O Carnaval do Rio de Janeiro começou a ser redesenhado num apartamento de Copacabana em 2018.

Durante um almoço de família, Anísio Abraão David, o patriarca de uma das famílias mais influentes do universo do jogo do bicho e das escolas de samba, lançou um desafio a seu caçula, Gabriel, então com 20 anos.

“Se você acha que dá para fazer melhor, por que não vai lá e faz?”

Carregada de ironia e experiência, a provocação ecoou como um chamado. O jovem havia criticado a Liesa – a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, criada em 1984 para organizar e produzir os desfiles na Marquês de Sapucaí, cuidar e investir nas agremiações. 

Gabriel David ok 1

A entidade movimenta mais de R$ 400 milhões por ano.

Quando garoto, Gabriel David sonhava em ser piloto de Fórmula 1 e chegou a competir profissionalmente, inclusive fora do Brasil.

Mas naquele almoço de domingo, o desafio do pai mudou o rumo do jovem de 20 anos, que começou a se preparar para encarar seu maior desafio: ocupar, um dia, o comando da Liesa. 

A eleição aconteceu no ano passado, fazendo de Gabriel, hoje com 27 anos, o mais jovem presidente (de longe) da Liga – e o arquiteto de uma revolução silenciosa, uma que equilibra a tradição centenária do Carnaval com a urgência da inovação. 

Até aqui, Gabriel teve uma vida marcada por contradições. Criado entre Nilópolis, na Baixada Fluminense, e a zona sul carioca, cresceu respirando o Carnaval da Beija-Flor, a escola da qual seu pai é presidente de honra. 

Desde a infância frequenta os camarotes na Sapucaí e as quadras e barracões da azul e branco, onde aprendeu a tocar todos os instrumentos de percussão. Mas sua realidade era dupla: enquanto mergulhava no universo das comunidades, majoritariamente pretas e periféricas, também transitava pela elite branca da British School, onde estudou. 

“Eu vivia dois mundos intensamente, e isso me fez questionar as disparidades que via no Carnaval e na sociedade,” reflete.

Essa percepção aguçada moldou seu caráter e sua visão crítica. Ele não queria ser apenas herdeiro de uma tradição, mas agente de transformação. Quando o pai pediu que ele ficasse no Brasil, abandonou todo um planejamento acadêmico com foco na formação internacional, prestou três vestibulares no Rio e escolheu administração na PUC.

Entre aulas de negócios e noites nos barracões, começou a desvendar o desafio que o consumiria: como profissionalizar o maior espetáculo da Terra? 

Seu TCC, concluído em 2019, foi um prenúncio do que estava por vir. Nele, Gabriel propunha reduzir a dependência do Carnaval de verbas públicas e da TV, atraindo patrocínios privados.

O trabalho, inicialmente teórico, ganhou corpo quando o então presidente da Liesa, Jorge Castanheira, abriu as portas (e os dados) da entidade. “Os números mostravam uma gestão defasada. A crise já existia antes da pandemia,” Gabriel disse ao Brazil Journal.

Em 2021, assumiu a recém-criada diretoria de marketing da Liesa, um departamento de uma pessoa só: ele mesmo.

Seu primeiro movimento foi unificar a identidade do evento sob a marca “Rio Carnaval”, desenvolvida pela agência Tátil, de Fred Gelli (o mesmo da Rio 2016). “Antes, cada grupo usava um nome. Era uma torre de Babel.”

O projeto, inspirado em seu TCC, transformou o Carnaval em um produto global, com logotipo reconhecido em dezenas de países. A mudança foi simbólica mas crucial: pela primeira vez, o Rio falava sobre seu Carnaval com uma só voz. 

Se o marketing modernizou a imagem, as mudanças financeiras redefiniram o jogo, mas de um jeito inesperado. Em 2018, ainda um novato, Gabriel se sentia excluído da festa: “Sendo filho de Anísio, todos achavam que eu tinha ingressos ilimitados. Na realidade, faltavam convites até para meus amigos.”

A observação gerou seu primeiro projeto prático na avenida: em sociedade com a promoter Carol Sampaio e o jogador Ronaldo Fenômeno, lançaram o Nosso Camarote, um dos primeiros camarotes premium do sambódromo carioca. Foi assim que identificou uma oportunidade de mercado para as escolas de samba que estava “presa” no sistema tradicional.

Ao assumir a presidência da Liga, Gabriel optou por se afastar do projeto para evitar conflitos de interesse e aplicou sua principal inovação. Renegociou com a Ticketmaster a exclusividade da venda de ingressos para toda a Sapucaí, incluindo os camarotes.

O novo modelo determina que a taxa de administração de 10% das vendas seja dividida igualmente entre a Liesa e a Ticketmaster, com 5% para cada. Essa mudança possibilitou que os repasses às escolas de samba aumentassem de R$ 5 milhões em 2020 para R$ 12 milhões em 2025.

Inspirado pela NBA e pela Premier League, Gabriel sonha transformar as escolas de samba em empresas sustentáveis.

“Quanto mais comunicarmos e mostrarmos o que acontece aqui, quanto mais trouxermos pessoas de fora para ver o nosso carnaval, maior será a importância do nosso produto. Hoje, na plataforma que faz as vendas de todos os ingressos do carnaval, já tivemos acessos para o Carnaval deste ano de mais de 170 países. Ano passado havíamos vendido para 159 países. O carnaval é incrível.”

Mas nem tudo é bem recebido, especialmente pela velha guarda, que torce o nariz para o novo presidente.

Mês passado, na festa de 80 anos de um ex-presidente da Liesa, o patrono da Vila Isabel, Aílton Guimarães Jorge, fez um discurso e mandou uma indireta para Gabriel.

“Estamos na era da IA, mas não vamos permitir a descaracterização dos desfiles das escolas de samba,” disse o Capitão Guimarães. “Nós não somos Rock in Rio, nós somos samba!”  Esta semana, o Metrópoles publicou um vídeo em que Guimarães se recusava a olhar para Gabriel, que passava à sua frente durante um ensaio técnico no Sambódromo.

Diplomático, Gabriel concorda, mas sabe que tem a aceitação do público e segue em frente: a partir deste ano, os desfiles ocorrerão em três noites, com iluminação de última geração, um marco para o espetáculo. 

A estimativa é que o acréscimo desta noite traga mais R$ 17,4 milhões de impostos à cidade e R$ 22,4 milhões aos cofres do Estado.

Em seu primeiro Carnaval como presidente da Liga, Gabriel brinca que só tem um medo: o de que a sua Beija-Flor ganhe o campeonato.