de Nova York, e quem sabe o dia mais devastador na história dos mercados”.
O crash de 1929 ocorreu há quase um século, mas ainda é o desastre financeiro mais significativo – e de certa forma menos compreendido – da história moderna. O público de hoje talvez tenha uma vaga noção do que aconteceu naquela época, mas pouca gente sabe qualquer coisa sobre os indivíduos que desempenharam um papel nesse drama, o que fizeram para precipitar a crise, por que não perceberam que ela estava vindo e que medidas tomaram para tentar combatê-la. E, o que é ainda mais importante: não se dão conta dos notáveis paralelos entre aquela época e o clima político e econômico dos dias de hoje.











