Enquanto o S&P 500 bombava nos últimos anos – turbinado pelas Magnificent 7 –, Roberto Vinháes buscava bater o mercado de outro jeito.
Um dos pioneiros do buyside independente do Brasil, o fundador das gestoras IP e Nextep decidiu apostar numa carteira com papéis de varejistas, grupos industriais, uma empresa de pagamentos e a Berkshire Hathaway.
“A moda era falar de tecnologia, da empresa que faz espectrografia de não sei o quê. Acho super legal discutir essas coisas, mas é terapia ocupacional. Investimento é outra história,” Vinháes disse ao Brazil Journal.
De 2022 para cá, o fundo da Nextep teve um rendimento acumulado de 28% em reais – acima da alta em reais do S&P 500 (21%), do MSCI World (15%) e do Ibovespa (24%) no período.
Em dólares, o retorno foi de 25%, também superior ao desses índices.
Nos últimos 12 meses até 31 de março, a estratégia rendeu 19% em reais e 4% em dólares – batendo apenas o Ibovespa no período.
As maiores contribuições para o retorno em três anos vieram, na ordem, da Williams-Sonoma, Berkshire Hathaway, General Electric e Adyen, a empresa holandesa de pagamentos.
As posições foram montadas ou ampliadas há cerca de três anos, no pior período para as ações globais desde a crise de 2008 – em 2022, o S&P 500 e o MSCI World caíram em torno de 20%.
O investidor, que hoje atua como chairman da Nextep, espera poder repetir a dose neste ano.
“Tudo o que quero é que as empresas comecem a vir com warnings dizendo que os resultados vão ficar abaixo do esperado. Se as características centrais dos negócios estiverem preservadas, vamos passar o rodo.”
Por que vocês decidiram ficar à margem da euforia com IA?
É sempre a mesma história: seguimos os bons caras à frente das boas empresas. Investimos quando temos a convicção de que isso dará resultado independentemente do cenário.
As grandes porradas que demos nos últimos três anos vieram de empresas meio que abandonadas pelo mercado, que só estava pensando em IA.
Enquanto o pessoal estava comprando Nvidia e Apple, uma empresa como a Williams-Sonoma estava entregando para caramba. A CEO Laura Alber é um espetáculo, o balanço está redondo e a margem operacional sobe de forma consistente (leia mais sobre a tese da Nextep na empresa).
Quando o mercado se deu conta, a ação valorizou (mais que dobrou desde o início de 2022).
Com a GE foi a mesma coisa. Estava valendo US$ 60 bilhões e agora vale US$ 220 bilhões quando se juntam os três negócios que foram divididos. A Berkshire Hathaway também teve um resultado incrível.
Mas a moda era falar de tecnologia, da empresa que faz espectrografia de não sei o quê. Acho super legal discutir essas coisas, mas é terapia ocupacional. Investimento é outra história.
Como vê a mudança de cenário após a eleição de Trump?
Dizem que o mundo está mais complicado. O mundo sempre foi complicado. O que está acontecendo é uma mudança de cenário. Existe uma nova realidade e precisamos reagir a ela.
O que me chama atenção é a monumental dissipação de energia. A Europa, que passou décadas sem investir em armamentos, agora voltou a direcionar recursos para essa área.
Obviamente isso aparece no PIB como crescimento, porque a indústria está produzindo. Mas está produzindo para não usar – hopefully, né?
Esse desperdício de energia também acontece como reação à política externa americana. Os países e as empresas estão gastando tempo e recursos tentando antecipar o que pode ser anunciado para tomar decisões – ah, deixa eu exportar mais agora para não pegar a tarifa nova. Vivemos isso no Brasil na época dos planos econômicos. É péssimo.
A consequência é que o PIB global será menor do que poderia ser, e será um ano complicado para a maioria das empresas.
Estamos num tabuleiro em equilíbrio instável com peças se movendo. Se uma vai para um lado, outra precisa se mexer para manter o equilíbrio.
Não espero que a Laura Alper passe a fabricar armamentos para se adequar a essa nova realidade. Nosso trabalho é encontrar as companhias que podem dar bons resultados apesar do que está acontecendo.
Onde você vê oportunidades agora?
Vamos lembrar que a bolsa americana está caindo neste ano, mas tinha subido muito. Ainda não está aquela Black Friday. Mas estamos atentos.
Tudo o que quero é que comecem a vir com warnings dizendo que os resultados vão ficar abaixo do esperado. Se as características centrais permanecerem, vamos passar o rodo.
Estou monitorando as empresas de biotecnologia, por exemplo. Depois de terem subido muito na pandemia, as ações dessas companhias estão caindo com as dúvidas sobre tarifas e a política de saúde do Trump.
O Robert F. Kennedy Jr., que assumiu o Departamento de Saúde, já defendeu coisas malucas, falou contra vacinas.
Acho que é uma questão de meses até os investidores não aguentarem mais e saírem vendendo. Aí estará num ponto interessante de compra.
A quantidade de medicamentos que podem ser criados com a união entre a biotecnologia e IA aumentou de maneira exponencial. A FDA não está preparado para isso, nem outros órgãos do governo americano.
Para não virar gargalo, será preciso ganhar eficiência. O Elon Musk deveria atuar nisso. É um desafio enorme.
Além disso, o fundo comprou recentemente ações da NVR. Acho que é a melhor construtora dos EUA, atua principalmente na região da Virgínia. Sempre quis investir nela, mas não conseguia porque era cara demais. Agora está num preço interessante.
O balanço dessa empresa é super tranquilo porque ela não compra os terrenos, ela opciona. Quando consegue juntar demanda, constrói, vende e só aí paga o restante, fora as opções, para o proprietário do terreno.
É uma máquina de fazer dinheiro, não gosta de falar com o mercado, fala uma vez por ano, mas fala as coisas certas.
De forma geral, a carteira é muito segura. Temos empresas consolidadas, com liquidez. Não vou comprar uma Robinhood da vida esperando ganhar dez vezes em pouco tempo. Posso ganhar dez vezes com a Microsoft. Não quero complicar minha vida.
Não é o momento de investir em IA?
Em IA e tecnologia de forma mais ampla, somos meio que fiéis ao Google. É de longe a empresa mais barata do setor.
Temos uma visão diferente em relação a uma série de ativos do grupo aos quais os investidores tendem a atribuir valor zero, como a Waymo e o YouTube, que tem um conteúdo de alto nível que o Google está aprendendo a monetizar.
Existe o risco de a empresa ser obrigada a separar seus negócios. Pode ser. Mas duvido que os EUA façam algo que possa prejudicá-la.
A aquisição da Wiz parece um negócio meio maluco à primeira vista: o Google pagou US$ 32 bilhões por uma empresa que surgiu há cinco anos. Mas quanto mais eu olho, mais eu vejo que pode fazer sentido.
É uma empresa de segurança cibernética que vai dar ao Google acesso ao tráfego de todo o mundo. A força de vendas vai chegar aos clientes já sabendo o que eles usam de cloud.
Do ponto de vista do usuário, IA não vai ser, já está sendo uma revolução. E estamos só no começo.
Vou dar um exemplo do que tenho feito. Consigo reunir os dados de resultados das empresas, os relatórios de sellside, buyside, as informações de quem está comprando e vendendo ações. Jogo tudo ali e vejo o que dá para tirar disso. Não tenho mais tempo para analista.
Uma questão importante é onde essas ferramentas estão armazenando os dados. As empresas querem e precisam que seus dados fiquem num ambiente que só elas acessam e não sejam usados para treinar os modelos. Esse tem sido o grande freio para a adoção da IA em larga escala.