Entre 1960 e 1990, Roberto Pontual foi uma das vozes mais influentes da crítica de arte no Brasil.

Mais do que acompanhar a produção de sua época, ele ajudou a organizá-la. Seus livros — entre eles o Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, publicado quando tinha pouco mais de 30 anos — e sua atuação constante no Caderno B do respeitado Jornal do Brasil contribuíram para dar forma ao debate artístico em um momento de intensa transformação cultural.

“Na escolha precisa da melhor palavra, transparecia a admiração que ele tinha por Mário Pedrosa e Antonio Houaiss,” seu marido, Vincent Wierink, disse ao Brazil Journal

Nos anos 1980, Pontual mudou-se para Paris, onde viveu até sua morte, em 1994. De lá seguiu escrevendo, organizando exposições e atuando como mediador entre a arte brasileira e o circuito internacional. Ao mesmo tempo, formava uma coleção que não se orientava por tendências de mercado, mas por proximidade, convivência e afinidade intelectual.

“Compras espontâneas em visitas a ateliês, presentes de artistas, trocas, pagamentos por prefácios, catálogos ou curadorias: assim se formou a coleção de alguém que nunca teve a ambição de ser colecionador,” disse Vincent.

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As 150 obras reunidas por Pontual, mantidas por Vincent por mais de três décadas, agora estão indo a leilão. A coleção é apresentada pela primeira vez em sua integridade, permitindo ao público compreender as escolhas do crítico, seus interesses e círculo de relações.

“Minha primeira impressão foi a do afeto — uma coleção afetiva. De artistas e obras frutos das relações de trabalho do Pontual, mas, principalmente, de amizades e longas trocas,” observa a consultora de arte brasileira Maria do Mar Guinle, radicada há anos em Paris e que atua como assessora da casa de leilão.

Entre as obras, destacam-se peças raras: o tabuleiro de xadrez de Ione Saldanha, a poesia de bolso Pocket Stuff, de Rubens Gerchman, e a tela Visão da Terra: a Lenda do Coati-Puru, de Glauco Rodrigues – uma obra tão representativa do trabalho do artista que combinava ironia, crítica e certa militância – e uma Wanda Pimentel, cuja obra vem sendo redescoberta pelo mercado.

Outro eixo da coleção são dois artistas muito próximos de Pontual: Alair Gomes, com suas fotografias focadas no corpo masculino nas praias do Rio – imagens que constroem uma representação de uma cultura visual própria carioca, onde a praia ocupa um papel central, tanto social quanto estético, e Roberto Leal, com três telas importantes, um artista que vem ganhando recentemente mais reconhecimento no mercado.

Mesmo após sua mudança para Paris, Pontual manteve-se próximo de Gomes e de Leal. Com este último havia vivido um relacionamento amoroso, e sua morte — meses antes da de Pontual, ambos vítimas da Aids — o impactou profundamente. 

Na época em que Pontual atuava, o mercado de arte brasileiro ainda era fundamentalmente local e pouco estruturado. “O mercado era muito menor e ele tinha a preocupação em organizar — por isso o Dicionário no final dos anos 60,” me disse Maria. A ambição de mapear e dar coerência aos movimentos artísticos o acompanhou a vida toda.

“Os artistas o adoravam, pois conheciam sua generosidade e sua curiosidade insaciável,” contou Vincent.

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A visão de Pontual aparece com clareza em Explode Geração!, livro de 1985 no qual ele analisa a chamada Geração 80. Décadas depois, o crítico Tadeu Chiarelli apontaria as limitações do livro, que teria privilegiado a produção mais figurativa e expressiva em detrimento da arte conceitual.

Explode Geração! não é só um registro, é uma tomada de posição, resumiu Chiarelli num artigo. A visão de Pontual não era mesmo neutra – mas talvez fosse essa sua força.

Na coleção, as obras não são aleatórias nem abrangentes no sentido enciclopédico – seguem uma lógica pessoal. A diversidade de artistas e de meios é coerente com a trajetória do crítico.

“Outro aspecto que me impressionou foi a diversidade […] e as áreas de interesse dele como crítico, jornalista e colecionador,” disse Maria do Mar.

Essa diversidade refletia também a preocupação de Pontual em incluir artistas fora do eixo Rio–São Paulo. Isso se manifesta tanto na presença de nomes centrais quanto na inclusão de artistas menos evidentes no circuito dominante, além da atenção a diferentes linguagens — pintura, fotografia, objetos e poesia visual — que espelham os debates das décadas de 1960 a 1980.

“O Brasil passava por momentos políticos muito intensos […] e ele acompanhou os artistas dessas décadas tanto no Brasil quanto depois na Europa,” lembra a organizadora.

Pontual foi um crítico com forte presença pública, capaz de influenciar artistas, instituições e o próprio debate cultural. Hoje é raro haver críticos com essa dimensão. 

A crítica perdeu centralidade ou se diluiu entre curadores, art advisors, acadêmicos, influenciadores e jornalistas, fazendo com que análises mais aprofundadas e estruturadas perdessem espaço junto ao público, que também talvez tenha se tornado mais consumidor, imediatista e menos reflexivo. 

O leilão, além de colocar no mercado um conjunto de obras raras e históricas, revela a qualidade do olhar de um crítico que unia rigor intelectual e sensibilidade.

“Três décadas depois da morte de Pontual, os artistas representados em sua coleção permanecem relevantes, comprovando como ele acertou nas suas escolhas,” disse Maria do Mar.

Roberto Pontual