É impressionante que os três grupos mais importantes da música brasileira da virada dos anos 60 para os 70 tenham tido suas trajetórias marcadas por conflitos, desencontros e rachas traumáticos.
A música brasileira foi fraturada pelas polêmicas e discussões entre os integrantes dos Novos Baianos, as brigas entre Rita Lee e os irmãos Baptista nos Mutantes e, principalmente, o desencontro completo e irreversível entre os três integrantes do Secos & Molhados.
Trio fundamental para a compreensão de uma revolução comportamental no Brasil da ditadura, o Secos & Molhados teve um caminho tão fulminante quanto efêmero. Essa história – que já havia sido narrada no ótimo livro Primavera nos Dentes, do jornalista Miguel de Almeida, de 2019 – ganha novos e específicos contornos com a exibição do documentário homônimo, dirigido também por Miguel, e exibido em quatro partes pelo Canal Brasil.
Pela série fica-se sabendo, principalmente, que o racha permanece mesmo depois de passadas mais de cinco décadas. Primavera nos Dentes – A História do Secos & Molhados destrincha ainda como a aparente falta de afinidade entre o estudante de arquitetura Gerson Conrad, o jornalista português João Ricardo e um jovem Ney Matogrosso – que até então não sabia se queria ser cantor ou ator e ganhava a vida fazendo artesanato numa feira hippie no Rio – deu uma liga perfeita e alavancou o grupo ao mais alto patamar da MPB.

Tocando em todas as rádios, lotando ginásios e vendendo mais de um milhão de cópias do primeiro disco – ultrapassando até o fenômeno Roberto Carlos – os Secos & Molhados foram do céu ao inferno em pouco mais de um ano.
Revelados no período mais barra pesada da ditadura, a banda não apenas seduziu o público (aí incluídos até ouvintes infantis) como conseguiu chocar os espectadores com sua proposta inclassificável, que misturava androginia com psicodelismo, tropicália com glam, fado com rock.
O documentário também mostra bastidores dos primeiros shows e das primeiras gravações – conturbados desde o início. As entrevistas ajudam a compreender como o sucesso instantâneo foi favorecido pela estética transgressora que afrontava todos os padrões. Ney admite que a maquiagem servia como máscara e também como permissão para que ele se colocasse no palco e nos estúdios como um artista inclassificável, com total liberdade para agir.
Aliada à proposta musical, os Secos & Molhados traziam – de maneira consciente ou não – uma revolução comportamental, com forte inspiração dos grupos teatrais de vanguarda do Rio e de São Paulo, como os teatros Opinião e Oficina. Uma inspiração que, segundo Miguel de Almeida, também atingiu Chico Buarque, Edu Lobo e Caetano Veloso.
Assim, além de retratar aquele momento histórico, o documentário discute o papel da resistência cultural, o combate à censura, a formação de novos públicos e o poder da indústria do entretenimento.
Destaque para a riqueza do acervo apresentado, com vasto material de imagens de arquivo, fotos e trechos de apresentações do grupo, cenas de O Rei da Vela, dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa, e de filmes de Rogério Sganzerla.
Além disso, a série proporciona o reencontro emocionante de parte dos integrantes, com Ney Matogrosso e Gerson Conrad conversando e confraternizando com os músico Emilio Carrera, piano, e Willy Verdaguer, contrabaixo – que integravam o grupo que dava a base instrumental ao trio – com o letrista Paulo Mendonça, com o produtor Moracy do Val, com o ator e cenógrafo Cláudio Tovar, a com atriz Helena Ignez, além de discípulos que confirmam a influência dos Secos & Molhados em suas carreiras, como Charles Gavin, Roberto Frejat e João Marcello Bôscoli.
Se mais não fizeram – produtores, pesquisadores e músicos envolvidos com o documentário – foi por causa da opção de João Ricardo pelo recolhimento e sua intenção de barrar qualquer autorização que permitisse o uso de músicas de sua autoria (na verdade coautoria, já que ele geralmente fazia músicas em cima de letras de outros parceiros) na série.
“Ele conversou comigo no período da produção do livro,” lembra Miguel de Almeida. “Houve encontros, almoços, conversas onde ele me contou tudo o que me interessava, me deu fotos e foi muito gentil. Porém, para a série, ele não me respondeu. Mandei e-mails com os convites e, lá pelas tantas, ele colocou um advogado para intermediar. Aí nada mais avançou.”
O comportamento distante e arredio de João Ricardo tem sido constante. Com Ney Matogrosso, por exemplo, um dos raros registros de contato entre os dois foi com a gravação de Tem Gente com Fome, composição de João Ricardo em cima de poema de Solano Trindade, que integra o repertório do disco Seu Tipo, de 1979.
Miguel conta ainda que nunca houve uma briga, um confronto. “O que houve foi uma divergência ampliada pelo esfriamento ao longo dos anos”. Porém, para ele, essa proibição imposta por João Ricardo beira o absurdo. “Com o tempo, a audição das músicas não pertence mais aos seus autores. Torna-se um bem imaterial da humanidade. Uma proibição como essa faz com que todos percam.”
Assim, a solução encontrada para driblar a proibição contou com a colaboração dos que aceitaram participar do projeto. O resultado foi a gravação histórica de um clipe inédito – com clara inspiração daqueles tempos – de Ouvindo o Silêncio, composição de Gerson Conrad e Paulo Mendonça, interpretada por Ney Matogrosso e Conrad.
Dessa maneira, o resumo de todo esse período, de toda essa revolução, pode ser compreendido pela junção das opiniões de quase todos os entrevistados: o Secos e Molhados foi um cometa – tudo muito novo, tudo muito rápido.











