Janelas raras de oportunidades estão abertas.

O mundo avança rapidamente de um arranjo unipolar para um sistema multipolar, marcado por cadeias produtivas mais regionalizadas, tensões geopolíticas persistentes e políticas comerciais em transformação.

Para a América Latina, é um momento decisivo. Nos últimos 25 anos, a região cresceu, em média, 2,3% ao ano, contra 3% no mundo. Na última década, o desempenho caiu para cerca de 1,2% ao ano. Economias que tinham níveis de renda semelhantes no início do século hoje avançam quase o dobro.

Ainda assim, o futuro não está escrito. Temos condições reais de acelerar nosso ritmo de crescimento, e a produtividade se consolida como o principal eixo dessa virada. Um salto consistente nesse indicador pode ampliar a renda, fortalecer o financiamento de políticas públicas e sustentar o contrato social nas próximas décadas.

O desafio Brasil

O caso brasileiro ilustra bem o desafio. No último quarto de século, o país cresceu cerca de 2,1% ao ano, impulsionado majoritariamente pela expansão da força de trabalho. A produtividade contribuiu com apenas 0,7 ponto percentual, desempenho significativamente inferior ao de economias comparáveis, como Polônia, Malásia e países da Ásia emergente. 

Esse modelo de crescimento econômico impulsionado pelo aumento do número de trabalhadores caminha para o seu limite. Embora a janela do bônus demográfico ainda esteja aberta (temos mais pessoas em idade de trabalhar do que crianças e idosos), essa realidade deve durar só mais uma década. Não é exagero dizer que essa é a nossa última chance de enriquecer antes de envelhecer.

Investir melhor para crescer mais

Se a América Latina elevasse o crescimento anual da produtividade para algo entre 1,7% e 2,6%, poderia alcançar entre US$ 8,9 trilhões e US$ 10,3 trilhões de PIB até 2040, até 40% acima do cenário base.

Mas isso exige uma mudança profunda no padrão de investimento. Não basta investir mais; é preciso investir melhor. Hoje, cerca de 80% do capital na região é direcionado a setores de baixa complexidade produtiva, com efeitos limitados de difusão tecnológica. Economias que aceleraram a produtividade fizeram escolhas claras: infraestrutura moderna, manufatura avançada, serviços intensivos em conhecimento e tecnologias habilitadoras.

No Brasil, historicamente, o investimento contribuiu com apenas 0,9% para o crescimento da produtividade, cerca da metade do observado em economias pares. Reverter esse padrão é a condição para sustentar crescimento, competitividade e inclusão.

Três frentes para destravar valor

Apesar dos desafios, a América Latina está bem-posicionada para capturar valor em três frentes alinhadas às transformações globais. A revitalização da base industrial, o avanço na digitalização global e a valorização em escala de seus recursos naturais podem, juntos, adicionar entre US$ 1,1 trilhão e US$ 2,3 trilhões ao PIB regional até 2040.

Nesses eixos, sete setores concentram o maior potencial de impacto: manufatura de próxima geração, Power-to-X (tecnologias que convertem energia renovável em outras formas de energia ou produtos), serviços digitais, data centers, agroalimentar, petróleo e gás, e minerais críticos.

Para o Brasil, essa agenda representa uma oportunidade estimada entre US$ 195 bilhões e US$ 410 bilhões adicionais até 2040. O país reúne ativos raros. Tem relevância em veículos elétricos, baterias e semicondutores, conta com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo – o que favorece soluções Power-to-X – e lidera regionalmente o setor de serviços digitais e data centers.

Somos o segundo maior exportador mundial de minério de ferro e responsáveis por mais da metade da produção latino-americana de petróleo. Além disso, a alta produtividade do nosso setor agroalimentar nos coloca entre os principais exportadores de alimentos do mundo, reforçando o papel estratégico do Brasil na segurança alimentar global.

Crescer nos setores com forte foco em produtividade pode elevar a nossa renda per capita para acima de US$ 15 mil, um patamar comparável ao de países mais avançados.

Geopolítica, tecnologia e o momento certo

O contexto global amplia essa oportunidade. O avanço de um mundo multipolar vem reduzindo, desde 2017, a distância geopolítica do comércio e do investimento estrangeiro direto, favorecendo regiões com localização estratégica, capacidade produtiva e neutralidade relativa. A América Latina atende a esses critérios e pode se consolidar como parceira confiável em cadeias mais regionais e resilientes.

Paralelamente, a aceleração tecnológica – inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais – cria mercados trilionários e redefine vantagens competitivas. Embora a região ainda tenha muito a avançar na adoção tecnológica estratégica, ela se beneficia de custos competitivos de mão de obra, fuso horário alinhado à América do Norte, conectividade crescente e uma base robusta de capital humano. 

O crescimento sustentável e inclusivo em jogo

Nada disso acontecerá automaticamente. Converter potencial em crescimento exige ação coordenada e escolhas difíceis. Quatro aceleradores são decisivos: diversificar corredores comerciais, fortalecer a integração e o investimento intrarregional, simplificar marcos regulatórios em setores-chave e acelerar a capacitação e requalificação da força de trabalho.

A janela de oportunidade é finita. Com o crescimento da força de trabalho desacelerando, cada ano perdido pesa mais do que o anterior. A produtividade não é apenas uma variável econômica, é o pilar do crescimento sustentável e inclusivo na América Latina. Temos, como região e país, os ativos certos. O contexto global é favorável. Os números mostram que o salto é possível. 

Se não quisermos que mais uma vez o potencial fique pelo caminho, não há rota alternativa: a produtividade é a agenda de crescimento a ser buscada.

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Tracy Francis é sócia sênior e Managing Partner da McKinsey para a América Latina.

Nelson Ferreira é sócio sênior da McKinsey e líder global da prática de Agricultura.

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