A maioria das empresas vem usando a inteligência artificial como se fosse um novo computador ou uma nova máquina – algo que ajuda a melhorar a produtividade, mas sem promover mudanças estruturais.
Mas para Jack Dorsey, o cofundador e chairman da fintech Block, a AI vai revolucionar a centenária hierarquia corporativa.
Em um artigo escrito com Roelof Botha, sócio da Sequoia Capital, Dorsey argumenta que a estrutura organizacional das companhias modernas remonta à organização das legiões de soldados dos exércitos romanos, 2.000 anos atrás. Foi uma estrutura criada para coordenar milhares de pessoas distribuídas em grandes distâncias e com acesso limitado à comunicação.
No mundo corporativo americano, essa hierarquia militar se estabeleceu ainda nas primeiras ferrovias, nas décadas de 1840 e 1850. Falhas de comunicação estavam causando acidentes – e mortes.

Houve inovações e tentativas de mudança ao longo do tempo, mas a estrutura hierárquica continua dominante. As limitações são as mesmas que os romanos enfrentaram: reduzir a amplitude de controle significa adicionar camadas de comando, mas mais camadas significam um fluxo de informações mais lento.
“Dois mil anos de inovação organizacional têm sido uma tentativa de contornar esse dilema sem quebrá-lo,” escrevem Dorsey e Botha no artigo From hierarchy to intelligence.
Segundo Dorsey, com o advento da AI pela primeira vez temos um sistema que pode manter todas as atividades e decisões de uma empresa continuamente atualizadas – e usar essas informações para coordenar o trabalho que antes exigia várias camadas de gestão.
O executivo – que também fundou o Twitter – já vem empregando as ideias detalhadas no artigo. No final de fevereiro, a Block demitiu cerca de 4.000 funcionários, o equivalente a 40% da folha.
A Block quer se posicionar como uma empresa remote-first – na qual todas as discussões e informações são registradas e usadas como matéria-prima para um modelo de AI.
“Na Sequoia, percebemos que a velocidade é o melhor indicador de sucesso para startups,” afirmam no texto. “A maioria das empresas está focada em AI como um meio de aumentar a produtividade. Poucas estão focadas no potencial da AI para mudar a forma como trabalhamos.”
Em uma empresa tradicional, a função do gerente é saber o que está acontecendo em sua equipe e transmitir esse contexto para os níveis hierárquicos superiores – e vice-versa. Com a gestão por AI, será possível ter a visão do todo ininterruptamente, e sem perda de informação.
Os autores chamam esse sistema de company world model, que pode ser integrado ao customer world model – isto é, toda a base de informações de seus clientes e usuários. Dessa maneira, desaparece a necessidade de uma camada permanente de gestão intermediária como a dos gerentes de produto.
Tudo o que a antiga hierarquia fazia, o sistema baseado na AI pode coordenar – e potencialmente de maneira muito mais integrada com as demandas dos clientes.
“A rapidez ou lentidão com que as empresas se movem depende do fluxo de informações. Hierarquias e gerências intermediárias dificultam esse fluxo,” dizem Dorsey e Botha. “A questão nunca foi se precisávamos de camadas hierárquicas. A questão era se os humanos eram a única opção para o que essas camadas faziam. Não são mais.”






