Em duas cartas publicadas na sexta-feira, a Atmos Capital reflete sobre a agenda ESG com foco particular na transição energética.

Junto com Dynamo e VELT, a Atmos é uma das maiores acionistas da Eneva, frequentemente criticada por ter térmicas a carvão – algo que o consenso afirma ser inconsistente com a agenda ESG. 

A conclusão da Atmos: mais do que uma expressão de boas intenções e atitudes imediatas, a agenda ESG demanda uma série de tradeoffs às vezes impossíveis, e o capitalismo de longo prazo é a melhor forma de construir um resultado que alguns demandam para ontem.  

Na primeira carta, trechos da qual o Brazil Journal publica abaixo, a gestora tenta conceitualizar o papel do investidor institucional perante as demandas ESG.

Na segunda, mais técnica e densa, a Atmos encomendou um estudo à PSR – uma consultoria de referência no setor de energia – sobre os custos e impactos (para o sistema elétrico) do descomissionamento das térmicas a carvão. 

A conclusão da gestora: o benefício ambiental de desligar as térmicas imediatamente teria um custo impagável para o País.

Abaixo, trechos da primeira carta:

Em um típico Shtetl [povoado] judaico no início do século passado, o rabino da aldeia concentrava o papel de árbitro em todas as disputas locais. Desde as brigas de famílias até as disputas comerciais, os litígios acabavam na pequena sala do líder religioso. Durante semanas, uma complexa discussão sobre a localização de uma cerca dividindo duas propriedades criou uma celeuma e agitação por todo o povoado. Como era de se esperar, acabou sobrando para o rabino decidir.

Quando o primeiro vizinho chegou para a conversa decisiva, a esposa do rabino não se aguentou e correu para colocar o ouvido na porta, curiosa para saber a decisão do marido. Após uma longa e complexa explanação do reclamante, o rabino vaticinou: “Você tem razão”.

Depois de algumas horas, o oponente entrou na mesma sala. A esposa novamente se colocou próxima da porta e, com certa incredulidade, depois de extensa colocação com argumentos absolutamente contrários à versão do seu adversário, ouviu o visitante receber a mesma resposta: “Você tem razão”.

No primeiro momento que ficou sozinha com seu marido, a esposa com o dedo em riste foi cobrar uma explicação sobre a resposta uniforme para posicionamentos diametralmente opostos. Depois de alguns minutos escutando, o rabino olhou nos olhos de sua companheira, e calmamente e sem pestanejar declarou: “Você tem razão”.

Em determinados momentos, somos impelidos a formar opiniões estruturadas sobre temas complexos. O tema ESG tem sido colocado em discussão, mostrando a maturidade de uma sociedade que tem recursos para avanços civilizatórios. Se na Idade Média os mais velhos eram abandonados por suas famílias, sem capacidade ou recursos para garantir a subsistência de um membro não produtivo, a sociedade moderna permite-se o luxo de refletir e atuar sobre temas dispendiosos no curto prazo, almejando um benefício de longo prazo.

Cabe a nós fugir da armadilha de cair em estado eufórico, e não repetir a geração que acreditou livrar o mundo das guerras com flores e solos de guitarra. Devemos respeitar a dificuldade intrínseca de um tema com dimensões infinitas.

(….)

Em uma indústria que persegue narrativas para alcançar o pote de ouro – vide PIPEs, Dividendos, Small Caps, Compounders, Tecnologia, Metaverso – o ESG, a despeito de sua enorme importância, periga cair em uma caixa temática sem a reflexão adequada. Cada agente com seus incentivos, contanto que não gerem ruídos que comprometam a discussão central. Demonizando, por exemplo, importantes ativos de transição energética, arrisca-se perder uma oportunidade histórica e, em um mundo abastado, desperdiçar o impacto de observar a questão sob ótica racional ao invés de mercadológica e oblíqua.

Ao resgatar conceitos de construção de consenso da criptografia, devemos nos proteger de um olhar excessivo sobre a demonstração de trabalho (“proof of work”) orientada a relatórios, questionários e checklists, onde se comprova apenas a capacidade de preencher relatórios, questionários e checklists. Funciona em temas unidimensionais que não precisam de uma avaliação holística. Sendo assim, o alinhamento formal (“proof of stake”) é uma opção capaz de atingir resultados superiores. O capitalismo de longo prazo gera riqueza com o envolvimento e comprometimento de todos os participantes da cadeia e substitui o jogo de “checklists”. O fogo foi domesticado pelo Homo erectus para aperfeiçoar sua condição de vida, não para impressionar um primata ao lado. Assim avança a humanidade.

(…)

As questões levantadas ao longo desta carta são urgentes e fundamentais para a construção de uma sociedade rumo a um equilíbrio superior. A pauta ESG tem uma importância expressiva no legado que a geração atual pode transmitir para as seguintes. De certa forma, determinados fanatismos ou radicalismos são instrumentos relevantes para tirar o mundo de uma inércia aflitiva – “Chains of habit are too light to be felt until they are too heavy to be broken”. Mas a ansiedade para tratar de assuntos complexos pode conduzir a caminhos equivocados. A partir de um mapa impreciso, a estamina gerada pela autoconfiança de quem pensa ter todas as respostas acelera em direção a um lugar de conforto intelectual imediato. Quem vocaliza e se coloca como evangelizador assume o confortável papel de monopolista das virtudes e integridade. 

No entanto, escolhas erradas podem provocar desordem e um grau de irreversibilidade no sistema lá na frente. Em determinados momentos de maturidade, a sabedoria rabínica deve ser lembrada. Às vezes todos têm razão, mas ninguém está certo.