A Comp — uma ‘HR tech’ fundada há três anos — acaba de levantar uma rodada de R$ 100 milhões para tentar criar o que seus fundadores consideram uma nova categoria neste mercado, unindo ferramentas de inteligência artificial e consultoria.

A Série A foi liderada pela Khosla Ventures, a gestora de VC de Vinod Khosla, em seu primeiro investimento no Brasil. 

Com mais de US$ 15 bilhões em ativos sob gestão, a Khosla Ventures foi um dos primeiros investidores de empresas como a OpenAI e a Stripe.

A capitalização também teve a participação da Abstract Ventures e da Endeavor Catalyst, além dos dois investidores que fizeram o seed round: a Kaszek Ventures e o Canary. (Os dois aportaram mais do que o pro rata, aumentando suas participações). 

A Comp foi fundada pelo americano Christophe Gerlach e pelo brasileiro Pedro Bobrow, que se conheceram quando estudavam em Cornell. Na época da faculdade, chegaram a empreender juntos criando um delivery de comida, mas depois Christophe foi trabalhar na General Atlantic e Pedro foi para a Lyft, uma concorrente do Uber.

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“Durante esses dois anos ficamos pensando em como empreender de novo,” Christophe, que é o CEO da Comp, disse ao Brazil Journal. “Começamos a olhar muito para a questão das pessoas, e desde o início tínhamos duas convicções: a primeira é que as pessoas são o mais importante de qualquer negócio, e a segunda é que o jeito que as empresas gerenciam pessoas hoje está quebrado.”

O fundador disse que ao pensar no RH como um produto, ele seria um produto com um NPS muito baixo, tanto na visão dos líderes quanto dos colaboradores. “A maior parte das políticas de RH são feitas pensando em aversão a risco e processos burocráticos, e não no melhor para o negócio e as pessoas.”

 A ideia dos fundadores foi criar uma solução que é um mix de serviços estratégicos (num modelo parecido ao de uma consultoria) com softwares e ferramentas de inteligência artificial — o que eles chamam de ‘Superpowered HR Teammate’.

“O que aprendi com os fundadores da Lyft, quando trabalhei lá, é que você precisa criar experiências mágicas. No RH, essa experiência mágica não vem de uma inovação específica, mas de várias pequenas inovações que você vai criando em diferentes áreas do RH e que, juntas, criam um efeito de ‘compound’,” disse Pedro, o outro fundador. 

A Comp já atende mais de 100 clientes, incluindo gigantes como o Nubank, iFood e Quinto Andar. Segundo os fundadores, o foco comercial são empresas que tenham um mindset inovador e busquem questionar o ‘status quo’. 

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A Comp opera com soluções personalizadas. Quando fecha um contrato, ela aloca dois funcionários para trabalhar no cliente (um especialista em RH e um engenheiro de AI), que fazem um diagnóstico dos problemas do RH e ajudam a pensar num plano estratégico e a implementar essas mudanças, o que pode envolver a criação de ferramentas e softwares de AI. 

Um exemplo é o Nubank, que já tinha um time de ‘remuneração’, mas precisava decidir e implantar uma estratégia de remuneração global, que funcionasse para todos os países e colaboradores da empresa. 

“Para isso é preciso ter a expertise de como fazer, o ferramental para ‘produtizar’ isso, e modelos para fazer previsões e recomendações,” disse Pedro. 

“A gente entrou e fez uma análise de qual seria a estratégia de remuneração — vai focar mais em fixo ou variável? Nas disciplinas X ou Y? Depois, criamos um ‘compensation hub’, que é uma inteligência artificial que usa esse modelo de remuneração que definimos como input e consegue criar de forma dinâmica e personalizada a recomendação de salário para cada nível, departamento e país de forma totalmente customizada.”

A Comp recebe um valor mensal dos clientes – que eles chamam de ‘salário’ – que varia dependendo do escopo do trabalho. A startup não abre o faturamento. 

Na teoria, o modelo personalizado da Comp criaria uma dificuldade maior para escalar o negócio. Mas os fundadores dizem que a inteligência artificial mudou essa lógica, permitindo criar soluções hiperpersonalizadas com escala.

“Com AI, conseguimos ser muito rápidos e assertivos mesmo com um modelo personalizado. Conseguimos juntar o melhor dos dois mundos,” disse Christophe.

Segundo ele, cada especialista de RH e engenheiro de AI da Comp consegue atender entre 10 e 15 empresas. Hoje a startup tem 40 funcionários, e o plano é dobrar de tamanho com a rodada. 

A startup também pretende usar os recursos para entrar em novos mercados, começando pelos Estados Unidos, onde os fundadores dizem que o ambiente competitivo é parecido com o do Brasil. 

“Assim como no Brasil, o mercado americano tem consultorias de RH, ferramentas criadas por HR techs e software houses que fazem ferramentas customizadas. Mas não tem ninguém que faz tudo e que entra dentro das empresas e faz esse trabalho estratégico e de longo prazo como a gente,” disse ele. 

O plano é entrar nos EUA no “curto ou médio prazo”, eventualmente ainda este ano.