Em 2022, quando eu tinha 14 anos, tive a oportunidade de visitar escolas públicas em Sobral, no Ceará, uma referência nacional em educação.

Fiquei impressionado com a sensação de que a escola era realmente o lugar mais importante da comunidade, com o engajamento dos alunos e a qualidade das aulas. Muito semelhante à minha escola e às melhores escolas particulares de São Paulo. Aquilo me marcou.

Porém, quando estive em escolas públicas em outros estados, o contraste ficou evidente: Sobral é a exceção à regra.

A desigualdade educacional no Brasil é enorme. A pergunta que ficou foi: “Por que apenas jovens como eu – que nasceram em uma família rica ou num ‘bom CEP’ – têm acesso a uma educação melhor?”

12 15 Eric Bartunek ok

Se é possível ter educação pública gratuita de qualidade no interior do Nordeste, por que não em todo o Brasil?

Esse pensamento ficou ainda mais forte quando participei de um projeto educacional do Instituto PROA na Amazônia. Lá, a escola é ainda mais importante nas comunidades, mas enfrenta desafios, digamos, amazônicos. Ao analisar os dados e conversar com organizações que atuam na região, ficou clara a existência de um gargalo simples porém crítico: a maior parte das escolas ribeirinhas não tem acesso à internet.

Cristieni Castilhos, a fundadora e CEO da MegaEdu — uma ONG criada para conectar todas as escolas públicas do Brasil — resume a situação.

“A Amazônia, um território não é apenas paisagem, mas casa viva de milhões de brasileiros, que precisam estar conectados com as decisões que moldarão o clima e a economia nas próximas décadas. Para que essa participação seja possível, a inclusão digital precisa virar prioridade. Precisamos garantir que os amazônidas possam estar conectados aos grandes debates sobre o futuro de sua própria região. Sem conectividade, o futuro da floresta seguirá sendo discutido de fora para dentro – com avanços, mas exclusão social.

12 17 Cristieni Castilhos ok

Nesses locais, cаda deslocamento significa dias sem aula: os gestores (que também são professores e muitas vezes até cozinheiros das escolas) viajam de barco para conseguir resolver tarefas administrativas básicas.

É como se a escola vivesse em outro tempo – fora da rede, fora das decisões. Não há política pública que chegue a uma população assim. Quando a conectividade chega na escola, no centro da comunidade, tudo muda. A escola conectada vira a âncora de conexão para a comunidade e ações de proteção social.”

Com este diagnóstico, a pergunta deixou de ser ‘por que conectar’ e passou a ser como conectar regiões tão remotas.

Pesquisei as alternativas. Fibra era inviável; rádio, instável; e o 4G não existia em muitas localidades. A única solução operacionalmente consistente era a Starlink, da SpaceX.

Aprofundei-me na tecnologia, li manuais, relatórios, e a biografia do Elon Musk. Levantei dinheiro com amigos para linkar 10 escolas.

Sabia que seria um “long shot”, mas decidi tentar um contato direto com a COO da SpaceX, Gwynne Shotwell. Fizemos um Zoom. Expliquei a situação das escolas, o impacto nos alunos e em todas as comunidades. Ela ouviu, se interessou e decidiu apoiar.

Depois de meses de conversas entre SpaceX, MegaEdu, o Instituto Redes do Futuro e lideranças locais, recebemos a notícia que ampliou radicalmente o escopo do projeto: a SpaceX concordou em doar antenas suficientes para conectar 130 escolas remotas, impactando mais de 10.000 alunos, e não cobrar a assinatura por um ano. O projeto na Amazônia está virando um piloto dentro da empresa, que pretende fazer outras ações sociais do tipo.

As instalações das antenas já começaram, e avançam em ritmo constante. Tudo deve ficar pronto este mês. 

12 17 Gwynne Shotwell ok

Cada implantação envolve longas viagens fluviais, preparação das equipes comunitárias e a criação de condições para que os sistemas funcionem de forma sustentável.

A primeira comunidade atendida foi Barro Alto, em Manicoré — a quase 30 horas de barco de Manaus. Quando a conexão entrou no ar, o resultado foi imediato: alunos e professores se emocionaram, pois passaram a ter acesso a conteúdos atualizados e planos de aula, serviços públicos digitais e ferramentas de gestão que antes eram muito difíceis de usar.

Iniciamos agora a etapa mais importante: transformar conectividade em melhoria educacional concreta junto com o MEC, que tem funcionários públicos de altíssima qualidade. Nesta fase, conversei também com o professor Martin Carnoy, de Stanford, um dos maiores especialistas em economia da educação, que concordou em agir como um mentor neste projeto.

Carnoy ajudou a desenvolver modelos pedagógicos, treinamento de professores e rotinas escolares que permitam converter a nova infraestrutura em aprendizado.

Ao longo de todo este processo tenho tido dúvidas; apesar de estar há 13 anos em uma sala de aula, entendo pouco da complexidade da educação. Será que serei ouvido? Terei apoio? Na verdade, quando dei o 1º passo – o que demorou mais – fui aprendendo com os erros e as coisas foram acontecendo.

Sigo aprendendo com quem conhece profundamente o território. E tenho visto, na prática, que quando tecnologia, conhecimento local e vontade de fazer convergem, mudanças antes consideradas impossíveis se tornam realidade.

Gostaria que meu envolvimento neste projeto – tão distante da minha realidade – inspirasse outros jovens (e gente de qualquer idade) a adotar uma boa causa para chamar de sua.

Eric Bartunek é estudante.