A VanEck – gestora americana com US$ 220 bilhões de AUM e uma longa especialização no mercado de ouro – acredita que a disparada do metal nos últimos anos não deveria assustar os investidores que miram o longo prazo.

“Quando o papel do ouro na economia mundial muda fundamentalmente, como está acontecendo agora, os investidores não deveriam ter medo da alta de preços. Deveriam focar na tendência,” o CEO Jan van Eck disse ao Brazil Journal.

Fundada em 1955 pelo pai de Jan, John, a VanEck lançou um dos primeiros fundos do mercado americano dedicados a investir em ouro, ainda nos anos 1960 – antecipando o aumento da inflação na década seguinte.

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Desde 2006 a casa se especializou em ETFs. No Brasil, comprou há dois anos o controle da Investo, especializada em investimentos passivos. 

Para Van Eck, o ainda minúsculo mercado de ETFs no Brasil vai crescer com o tempo, à medida que os investidores entenderem esse tipo de aplicação. 

Abaixo, os principais trechos da conversa.

Que mudanças estruturais você vê no mundo dos investimentos?

A base da filosofia de investimentos da VanEck é montar estratégias de alocação de ativos com base em tendências de longo prazo. 

Funcionamos assim desde que meu pai fundou a empresa em 1955, dizendo que os americanos deveriam diversificar e investir fora dos EUA. Em 1968, ele sugeriu alocações em ouro porque estava preocupado com a inflação – que aumentou muito na década seguinte.

A maioria dos investidores gosta de ir atrás do que está subindo no momento. Nós buscamos tendências de longo prazo que estão puxando o mercado como um imã, mas que, por alguma razão, os investidores não estão conseguindo identificar. 

Hoje, é o caso do ouro. Parece que o mundo voltou a funcionar como há 100 anos, quando nenhum banco central tinha credibilidade sem reservas em ouro e não havia uma economia-líder. 

Há cinco anos, surgiu o debate sobre se a moeda chinesa tomaria o lugar do dólar. Acho que essa é a pergunta errada a se fazer. 

Não haverá outra moeda capaz de funcionar como reserva de valor como o dólar. Esse lugar será ocupado pelo ouro, porque os países não querem ser controlados pela política monetária de outra nação. 

Acredito que essa reorganização global será uma tendência de dez anos, e isso terá impacto sobre os investimentos. 

Depois da forte alta dos últimos anos, isso já está no preço do ouro?

Quando o papel do ouro na economia mundial muda fundamentalmente, como está acontecendo agora, os investidores não deveriam ter medo da alta de preços. Deveriam focar na tendência. 

Não estou dizendo que o ouro não pode perder valor por um ou dois anos. Foi o que aconteceu nos anos 1970: houve quedas, mas foram correções num bull market.

Os emergentes voltaram ao radar dos investidores globais nos últimos meses. O fluxo para esses mercados é sustentável? 

A maior tendência dos últimos 20 anos foi provavelmente a emergência da China como uma potência industrial. 

Olhando para os próximos dez anos, o crescimento da economia da Índia – que deve se aproximar do tamanho da Europa continental – é uma tendência clara, e isso deve ser outro motor para investimentos.

Mas não consigo fazer previsões sobre os mercados emergentes como um todo. Olho país por país. No caso do Brasil, os juros altos tornam os bonds muito atrativos. 

Vale a pena lembrar que, no começo de 2025, praticamente nenhum mercado era mais odiado que o brasileiro. No ano anterior, os investidores globais estavam animados com o País – e se decepcionaram. Então, em 2025, não podiam nem ouvir falar de Brasil. 

Mas é justamente nesses momentos que os mercados valem a pena, e não foi diferente com o Brasil. A Bolsa ainda pode valorizar um pouco mais. 

Quais são os principais riscos no radar?

As últimas grandes crises financeiras surgiram em Wall Street: excesso de financiamento, de otimismo com o mercado, às vezes favorecido por questões regulatórias. 

Atualmente, o grande risco está em Washignton, e é fiscal. O déficit americano chegou a 6,5% do PIB, o que é perigoso para qualquer país. 

O consumidor americano é saudável, as empresas também, mas o governo americano está gastando demais. 

Entendo que isso pode não importar por 20 anos, mas é errado dizer que não é um dos maiores riscos para os portfólios. Os títulos públicos podem perder valor.

O mercado brasileiro de ETFs está crescendo muito lentamente. O que pode destravá-lo?

Esse mercado ainda está muito no começo no Brasil mas tem enorme potencial. O arcabouço regulatório é bom. O principal desafio é educação: é preciso ensinar o investidor sobre ETFs, e isso leva tempo. 

É verdade que investimentos ligados aos juros altos dominam boa parte dos portfólios dos brasileiros, mas isso muda com o tempo. 

Além disso, existem ETFs atrelados a diferentes classes de ativos. Aos poucos, os investidores vão entender quais exposições são mais interessantes para seu perfil.