Depois de mais de 70 anos de inovação e provocação, Augusto de Campos encerrou sua produção poética. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o último remanescente da poesia concreta – o movimento que agitou a cena cultural nos anos 1950 e 1960 – declarou que seguirá trabalhando na tradução de poesia, mas não escreverá mais poemas próprios.

“Poemas são gestações. Não dá para mim,” explicou.

Lançado este ano, Pós Poemas (Perspectiva; 120 páginas) será seu último livro dedicado à produção própria. (Compre aqui)

“Poesia artigo indisponível,” diz um dos poemas da nova obra (como poesia concreta exige intervenção gráfica, as três palavras são quebradas em linhas de três letras, dispostas em uma coluna no centro da página). Isso pode ser lido como um anúncio de que o poeta está fechando sua loja, ou como um comentário sobre a própria natureza da poesia, sem lugar em um mundo prosaico.

Aos 94 anos, Augusto é a última voz da vanguarda no Brasil. Seus dois companheiros na aventura concretista não estão mais entre nós: Haroldo de Campos, seu irmão, morreu em 2003 aos 73 anos; Décio Pignatari se foi em 2012, aos 85. Foi o trio que em 1952 lançou a revista Noigandres, voltada para a poesia experimental.

A partir do legado de um seleto grupo de poetas – o francês Stéphane Mallarmé, o americano Ezra Pound, o brasileiro Oswald de Andrade, entre outros – a vanguarda de São Paulo desenvolveu uma nova concepção do poema como um objeto que ocupa três dimensões: a palavra, a sonoridade, a configuração gráfica. No jargão dos concretistas, a nova poesia deveria ser “verbivocovisual”.

No “plano piloto para a poesia concreta”, publicado no quarto número de Noigandres, em 1958, o trio concretista decretou que estava “encerrado o ciclo histórico do verso”. Causou um previsível barulho.

“Não é poesia!” os mais conservadores diziam sobre a poesia concreta. Augusto abraçaria a negativa até no título de duas coletâneas, Despoesia (1994) e Não (2003).

A declaração de óbito do verso foi exagerada: essa unidade do poema não só sobrevive com até fez aparições em alguns poemas de Augusto de Campos, como pulsar. Também estavam errados aqueles que acreditaram que a poesia concreta seria uma moda passageira.

Sem se limitar à literatura, o impacto cultural do concretismo reverberou nas artes plásticas e na música popular – dos três fundadores de Noigandres, aliás, Augusto de Campos é quem mais se aproximou da música popular: foi um defensor de primeira hora da Tropicália de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Os concretistas, sobretudo os irmãos Campos, fizeram escola na tradução – ou transcriação, como eles preferem – de poesia. Augusto trouxe para o português poemas de John Donne, Arthur Rimbaud, Rainer Maria Rilke e W.B. Yeats, entre outros.

Em Pós Poemas, a tradução está incorporada às seções dedicadas aos “Profilogramas” e às “Intraduções”, duas modalidades de intervenção gráfica sobre excertos recriados por Augusto – que podem ser, por exemplo, um poema breve de Emily Dickinson ou uma passagem do Finnegans Wake, de James Joyce.

Coletâneas anteriores do poeta paulista já incluíam Profilogramas e Intraduções. No livro de despedida, Augusto revisita procedimentos que já usou antes, aparentemente livre do afã de radicalizá-los. Talvez isso esteja relacionado a uma contradição própria das vanguardas: o que elas alardeavam como inovador com o tempo se torna histórico.

É certo que Pós Poemas já não traz a vibração da busca pelo novo que se sentia, nos anos 1950 e 1960, em criações como a série Ovonovelo e em poemas como Cidade/city/cité e Greve. Mas há beleza – e há estranheza.

Na seção mais extensa do livro, também intitulada “Pós Poemas” (evocando pós-tudo, poema que em 1985 detonou uma polêmica entre o autor e o crítico Roberto Schwarz), encontramos o angustiante ôo, um poema cuja sonoridade é construída sobre o hiato quase cacofônico de conjugações verbais pouco usadas, como “rôo” (de roer) e “côo” (de coar).

Vertade usa letras geometrizadas e coloridas (como as de VIVA VAIA, de 1972) em uma série de variações que fundem as palavras “mentira” e “verdade” – uma especulação verbal em torno da era das fake news e da pós-verdade.

O singelo Melovia, em letras brancas sobre um fundo azul claro, é um passeio pela música da palavra, depurada a suas formas mais elementares. Há uma discreta nota sentimental no poema, coisa rara na obra de Augusto.  A cotovia da primeira linha (ou verso?) talvez cante no bosque onde já cantou a ave de Ode a um Rouxinol, poema do inglês John Keats que Augusto traduziu.

Na seção “Contra Poemas”, Augusto se arrisca na arte de protesto. Há três poemas contra Jair Bolsonaro e uma sátira ao empedernido cerimonial da Academia Brasileira de Letras. São obras circunstanciais, mas engraçadas. “New antiques”, a seção final, traz três experimentos do final da década de 1960 que ficaram de fora de Viva Vaia, obra que recolheu a produção do poeta entre 1949 e 1979.

O trabalho que fecha o livro, ex/isto, é uma folha de papel, reproduzida em foto, na qual está impressa, em maiúsculas, a palavra EXISTO. A folha tem uma marca de dobra entre o X e o I.

Existo ou ex-isto?

Uma dobra prosaica no papel instaura uma crise de identidade no sujeito do verbo. Ou talvez nos lembre, como desde sempre fez a poesia, que a existência é um estado passageiro.