A COP30, sediada em Belém (PA), representou um momento decisivo na consolidação da liderança do setor privado na agenda climática global. 

A partir de uma conexão estratégica entre governança, negócios e sustentabilidade, a agenda ambiental se colocou no centro das decisões.

Tivemos diversos bons exemplos de governança climática multinível, que visa integrar políticas, dados e financiamento em todos os níveis de governo, envolvimento dos municípios e fortalecimento da capacidade técnica para acelerar a transição climática.

O Brasil, especialmente, se posicionou não apenas como anfitrião, mas como ator relevante das negociações e da implementação de ações concretas. E o papel protagonista do setor privado na governança climática esteve presente de forma contundente na COP30.

A EY House, nosso espaço de negócios e relacionamento em Belém, recebeu mais de 60 CEOs e 100 executivos de alto escalão, além de ministros e governadores – uma demonstração inequívoca de que a implementação da agenda de clima não é uma tarefa exclusiva dos governos, mas uma responsabilidade compartilhada que exige engajamento empresarial robusto.

Implementação, por sinal, é a palavra que resume a atmosfera da COP30 – e esse é um trabalho conjunto, que não pode se restringir ao setor público. 

Enquanto a diplomacia global vem atuando incansavelmente para criar a governança necessária, o setor privado assume a liderança da agenda de ação.

Essa liderança não é simbólica: é soberana. Afinal de contas, a capacidade de execução das empresas gera resultados tangíveis. 

A presença massiva de CEOs, executivos e investidores, em um número muito maior que o de diplomatas em Belém, mostra que o setor tem um papel importante a cumprir.

O que vimos na EY House não foi apenas o engajamento dos executivos das empresas em torno da agenda ESG, mas uma mudança fundamental na lógica do capital. 

O modelo de negócios mudou: saímos da era do repasse de verbas e da filantropia corporativa para colocarmos o Retorno sobre o Investimento (ROI) como um fator predominante nas decisões relacionadas à sustentabilidade.

Inauguramos uma nova fase, em que o capex ligado à sustentabilidade e à natureza passa a ser medido com o mesmo rigor de qualquer outro investimento corporativo. Esse pragmatismo passa a conectar o CEO e o CFO à agenda climática.

A chegada da era do pragmatismo à agenda climática inverte uma narrativa essencial para a evolução da sustentabilidade. 

Durante anos, a descarbonização foi tratada como um objetivo final isolado das metas de negócios. Em nossa visão, porém, a descarbonização deve ser a consequência de diversos outros fatores.

Todo negócio tem como objetivo primário a geração de valor, eficiência e resiliência. Quando uma empresa persegue esses objetivos a partir de projetos que propõem fontes renováveis e práticas sustentáveis, a descarbonização acontece como um resultado natural que se apoia em 5 alavancas de valor:

Infraestrutura resiliente 

Quando falamos em adaptação climática, não falamos de 2050 – e sim de hoje. Por isso, essa é uma alavanca urgente. 

Contar com uma infraestrutura resiliente garante a continuidade do negócio, mitigando os riscos de eventos catastróficos, como enchentes ou secas. Por isso, investir na resiliência da infraestrutura significa proteger o balanço da empresa contra riscos físicos imediatos.

Capital natural

O Brasil possui uma vantagem comparativa inegável. Em uma economia mais voltada ao uso sustentável e menos à exploração dos recursos naturais, um conjunto de nações (Brasil, Indonésia, Congo e Colômbia, entre outras) sai na frente. 

Não se trata de conservação pura e simples, mas de transformação da natureza em um ativo financeiro baseado em modelos que integrem conhecimentos ancestrais à lógica do mercado. O potencial da bioeconomia está sendo finalmente entendido e precificado.

Economia circular

A lógica linear de extrair-produzir-descartar passou a ser um risco operacional e financeiro para os negócios. 

Em uma nova lógica, as empresas passam a buscar projetos de economia circular não apenas para reduzir resíduos, mas para gerar eficiência operacional. 

Ao fechar o ciclo, a empresa mitiga a volatilidade de preços e reduz a dependência de matérias-primas. A descarbonização se torna a consequência de um sistema produtivo mais inteligente.

Supply chain 

A vulnerabilidade das cadeias globais foi exposta nos últimos anos e sua reestruturação vem de uma busca por mais rastreabilidade e eficiência. 

É necessário desenvolver agendas setoriais para que os custos de transição nas cadeias de suprimentos sejam diluídos.

Desenvolver uma supply chain sustentável é, acima de tudo, contar com cadeias seguras e com menor custo operacional no longo prazo.

Cidades sustentáveis

As empresas não operam no vácuo – elas dependem de ecossistemas urbanos funcionais. 

O investimento em cidades sustentáveis conversa diretamente com a infraestrutura necessária para dar suporte às operações e à vida dos colaboradores diante das mudanças climáticas.

Mas como ativar essas alavancas de geração de valor? Isso depende de coleta, análise e uso de dados.

Em um momento de pragmatismo, veremos um salto na aplicação de plataformas de tecnologia Inteligência Artificial (IA) para garantir que a alocação de capital nessas 5 áreas seja otimizada.

Existe um desafio inerente ao desenvolvimento tecnológico: sabendo que a IA gera aumento no consumo de água e energia, a equação financeira precisa levar em conta a medição das emissões e o retorno total dos investimentos. 

Por isso, a mensuração financeira do impacto nos negócios é o que validará a estratégia perante os acionistas. Este é o momento de aliar métricas financeiras às práticas de sustentabilidade.

Nesse sentido, a COP30, longe de ser um fracasso diplomático, representa um ponto de virada para a implementação pragmática e financeiramente viável de mecanismos de gestão sustentável para os negócios.

Saímos de Belém com um alinhamento inédito entre o setor público, a diplomacia global e o setor privado. Nesse alinhamento, a sustentabilidade deixa de ser uma área periférica e se instala definitivamente no core da estratégia das empresas, como uma alavanca superlativa de crescimento.

Atualmente, o custo da inação já é superior ao investimento em soluções sustentáveis. Agora, cabe a nós transformar os compromissos em projetos – e os projetos em valor real para a sociedade e para os negócios. 

Essa transformação está em curso e exige, dos governos, do setor privado e da sociedade civil, um compromisso compartilhado com soluções inovadoras e resultados concretos.

* Ricardo Assumpção é líder de sustentabilidade e ESG da EY na América Latina.

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