A Revena — uma startup que usa inteligência artificial para automatizar o ciclo de receitas dos hospitais — acaba de levantar uma rodada para escalar seu negócio, buscando capturar uma fatia de um mercado bilionário e que ainda usa pouca AI.
A rodada seed, de R$ 40 milhões, foi liderada pela brasileira Canary e teve a participação da Flourish Ventures, a gestora americana de early stage especializada em fintechs. A Caravela Ventures, que já era investidora, acompanhou na proporção de sua participação.
O montante se soma a outros R$ 5,5 milhões que a Revena havia captado numa rodada anterior com a Caravela e investidores-anjo, incluindo um dos fundadores da Odontoprev, Renato Velloso, e um ex-CEO do Grupo Fleury, Mauro Figueiredo.
A Revena foi fundada no final de 2024 por Mateus Noronha e Diogo Freitas. Mateus foi o cofundador da Eduqo, vendida para a Arco Educação em 2021, enquanto Diogo foi um dos primeiros funcionários da Buser.

A ideia de fundar a Revena surgiu depois que Mateus deixou a Arco e começou a procurar um setor para investir. Ele decidiu apostar na saúde, pelo tamanho do mercado e pouco uso de tecnologia, e passou quatro meses trabalhando como voluntário num hospital em São José dos Campos para entender as dores do setor.
Nesse período, ele percebeu que uma das maiores ineficiências na gestão de um hospital era no chamado ‘ciclo de receitas’, a relação dos hospitais com os planos de saúde (as chamadas ‘fontes pagadoras’).
“Sempre que um paciente faz uma operação, o hospital tem que pegar todo o prontuário daquele paciente, que às vezes são centenas de páginas, analisar aquilo e enviar um arquivo para o plano de saúde dizendo quantos dias o paciente ficou lá, quais medicamentos usou, quais procedimentos foram feitos. E existe um código diferente para cada um, que precisa ser imputado no sistema antes desse envio,” Mateus disse ao Brazil Journal.
Na maioria dos hospitais, a análise desse prontuário e o envio dos dados para os planos é feito por um equipe de enfermeiros e funcionários do administrativo — o que torna o processo lento e sujeito a erro humano.
“O que nossos agentes de AI fazem é ler os dados clínicos dos pacientes, ler os contratos com as operadoras privadas e garantir que a cobrança está sendo bem feita, sem erros e da forma mais eficiente possível,” disse o fundador.
O efeito disso para os hospitais é sentido de três formas. A primeira é na redução das perdas, um tema essencial num setor de margens apertadas.
“O que acontece muito é de colocarem o código errado, ou uma justificativa clínica errada ou errar na quantidade do medicamento, por exemplo. Esses e outros erros geram perdas que podem representar de 6% a 11% da receita do hospital,” disse o fundador. “A nossa AI é capaz de reduzir essas perdas em 98%.”
O segundo efeito é na redução do headcount, já que o uso da solução diminui o trabalho operacional dos enfermeiros e do administrativo, liberando tempo dessas pessoas para outras atividades e diminuindo o número de funcionários necessários.
O terceiro efeito é na velocidade do faturamento. Mateus disse que enquanto um enfermeiro pode levar de 3 a 4 horas para fazer a análise de um prontuário e enviar os dados para o plano de saúde, a solução da Revena faz isso em minutos.
Ao enviar mais rápido, os hospitais também conseguem receber esses pagamentos num tempo menor.
A Revena não abre o número de hospitais que atende, mas diz que já colocou seu sistema para rodar em testes em mais de 60 hospitais.
A startup está operando num mercado que ainda tem pouca competição. O principal player incumbente é a Bionexo, que segundo Mateus tem uma solução para automatizar o ciclo de receita, mas não usa AI.
Entre as startups, sua principal concorrente é a Rivio, que também acaba de levantar uma rodada relevante, de R$ 100 milhões, liderada pela Monashees e Valor Capital. A rodada avaliou a Rivio em R$ 500 milhões.
A Revena disse que vai usar os recursos da rodada para dobrar seu time de programadores de 15 para 30, e investir mais em marketing e na frente comercial.
Outro plano é entrar em outras frentes do administrativo dos hospitais.
“Começamos com o ‘contas a receber’, que é o principal gargalo, mas queremos entrar também no ‘contas a pagar’ e oferecer serviços financeiros para os hospitais, como antecipação de recebíveis,” disse o fundador.
“Também pretendemos ajudar o corpo clínico a documentar melhor o que está acontecendo com o paciente.”






