Todos os políticos brasileiros – mas particularmente os de esquerda – precisam prestar atenção no que está acontecendo na Argentina, onde políticas econômicas heterodoxas e o constante adiamento da solução de problemas estruturais da economia estão levando o país mais uma vez à beira do colapso.

A esperança de que um novo acordo com o FMI – duramente negociado – traria paz aos nossos vizinhos foi por terra em poucos dias. A crise política no País se agravou, com disputas ferozes dentro do bloco governista, radicalização populista e uma crescente insatisfação dos eleitores. 

Alberto fernandezO dólar livre, negociado no mercado paralelo, subiu mais de 33% desde o início do mês. A cotação bateu em 337 pesos hoje à tarde, ampliando para 160% a diferença em relação ao câmbio oficial, que está em 130 pesos. É a maior disparidade entre as cotações em 40 anos. 

Temendo novas restrições à compra da moeda americana, os argentinos correm às casas de câmbio e compram o que podem. É a maneira de se defenderem da perda do poder de compra de sua própria moeda, corroída pelo descontrole inflacionário. 

Até quando um povo pode viver assim?

Em uma situação que lembra o Brasil dos anos 80, a maxidesvalorização cambial encarece as mercadorias cujos preços não são controlados pelo governo. Há na sequência uma nova onda de pressão, numa alta que ganha vida própria, embalada pela indexação. 

Economistas já circulam em grupos de WhatsApp gráficos com a escalada vertiginosa do dólar e uma comparação com a crise de 1989, que levou o país à hiperinflação: a trajetória é idêntica.

Enquanto posterga o ajuste das contas públicas e o controle da inflação, o presidente Alberto Fernández, com a popularidade já abaixo da Patagônia, cede ainda mais ao populismo, dobrando a aposta em congelamentos e medidas historicamente ineficientes.

Sem acesso a dólares, fábricas param porque não conseguem importar insumos. E num país rico em petróleo, falta diesel para as máquinas agrícolas. São apenas alguns dos reflexos dos controles cambiais e de preços. 

Para o Brasil, o mais novo mergulho argentino serve de alerta – e a velha piada do ‘efeito Orloff’ paira como ameaça: “Eu sou você amanhã?” 

A economia brasileira possui diferenças evidentes em relação à argentina. Antes de mais nada, o Brasil deu fim ao drama da dívida externa e possui reservas internacionais de US$ 360 bilhões. Nossa inflação está acima da meta, mas nada muito diferente do que ocorre na grande maioria dos países. (Não é uma anomalia, como a que aflige nossos irmãos argentinos.) 

Mas o próximo governo brasileiro receberá um país avariado. A principal âncora fiscal do país, o teto de gastos, foi solapada por PECs que abriram brechas para o aumento de despesas acima do permitido originalmente. A última delas foi a PEC Kamikaze, com um impacto estimado de R$ 80 bilhões/ano para os cofres públicos – já que ninguém acredita que o próximo governo terá cojones para retirar as benesses. Além disso, o País tem um passado de viciado em inflacionismo. Na menor recaída, a alta de preços volta com força. 

E novas medidas populistas como a reversão da reforma trabalhista, o questionamento de privatizações e o descaso com a disciplina fiscal certamente azedariam o ambiente para negócios e nos colocariam no caminho argentino – primeiro gradualmente, depois subitamente. (Este parágrafo tem nome e endereço certos.)    

Na Argentina, o estopim para a disparada do dólar blue, como eles chamam o paralelo, ganhou força depois do pedido de demissão do ministro da Economia, Martín Guzmán, no início do mês. Até o início de junho, o ágio em relação ao oficial era de “apenas” 70%. Detalhe: até o final de 2019, antes da posse de Fernández, as cotações seguiam lado a lado, sem grandes divergências.

Responsável pela negociação de um acordo com o FMI, Guzmán era torpedeado dia e noite pelos kirchneristas contrários a seguir as recomendações do Fundo. 

“Cristina tem uma eficiência diabólica na atividade de demolição sistemática dos ministros que são seus desafetos e uma incapacidade dramática de apresentar soluções,” disse o economista Fabio Giambiagi, um profundo conhecedor dos meandros políticos argentinos.

A nova ministra da Economia é a heterodoxa – por supuesto! – Silvina Batakis, que conta com o apoio da vice-presidente Cristina Kirchner. A “Grega”, como Batakis é conhecida, até o momento não explicou como vai enfrentar a inflação e resgatar a credibilidade das finanças do país. Na dúvida, os argentinos se refugiam no dólar. 

Em 12 meses, a inflação bateu 64%, com viés de alta. O núcleo, que mede a variação dos preços menos sujeitos a intervenções do governo, mantém-se ao redor de 100%. 

“Sem um rápido ajuste do arcabouço macro, aumenta o risco de a inflação convergir para os três dígitos,” os analistas do JP Morgan escreveram em relatório recente.

Na avaliação do Itaú, a deterioração fiscal e as incertezas com relação à política econômica estressaram as percepções do mercado com relação à sustentabilidade da dívida pública. O governo tem dificuldade para encontrar interessados em adquirir seus títulos, e, como no Brasil do passado, recorre à monetização da dívida: financiamento via Banco Central, o comprador de última instância dos títulos que ninguém quer. 

Os gastos do governo crescem 18% ao ano; a arrecadação avança 6%. O déficit primário (sem a conta de juros) equivale a 3,5% do PIB, distante da meta de 2,5% acertada com o FMI.

Batakis, indicada de improviso por falta de nomes, não saciou as ambições dos kirchneristas, que, nos corredores, já chamam a nova ministra de “Guzmanita”. Eles querem a renegociação do acordo com o FMI e a criação de uma renda básica universal cujo custo fiscal seria de 2,5% do PIB. De onde sairia o dinheiro? Do aumento da tributação das exportações – a maneira costumeira de o país reforçar o seu orçamento. 

Os produtores rurais, revoltados com a carga de tributos já elevada e a falta de insumos, não estão dispostos a pagar mais essa conta. Os protestos contra o governo são cada dia mais frequentes. Apenas 25% dos eleitores aprovam o governo.

Alberto Fernández, celebrado anos atrás como um esquerdista moderado, está com a faca no pescoço. Crescem os boatos de que poderia renunciar ao cargo, entregando a Casa Rosada à sua vice.

Já Cristina, não contente com as estocadas na economia, tem liderado campanhas agressivas contra a Suprema Corte, padrão Bolsonaro.

Motivo: os inúmeros processos de corrupção que pesam contra a ex-presidente. Ela pede uma “reforma urgente” da Corte, com a ampliação do número de juízes – para, obviamente, indicar magistrados de sua confiança.

Pobres argentinos. Poderiam estar navegando em mares muito mais tranquilos, surfando a valorização das commodities. Mas põem tudo a perder, no atoleiro político do populismo kirchnerista, uma variante resistente do peronismo. 

O Brasil não chegou lá, mas os riscos vão aumentando. 

“Podemos ir para uma situação parecida, de descontrole inflacionário,” disse o economista Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, ao Brazil Journal. “O teto de gastos acabou. Continua a marcha inexorável dos gastos obrigatórios no Orçamento. O atual governo vai deixar uma herança brutal.” 

No caso de vitória do PT, Maílson acredita que não vão prosperar “bobagens” de campanha eleitoral como a proposta de revisão da reforma trabalhista. “Mas não enxergo no Lula o líder capaz de entender o drama fiscal e o da baixa produtividade.”