Desde que foi ao ar na sexta-feira, o comercial “Unfinished Votes” tem feito muitos queixos cair. Nele, Joaquin Oliver, um jovem americano de origem venezuelana, incentiva as pessoas a votar na eleição americana do mês que vem.
 
As imagens seriam comuns, até banais, não fosse por um detalhe: Joaquin está morto. 

Uma das 17 vítimas do massacre da escola de Parkland, na Flórida, em 14 de fevereiro de 2018, Joaquin perdeu a vida aos 16 anos, e na próxima eleição daria seu primeiro voto para presidente.

Usando inteligência artificial e a tecnologia conhecida como deepfake, a campanha trouxe Joaquin de volta ao mundo para uma última mensagem: que os americanos votem no lugar dos que foram assassinados — e que escolham “políticos que se importam mais com a vida humana do que com dinheiro dos lobby das armas”. 

Assinado pela McCann Health, em Nova York, em parceria com a LightFarm — um estúdio do Rio de Janeiro especializado em imagens 3D e vídeos — o filme é fruto de um trabalho de sete meses, feito remotamente por conta da pandemia.  

“Achei que os pais de Joaquin reprovariam a idéia”, diz o carioca Fábio Rodrigues, um dos três diretores de criação da campanha, na McCann Health.  “Aquela foi a reunião mais desafiante da minha carreira. Primeiro falamos com o pai. Ele ficou em silêncio por 30 segundos. Chamou a esposa e pediu para que repetíssemos tudo para ela. Eles conversaram entre si e nos disseram: ‘essa foi a melhor idéia que já nos trouxeram. Talvez seja a tarefa mais difícil que possamos fazer, mas vamos em frente”, lembra o publicitário. 

O vídeo de dois minutos traz Patrícia e Manuel, pais de Joaquin, e fundadores da ONG ‘Change the Ref’, dizendo que centenas de famílias perdem parentes desta forma todos os dias, mas ninguém lhes dá atenção. Ao ‘trazerem de volta’ o filho, eles esperam que ele não seja ignorado. 

Para usar a inteligência artificial e gerar o rosto de Joaquin, a equipe da LightFarm pediu o máximo de fotos e vídeos do garoto que fosse possível obter. 

“E aí tivemos um problema: os pais só tinham imagens em baixa resolução, fotos dele entre amigos, tiradas de celulares antigos, ou vídeos muito curtinhos”, conta Fábio. Apenas seis fotos estavam boas.

Para se recriar um rosto, são necessários 50 mil frames de fotos em alta resolução. Para preencher as lacunas que faltavam, o time reconstruiu o rosto em 3D via computação gráfica. “Em vários momentos achávamos que não teríamos sucesso, mas as reuniões com os pais do Joaquin nos davam a energia e entusiasmo que a gente precisava para continuar.”

Paralelamente, a McCann Health foi atrás de um ator que parecesse ao máximo com Joaquin. Os publicitários pediram para que os amigos de Joaquin imitassem o jeito do rapaz em vídeos a serem enviados ao ator, além de alguns vídeos do próprio Joaquin. O pai, Manuel, escreveu um texto baseado no que ele acredita que o filho diria sobre o assunto. O ator treinava em casa e mandava suas versões para a agência, até os pais aprovarem. 

A filmagem da campanha se deu em uma tarde no Queens, em frente a uma quadra de basquete na rua. É assim, “jogando basquete”, que os pais imaginam que Joaquin esteja hoje. “Rodamos a cena 60 vezes. Quando estávamos indo embora, um produtor disse: vamos fazer mais uma, de um ângulo diferente. E foi justamente esta a escolhida.” 

Num trabalho minucioso, o rosto de Joaquin foi colocado sobre a face do ator, com toda a dificuldade das faltas de imagem e dezenas de retoques de pós-produção. Mostrar o resultado final aos pais foi um capítulo à parte. “Você pode imaginar a reação deles. Foram muitas lágrimas, inclusive de muita gente na agência.”

“Este é um exemplo de inteligência artificial usada para o bem”, diz Fábio. “Trata-se de uma técnica que assusta, pois pode ser, e já foi, usada negativamente.”

Fábio vive em Nova York há quase três anos, depois de passar como diretor de arte pelas maiores agências do Rio e de São Paulo, incluindo a Talent, África, DPZ, Publicis, e DM9. Foi em Nova York que ele descobriu a publicidade dedicada à saúde, atendendo clientes da área farmacêutica na agência Area 23, antes de ingressar na McCann Health. 

O desafio foi duplo: não só ter de afiar o inglês, mas passar os primeiros seis meses aprendendo os jargões médicos, regulamentações e abreviações. “Me encontrei neste nicho – só damos notícia boa ao anunciar ao público um novo remédio para a cura de uma doença. É uma área focada em melhorar a vida das pessoas.” 

Feita pro bono por todos os profissionais envolvidos, em suas primeiras 24 horas no ar Unfinished Votes ultrapassou 2 milhões de visualizações no Twitter. De um lado, chovem elogios aos criadores. De outro, chegam mensagens raivosas disparadas por religiosos radicais e amantes de armas de fogo — o que já era de se esperar. 

FULL VIDEO

UnfinishedVotes