A ação da Stone&Co cai 20% em pouco mais de um mês, num movimento que teve início com a divulgação de resultados abaixo do esperado no quarto tri e de um guidance decepcionante.

Ainda que o negócio de pagamentos tenha margens elevadas, a visão do próprio management é que a empresa precisa ir além disso para crescer de forma consistente.

“Estamos nos reorganizando para a companhia ter cada veserz mais uma cara de banco e menos de uma maquininha que faz outras coisas,” o CEO Mateus Scherer disse ao Brazil Journal.

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A dúvida dos investidores é se a Stone é capaz de entregar isso antes de ser engolida pelos concorrentes.

“Os bancos estão utilizando a adquirência como mais um serviço dentro de um pacote que é mais amplo do que a Stone consegue disponibilizar hoje em dia. Com isso, fazem uma precificação melhor e extraem valor mais fácil,” disse um gestor que comprou a ação depois do selloff recente porque acha que o papel ficou tão barato que compensa o risco. 

O BTG Pactual não enxerga um quick fix para o  negócio, mas acredita que a empresa pode entregar mais nos próximos anos – e que o valuation atual já precifica boa parte das incertezas. 

“A questão de curto prazo é se os investidores interpretam o ambiente competitivo atual e os próprios desafios da Stone como uma situação de ‘copo meio cheio’ ou ‘copo meio vazio,” pondera Eduardo Rosman, o analista responsável pelo setor financeiro no BTG, que tem buy para a ação. 

A Stone construiu um dos maiores canais de distribuição do País, com forte penetração entre micro, pequenos e médios varejistas. 

Em 2025, lucrou R$ 2,5 bilhões, 17,5% a mais que no ano anterior, com um ROE de 26%.

A empresa estima ter algo próximo de 20% de market share em pagamentos no seu principal segmento, de PMEs. 

Mas em crédito e banking – que inclui conta corrente e serviços de gestão de caixa – a participação é de “low single digits,” entre 1% e 2%, segundo Scherer.

Embora o crédito venha crescendo de forma acelerada – a carteira mais que dobrou em 2025 –, a escala ainda é pequena: o portfólio total somou R$ 2,8 bilhões em dezembro. 

A Stone calcula que seu mercado endereçável total seja de R$ 100 bilhões em receita, divididos de forma relativamente equilibrada entre essas três verticais.

Hoje, porém, o resultado ainda é desproporcionalmente dependente da adquirência – um segmento altamente competitivo, volátil e com margens que tendem a ser menores ao longo do tempo, e não só no Brasil.

No quarto tri, o crescimento do TPV (o volume total processado) ficou abaixo do esperado, com um churn alto. Parte disso se deve a um um ambiente macro pior, com enfraquecimento do consumo.

Mas a expansão mais forte do online – onde a Stone tem menor exposição – sobre o varejo físico, ofertas mais agressivas da concorrência e problemas de execução também pesaram. 

“Se a empresa aumenta preço e perde market share, ok. Mas ela perdeu dos dois lados. Entrou num equilíbrio que preocupa,” disse um gestor que zerou o investimento em Stone no fim do ano. 

Segundo um analista, os problemas são difusos de acordo com o perfil do varejista e da região. “Em alguns casos, falta crédito; em outros, a questão é preço. E há quem reclame de máquinas antigas.”

Para Scherer, o desafio é mostrar “o valor da solução completa.”

“Somos o player do setor focado em PME, e nossa oferta de produtos evoluiu bastante no ano passado mas ficou complexa para o cliente. Precisamos simplificar e evoluir na execução,” disse o executivo, que assumiu como CEO em março depois de 11 anos na companhia, três deles como CFO.

“A gente sempre teve um foco grande na venda. Precisamos desenvolver o relacionamento ao longo da vida do cliente.”

Por enquanto, nem a empresa nem o mercado esperam grandes mudanças no curto prazo. 

A Stone deu um guidance de lucro bruto de R$ 6,6 bilhões a R$ 7 bi para 2026 e de R$ 7,2 bi a R$8,3 bi para 2027, abaixo do que analistas estimavam.

Prevê ainda uma alta do TPV na casa de 5%, abaixo da expansão prevista para SG&A (despesas de vendas, gerais e administrativas) de 10% para este ano e 20% para o próximo, segundo o BTG. 

O CFO Diego Salgado lembrou que poucas empresas dão guidance para dois anos, e que o mercado ficou mais frustrado com as expectativas para 2027. 

“Um guidance mais longo embute um grau de incerteza maior, porque fazemos as projeções com base nas informações que temos hoje.”

Para Scherer, existe espaço para buscar números melhores, especialmente em despesas, incorporando evoluções em tecnologia e inteligência artificial. 

“Sim, temos de fazer um monte de investimentos para evoluir de uma maquininha para uma plataforma mais completa, mas o mundo está evoluindo muito rápido, e é difícil você antecipar tudo que vem pela frente,” disse o CEO. 

A incerteza de quando e como a empresa vai entregar o que propõe levou ao selloff do último mês. “A Stone sempre foi uma empresa de vendas, não de tecnologia. É verdade que está crescendo em outras verticais, mas o core está decaindo mais rapidamente,” disse o gestor que vendeu a ação.

Quem comprou nas últimas semanas está de olho no desconto do papel – e no potencial de dividendos. 

A Stone negocia a 5,7x o lucro para 2026, um dos menores P/Es do setor, abaixo de bancos médios, que geralmente negociam a múltiplos menores por terem ROEs mais baixos, segundo o BTG.

O valuation exclui os R$ 3,1 bilhões recebidos com a venda da Linx – que devem ser usados para a recompra de ações e o pagamento de dividendos (a empresa informou que vai comunicar isso em abril). 

Com a distribuição desses recursos, o dividend yield deve chegar a 17%, segundo o Citi. A empresa também anunciou que deve usar cerca de R$ 2 bilhões para recomprar ações. 

A Stone tem ainda cerca de R$ 10 bilhões em depósitos não remunerados – que, com juros de 15%, geraram um resultado em torno de R$ 1,5 bilhão em 2025. 

Para o Citi, o preço justo para o papel implica um múltiplo de 8,3x.

Rosman comparou a situação da Stone à do Banco Brasil na época da reeleição de Lula, quando o BB estava negociando abaixo de 4x o lucro apesar de ter excesso de capital e provisões elevadas. 

“Na época, argumentamos que o dividend yield era tão alto que a assimetria parecia atrativa – os lucros teriam que piorar muito rapidamente para que a tese não funcionasse.”

Nesses múltiplos, banqueiros e analistas acreditam que a Stone pode ser alvo de um M&A. 

Na visão de Gustavo Schroder, o analista de financials do Citi, as oportunidades visíveis de reinvestimento no core business são “limitadas”. 

Além disso, escreveu ele, a companhia “parece estar migrando para uma estrutura operacional mais enxuta, priorizando eficiência e disciplina de capital, em vez de iniciativas de expansão, o que a torna mais atrativa para um player financeiro ou estratégico”. 

“A empresa quer isso, a questão é: quem tem bala para uma fusão ou compra sem acionar o CADE,” disse o executivo de um banco de investimentos. 

Scherer diz que a agenda não é “de perseguir M&As ou crescer por aí”. “Nos últimos cinco anos, a gente já foi vendido ou se fundiu com todo mundo.”

A Stone vale US$ 3,5 bilhões na Nasdaq.