BOSTON – As instituições brasileiras não se saíram mal na defesa da democracia, mas falta ao País uma estratégia de desenvolvimento econômico.

Essa é a avaliação do celebrado economista Daron Acemoglu, professor do Massachusetts Institute of Technology e um dos autores do best-seller Por Que As Nações Fracassam.

Global Watch“O sucesso durante algum período foi devido às exportações de produtos agrícolas. Não é assim que o Brasil vai ficar rico,” Acemoglu disse ao Brazil Journal em seu escritório no MIT. “Como a indústria e os serviços vão se tornar produtivos e competitivos? O Brasil não vai se tornar um país de renda média alta apenas vendendo recursos naturais para a China.”

Acemoglu, um dos mais influentes pesquisadores do mundo no estudo do desenvolvimento econômico, disse que as instituições brasileiras se saíram bem na defesa da democracia.

“Se eu fosse brasileiro, sentiria algum orgulho pelo fato de a democracia brasileira ter resistido a esse período muito difícil.”

Abaixo, os principais trechos da entrevista – que pode também ser assistida na íntegra no vídeo acima.

Dez anos atrás, quando saiu a primeira edição de Por Que As Nações Fracassam, vocês estavam relativamente otimistas com o Brasil, por causa das reformas políticas e econômicas que o Brasil estava fazendo, após o fim da ditadura militar. Mas então o Brasil passou por diversas crises e escândalos de corrupção. Mais recentemente, houve ameaças à democracia. Como avalia o País hoje?

Havia um grão de verdade em nosso otimismo. Também cometemos alguns erros. Compreendemos bem os problemas de corrupção municipal no Brasil. Mas subestimados o quão profunda a corrupção havia penetrado no PT e como isso mudaria a face da política brasileira.

Por outro lado, apesar de todos esses altos e baixos, as instituições brasileiras sobreviveram durante a presidência de Bolsonaro. O que vimos com Bolsonaro foi muito parecido com o que aconteceu nas Filipinas com Duterte, na Hungria com Orbán, na Turquia com Erdogan. Bolsonaro foi tão antidemocrático quanto eles.

Mas as instituições brasileiras resistiram ao desafio imposto por Bolsonaro. Apesar de o Brasil ser provavelmente a democracia mais recente entre muitos desses países, em certo sentido, na sua transição política pós-ditadura, ele tem se saído bem.

Alguns temiam que houvesse um golpe militar. Não foi o caso. Bolsonaro, apesar de ter instintos tão ruins quanto Trump, precisou reconhecer que perdeu a eleição.

Dada a sua experiência no estudo do desenvolvimento institucional, acha que o Brasil está progredindo nesse aspecto ou está apenas patinando sem sair do lugar?

As instituições democráticas do Brasil hoje são mais fortes do que eram em 2012? Não tenho certeza. Apesar do fato de eu achar que Dilma Rousseff foi uma presidente ineficaz e havia muita corrupção no PT, o impeachment foi um sinal de força institucional? Provavelmente foi um erro.

Houve períodos em que as instituições funcionaram mal e foram capturadas para fins políticos.

Mas, no geral, acho que se eu fosse brasileiro, sentiria algum orgulho pelo fato de a democracia brasileira ter resistido a esse período muito difícil. Melhor do que a democracia nos EUA, se considerarmos como o cenário institucional americano foi falho ante as ameaças à democracia.

Por que, em sua opinião, as instituições americanas não estão respondendo adequadamente a ataques contra a democracia?

Um dos dois partidos nos EUA tornou-se completamente antidemocrático. Muitos legisladores republicanos estão agora adotando uma estratégia de minar as instituições. Há um pouco disso no Brasil também, mas não na escala em que a Suprema Corte dos EUA tornou-se completamente politizada nos EUA.

Não estou dizendo que os EUA estão falhando enquanto o Brasil está triunfando. Mas, do ponto de vista de alguém que estivesse analisando, em meados dos anos 2000, as instituições desses países, o Brasil se comportou de uma forma que muitos teriam achado surpreendente. Enquanto isso, as instituições americanas se saíram bem pior do que a maioria dos analistas teria previsto. Os brasileiros devem se orgulhar disso.

Mas há muito a ser feito. Foi ótimo para a democracia brasileira a vitória de Lula, mas ele também é uma figura falha.

E qual a sua avaliação da economia brasileira? Houve avanços nesse período?

O sucesso durante algum período pré-Bolsonaro foi devido às exportações de produtos agrícolas. Não é assim que o Brasil vai ficar rico. Como a indústria e os serviços vão se tornar produtivos e competitivos? Qualquer governo precisa ter uma estratégia muito melhor sobre esses pontos.

A desigualdade brasileira é alta, mas não há razão para esperar que volte aos níveis que conhecemos nas décadas de 1970 ou 1980. Há, portanto, uma base melhor para se construir algo. Mas será que o governo Lula vai conseguir fazer isso? Não sei.

Quais são suas sugestões para acelerar o desenvolvimento?

O Brasil não vai se tornar um país de renda média alta apenas vendendo recursos naturais para a China. É necessário desenvolver outras vantagens comparativas. O País precisa de educação, capital humano, criatividade, empreendedores, tecnologia para construir coisas novas.

Na década de 60, o Brasil queria ser produtor de indústria pesada, fazer carros e promover a substituição de importações. Esse é o futuro do Brasil? Será em tecnologia? Estará em serviço? Vai ser entretenimento? Onde vai ser? Acho que a soja não será o futuro. Vai fazer parte do futuro do Brasil, mas não vai ser o futuro do Brasil. Então, de onde ele virá?

A Argentina foi um país muito rico no passado tendo uma economia baseada em commodities. A Austrália também é um grande produtor de commodities e tornou-se um país desenvolvido. Por que a Austrália é hoje um país rico, e a Argentina não?

Os recursos naturais foram cruciais na Austrália, mas inseridos em uma estrutura institucional muito, muito mais forte. A Austrália não se manteve apenas como exportadora de commodities. Desenvolveu um conjunto de indústrias em torno desses produtos. Então, na verdade, a Austrália é um país industrial. Não exporta uvas, exporta vinhos.

A Argentina também exporta vinhos e eles são ótimos, mas os recursos naturais do país sempre motivaram um grande conflito distributivo. A elite econômica não queria dividir essa riqueza e também não queria a democracia, porque tinha medo que a democracia significasse repartir aquela riqueza. Foi algo similar ao que moldou a política brasileira dos primeiros 50 anos do século 20.

Isso acirrou o conflito que levou a uma série de golpes militares e governos horríveis, algo que até hoje molda a política argentina. Embora ache que a política argentina tenha melhorado, é um processo lento.

A Argentina oferece ao Brasil lições de erros que devem ser evitados. O Chile é um exemplo muito melhor. Também é abençoado por recursos naturais, mas soube desenvolver um grande número de indústrias, processando recursos naturais e financiando atividades. Houve um desenvolvimento mais amplo, apesar dos problemas com a desigualdade.

O populismo político ganhou força em muitos países. Vê uma causa comum para que isso esteja ocorrendo em sociedades tão diversas?

Essa é uma questão que desafia as ciências sociais e a política – e não acho que alguém tenha a resposta completa. Na minha opinião, existe um elemento comum: o nacionalismo.

Bolsonaro é nacionalista. Modi é nacionalista. Erdogan é nacionalista. Eles podem ter políticas econômicas muito diferentes, alguns são mais favoráveis aos negócios do que outros, mas o elemento nacionalista é muito presente.

O nacionalismo é alimentado por vários fatores. Um deles é a globalização, porque ela ameaça as comunidades.

Muitas coisas foram prometidas pela tecnologia e pela globalização, mas, para uma grande parcela da população, nada disso se concretizou. As pessoas achavam que quem estava se beneficiando eram as “elites globais”. Então é por isso que Marine Le Pen, Bolsonaro e Trump sempre atacam essas elites globais.

Estão exagerando, estão mentindo. Mas há um fundo de verdade. Foram as multinacionais e as pessoas com formação, estejam elas São Paulo, Nova York, Manila ou Londres, que foram as principais beneficiárias da globalização e das mudanças econômicas.

O nacionalismo foi uma reação natural. Se esse for o diagnóstico correto, precisamos ter uma discussão muito melhor sobre qual deve ser a estratégia de crescimento.

Não acha que a queda na produtividade e a falta de crescimento econômico acirraram as tensões sociais?

Com certeza. Mas isso não explica o que ocorreu. Os EUA cresceram razoavelmente nos anos 2000, mas o crescimento foi altamente desigual. A França cresceu também, e também de maneira desigual. Precisamos ter uma estratégia de crescimento que traga crescimento de produtividade, mas também mais inclusão.

Isso envolve instituições e tecnologia. Meu trabalho na última década se concentrou muito na automação. As evidências parecem apoiar a ideia que, se a estratégia de crescimento for baseada na automação, isso não será muito inclusivo.

Apesar de todo o ruído político e de todas as crises econômicas, a democracia é a melhor maneira de alcançar a prosperidade?

Certamente, mas a democracia precisa estar inserida em um contexto institucional que defenda o Estado de Direito. Não é uma democracia majoritária, na qual a maioria pode atropelar os direitos das minorias. Precisa haver garantias de liberdade de expressão, direitos civis, direitos de todos os tipos de minorias, gêneros, diferentes pontos de vista.

A democracia é o melhor sistema para a China, não tenho dúvidas disso. A democracia chinesa precisa se parecer com a democracia americana? Isso eu não tenho certeza. A democracia chinesa precisa ter alguns dos elementos da democracia americana? Sim. A democracia chinesa precisa ser completamente diferente do que a China tem agora? Sim. Mas não tenho tanta certeza quanto adotar algumas características dos EUA.

Acho que o mesmo se aplica ao Brasil. A proteção dos direitos dos grupos indígenas no Brasil é essencial. A proteção dos pobres é crucial. Sabemos que algumas das características do sistema brasileiro são problemáticas. Isso não significa que o Brasil não possa criar instituições democráticas que sejam diferentes das americanas. Mas precisam estar baseadas no Estado de Direito.