A GOL se meteu na Smiles — e deu um tiro no pé

A GOL se meteu na Smiles — e deu um tiro no pé

Desde o seu IPO, há quase cinco anos, a Smiles construiu pacientemente um argumento sobre sua governança, tentando provar a um mercado cético que um programa de fidelidade pode ganhar um dinheiro honesto e ser independente da companhia aérea que o controla.  

 

Em reuniões com investidores, o CEO Leonel Andrade frequentemente citava provisões no estatuto que protegiam os acionistas da Smiles com uma governança de alto padrão.

 

Ontem, com uma única decisão mal pensada, a GOL botou por terra todo este trabalho, fazendo a Smiles perder quase R$ 1 bilhão em valor de mercado e jogando a empresa na vala comum da governança duvidosa.

 

A barbeiragem começou há alguns dias, quando o conselho da Smiles começou a debater cortar o percentual do lucro que a empresa distribui aos acionistas — historicamente ao redor de 100% — para 25% do resultado a partir do ano que vem. (O 'payout' de 2017 já havia sido discretamente cortado para 75% dias antes.)

 

Publicada na terça-feira à noite, a decisão do conselho fez a ação da Smiles abrir em queda de 6% ontem, gerando especulações sobre uma grande aquisição por parte da companhia — até aquele momento, a explicação mais plausível para uma retenção de caixa tão drástica.

 

Para azar dos acionistas, a verdadeira explicação era muito pior, e emergiu durante a teleconferência de resultados da GOL.  Respondendo à pergunta de um analista, o CFO da companhia aérea, Richard Lark, disse que a decisão de cortar o dividendo “certamente vai fortalecer o balanço consolidado [da GOL] e também vai ajudar bastante na nossa meta de fazer o rating consolidado voltar para ‘BB', como foi no passado."

 

Depois da teleconferência, a Smiles chegou a cair 14,4%, antes de fechar o dia em queda de 9,9%.


“É inacreditável que eles tenham feito uma burrada tão grande. Não há justificativas pra terem tomado uma decisão que destrua tanto valor para eles e para a GOL,” um gestor que cobre a empresa há anos disse ao Brazil Journal. “Mesmo se resolvessem voltar atrás, eles não conseguiriam recuperar o preço anterior à divulgação do Fato Relevante.”

 

O estrago foi tão grande que ricocheteou na própria ação da GOL.  Apesar de ter entregue um resultado acima do esperado, a ação da companhia caiu 2,3%.

 

Fontes com trânsito em ambas as empresas disseram ao Brazil Journal que a decisão do conselho não foi unânime: os três representantes dos controladores votaram a favor, enquanto os quatro conselheiros independentes se dividiram.  Os ‘independentes' na Smiles — cuja 'raison d’être' é proteger a companhia e particularmente os minoritários — são Boanerges Ramos Freire, Marcos Grodetzky, Cassio Casseb e Fabio Bruggioni. A ata da reunião ainda não foi publicada, e o Brazil Journal não conseguiu determinar quem votou como.


Ainda segundo essas fontes, tanto Andrade quanto o CFO da Smiles passaram os últimos dias tentando demover o conselho da decisão, sem sucesso.

 

No Brasil de hoje, acionistas controladores que minimizam questões de governança — e ainda há muitos — o fazem por sua conta e risco. Mas acionistas controladores que deliberadamente depreciam seu ativo mais valioso, estes são espécimes raras.  É preciso ter ‘cojones' para rasgar dinheiro à toa.  Ou muito dinheiro.

 

Mesmo depois da queda de ontem, a Smiles vale R$ 8,9 bilhões na Bolsa; a GOL vale R$ 6,5 bilhões.

 

Para vários gestores, a ideia da GOL de reter o caixa da Smiles é uma medida inepta — ainda mais para uma empresa que, depois de flertar com o desastre, já virou esta página.

 

Como a GOL controla a Smiles, as regras contábeis permitem que ela consolide 100% dos recursos que estão no caixa da companhia.  Mas se a Smiles distribui o caixa, a GOL recebe apenas os 52,7% equivalentes à sua participação acionária.  

 

Dada a destruição de valor na Smiles, os 47,3% que a GOL poderá consolidar 'a mais' se transformaram, na prática, no dinheiro mais caro já levantado pela empresa.

 

Mas há outro ângulo interessante no debate interno que levou à decisão.

 

Quando o conselho da Smiles se reuniu, por exemplo, no dia 27 de dezembro para deliberar sobre outro tema — a atualização dos preços das passagens aéreas e milhas entre a GOL e a Smiles — apenas os quatro conselheiros independentes votaram a matéria.  Os três Constantinos com assento no conselho se declararam impedidos, na forma da lei, "ressaltando que seus impedimentos derivam de suas posições como membros do conselho de administração e controladores" da Smiles e da GOL.

 

I am not a lawyer but.. Se o corte do dividendo foi apenas uma decisão interna de gestão de caixa da Smiles, o voto dos Constantino foi kosher.

 

Mas se a motivação foi “ajudar o rating consolidado da GOL”, os Constantinos parecem claramente impedidos, e trata-se de uma falta na grande área.