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Em crédito privado, quem ainda depende de ratings, notícias e leitura manual de documentos quase sempre chega atrasado. A transição da Raízen de AAA para default em menos de cinco meses não é um evento normal. Os sinais estavam visíveis para quem tinha as ferramentas certas.
Foi exatamente isso que o Credit Guide identificou. Em março de 2026, a Raízen protocolou a maior recuperação extrajudicial da história do País: R$ 65 bilhões em dívidas, o que fez a S&P rebaixar o rating da empresa para Selective Default.
Para quem acompanhava os indicadores de crédito no Credit Guide, os sinais de alerta já eram claros desde agosto de 2025, meses antes das agências de rating e do próprio mercado secundário reagirem.
O problema da informação fragmentada
Acompanhar o risco de crédito de um emissor no Brasil exige cruzar dezenas de fontes — demonstrativos financeiros na CVM, taxas indicativas na ANBIMA, ações de rating de três agências diferentes, escrituras de emissão com cláusulas de vencimento antecipado.
Na prática, a maioria dos profissionais depende de relatórios pontuais ou reage apenas quando o downgrade já aconteceu.
No caso da Raízen, as agências de rating só formalizaram o primeiro rebaixamento na escala nacional em dezembro de 2025. O mercado secundário começou a precificar o risco em agosto. Mas a deterioração nos fundamentos da empresa já era visível nos indicadores de crédito do resultado do 1T2026, divulgado em 13 de agosto de 2025 — quando o spread da RAIZ13 ainda estava em 0,25%.
Mas a pergunta central é: como capturar esses sinais de forma sistemática, sem depender de análise manual emissor por emissor?
28 indicadores, uma classificação
O Credit Guide monitora 28 indicadores de crédito por emissor e os consolida em uma classificação de risco automática, atualizada a cada resultado trimestral — de Muito Baixo a Muito Alto, em cinco níveis.
No caso da Raízen, a classificação já era Risco Alto antes da divulgação do primeiro tri deste ano. Após o resultado — que revelou alavancagem acima de 5x, queima de caixa acelerada e prejuízo de R$ 1,8 bilhão — o sistema reclassificou automaticamente para Risco Muito Alto, onde permaneceu até o pedido de recuperação extrajudicial.
Como é possível observar no gráfico abaixo, a mudança de classificação aconteceu em 13 de agosto de 2025. O primeiro spike de spread no mercado secundário veio 7 dias úteis depois, em 20 de agosto. As agências de rating só reagiram em outubro (Moody’s) e dezembro (S&P). O Credit Guide antecipou ambos.

RAIZ13 — Spread Over vs. Avaliação de Risco Credit Guide — Mai/2025 a Mar/2026
Fluxo de caixa calculado automaticamente
Um dos indicadores mais relevantes no caso Raízen foi o Fluxo de Caixa Livre Desalavancado — que mede a capacidade real da empresa de gerar caixa antes do serviço da dívida.
No Credit Guide, esse indicador é calculado de forma automática a partir dos demonstrativos financeiros publicados na CVM.
O sistema classifica cada linha do demonstrativo de fluxo de caixa, identificando e separando os componentes operacionais dos financeiros. Isso elimina a necessidade de o analista abrir planilhas, reclassificar linhas manualmente e recalcular o indicador a cada trimestre.
O resultado é visível no gráfico abaixo: a Raízen saiu de uma geração positiva de R$ 6,2 bilhões no quarto tri de 2024 para uma queima de R$ 10,2 bilhões no primeiro tri deste ano. A inversão foi abrupta e visível trimestre a trimestre — mas só para quem estava monitorando.

Raízen — Fluxo de Caixa Livre Desalavancado (12 meses) — 1T2021 a 3T2026
Na prática, ter esse dado calculado e atualizado automaticamente a cada ITR/DFP publicado é a diferença entre identificar uma deterioração em tempo real e descobrir quando já virou notícia.
Spreads e emissões em um único lugar
Além dos indicadores fundamentalistas, o Credit Guide consolida os spreads de mercado secundário das debêntures, CRIs e CRAs de cada emissor, permitindo acompanhar a percepção de risco do mercado em tempo real.
No caso da RAIZ13, o spread over NTN-B saltou de 0,35% em maio de 2025 para 11,53% em fevereiro de 2026 — o último dia em que a ANBIMA precificou o título. Esse movimento era acompanhável no Credit Guide pela evolução dos spreads de mercado secundário. Os eventos de rating, por sua vez, podiam ser monitorados via comunicados, enquanto a classificação de risco atual era acompanhada no sistema com auxílio dos indicadores de tendência.

O sistema também organiza informações sobre as emissões ativas de cada emissor — incluindo cláusulas de vencimento antecipado (triggers) vinculadas a rating, indicadores financeiros ou eventos de inadimplência. No caso da Raízen, foi justamente um trigger de rating que precipitou a recuperação extrajudicial: o rebaixamento da Moody’s para Caa3 em 10 de março acionou cláusulas contratuais, forçando a empresa a antecipar o pedido de RE para a mesma noite — antes que credores pudessem exigir a antecipação dos vencimentos.
Ou seja, ter acesso às cláusulas de vencimento antecipado antes que sejam acionadas é o tipo de vantagem que separa o monitoramento proativo da gestão reativa de crédito.
A cronologia completa da Raízen: do AAA ao default
Para registro, esta é a sequência de eventos de rating da Raízen entre outubro de 2025 e março de 2026:
- 30/10/2025 — Moody’s coloca em revisão para rebaixamento (spread já em 4,62%)
- 27/11/2025 — Moody’s rebaixa para Ba1, perda de grau de investimento (spread: 5,36%)
- Dez/2025 — S&P rebaixa de brAA para brA+, 1º corte na escala nacional (spread: 5,78%)
- 09/02/2026 — Triplo downgrade: Fitch de AAA para CCC, S&P de brAA+ para brCCC+, Moody’s de Ba1 para Caa1 (spread: 11,53%)
- 10/02/2026 — ANBIMA para de precificar o título
- 05/03/2026 — S&P rebaixa para CCC-
- 10/03/2026 — Moody’s rebaixa para Caa3, acionando triggers → RE protocolada na mesma noite
- 12/03/2026 — S&P rebaixa para SD (Selective Default)
O plano de RE envolveu R$ 65,1 bilhões, com standstill de 90 dias e adesão inicial de 47,2% dos credores. O plano contempla capitalização de R$ 4 bilhões (Shell + família Ometto), conversão de dívida em equity e venda de ativos.
O que o caso Raízen ensina
A classificação de risco do Credit Guide mudou para Risco Muito Alto em 13 de agosto de 2025. As agências só formalizaram o colapso em 2026.
Ter indicadores, spreads e cláusulas monitorados de forma consolidada e automatizada não é mais diferencial — é o mínimo para não operar em desvantagem.







