No debate público, o mercado de combustíveis costuma ser analisado de forma simplificada sob a ótica da volatilidade dos preços na bomba. 

Mas o acompanhamento diário revela uma realidade operacional muito mais complexa: um elo de capital intensivo, que opera sob forte escrutínio regulatório e margens historicamente comprimidas. 

Um levantamento setorial elaborado pela LCA Consultoria Econômica, com dados consolidados da ANP e do MME, traduz esse gigantismo. O setor de comércio atacadista e varejista de combustíveis movimentou um faturamento estimado em R$ 881 bilhões, o equivalente a 7,3% do PIB do comércio brasileiro.

A distribuição é uma peça fundamental nessa engrenagem.

As empresas desse setor atuam como o conector logístico entre uma infraestrutura de produção concentrada — o parque de refino brasileiro conta com 16 unidades em operação — e um consumo disperso de dimensões continentais. 

Por isso, o desenho atual desse ecossistema faz com que o setor atue como um amortecedor de riscos para o varejo. Sem a escala atual das distribuidoras, os postos teriam de gerenciar estoques significativamente maiores, elevando seus custos operacionais, riscos de segurança e a necessidade de capital de giro.

“Sem um sistema robusto e integrado, o risco de desabastecimento e de paradas na atividade econômica seria maior,” disse Gustavo Madi, economista e diretor da LCA Consultores.

Essa necessidade de coordenação é acentuada pelo fato de o Brasil importar cerca de 30% da sua demanda interna de diesel. A volatilidade das commodities, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio, joga luz sobre essa dependência.

Sem a escala das grandes distribuidoras para otimizar fretes e absorver choques imediatos, os municípios menores e distantes dos portos enfrentariam graves assimetrias de preços e desabastecimento local.

Segundo David Zylbersztajn, presidente do conselho de administração do Sindicom, ainda há a percepção sobre a autossuficiência brasileiro porque ela é associada ao volume bruto extraído – e não à capacidade de refino, que é o correto.

“Como importamos 30% do diesel, torna-se inviável isolar os preços domésticos das oscilações internacionais e cambiais,” disse.

Para sustentar a entrega anual de 137 bilhões de litros, a operação apoia-se em três pilares: logística integrada, (onde 65% do escoamento nacional depende do modal rodoviário, somando 1,2 bilhão de quilômetros rodados em 2025); armazenagem (rede de 360 bases com capacidade de tancagem de 4,9 bilhões de litros para acomodar safras agrícolas); e conformidade técnica (execução de aditivação, controle laboratorial e a mistura obrigatória de biocombustíveis).

Toda essa estrutura divide apenas 13% do preço final na bomba com os revendedores, enquanto o custo de produção e importação abocanha 61%, os impostos diretos (ICMS e PIS/COFINS) respondem por 16% e a compra de biocombustíveis consome os 10% restantes.

Em períodos de forte pressão inflacionária, o elo intermediário é alvo frequente de questionamentos. Resultado: em períodos de alta, surge o risco de diagnósticos imprecisos que buscam apontar postos e distribuidoras como os únicos responsáveis pelos repasses. 

“Fiscalizações baseadas em critérios subjetivos de ‘preço abusivo’ geram insegurança jurídica, desestimulam importadores privados e afetam os investimentos,” disse Zylbersztajn.

Se por um lado a operação exige controle rígido de custos, por outro o setor consolida-se como uma das maiores fontes de receita para o setor público. 

A arrecadação potencial estimada de tributos alcançou R$ 232 bilhões, apresentando um crescimento nominal de 10,8% impulsionado pela consolidação do regime de alíquota monofásica. 

Para os estados, o desempenho do setor é vital, respondendo por cerca de 24% de toda a arrecadação de ICMS do País. Além do peso fiscal, a cadeia responde por 447 mil empregos diretos e indiretos, movimentando uma massa salarial anual de R$ 18,6 bilhões.

Uma quebra de continuidade nesse fluxo traria consequências severas e imediatas para a atividade macroeconômica. 

Segundo Madi, da LCA, como o diesel é o combustível central do transporte rodoviário, qualquer falha no abastecimento afetaria diretamente o frete, o fornecimento de alimentos, a atividade industrial e os serviços essenciais. 

“Estudos do Banco Central e da FGV apontam que a paralisação do modal rodoviário pode gerar perdas de PIB equivalentes a R$ 9 bilhões de reais por dia de interrupção,” disse. 

Diante de um mercado estratégico para a segurança nacional, a proteção técnica da cadeia contra interferências políticas surge como o principal pilar de sustentabilidade. 

Para o presidente do conselho do Sindicom, o caminho para proteger a estabilidade do país não tolera soluções artificiais, passando obrigatoriamente pelo respeito cego às regras de mercado. 

“É fundamental assegurar que o mercado opere de forma previsível, fundamentada em critérios técnicos, evitando intervenções diretas e artificiais nos preços. Essa é uma contribuição essencial do setor para a normalidade institucional,” disse Zylbersztajn.

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