Quando a Evertec deu os primeiros passos para comprar a Sinqia, no início de 2023, nem mesmo os executivos da companhia tinham confiança de que o negócio ia sair.

Afinal, a empresa de SaaS para o mercado financeiro já vinha recebendo várias sondagens de grandes players nacionais e internacionais naquela época. Logo, uma empresa de pagamentos de Porto Rico – completamente desconhecida do mercado brasileiro – não aparecia como uma das favoritas.

Mas para a Evertec, tratava-se de uma decisão estratégica: a companhia quer se tornar uma das maiores empresas do setor na América Latina. Logo, entrar de maneira forte no Brasil não era uma opção, era obrigação.

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Em poucos meses de negociação, o negócio foi fechado por R$ 2,5 bilhões.  

“O Brasil representa algo perto de 40% da economia da América Latina. Se você quer ser uma empresa relevante de tecnologia financeira na região, você precisa estar no Brasil,” o CEO Mac Schuessler disse ao Brazil Journal.

A compra também significou uma mudança estrutural para a Evertec. Afinal, a empresa que tem como core business meios de pagamento passou a ter dentro do seu guarda-chuva um negócio de SaaS – que pode ser exportado para outros 25 mercados que a empresa atua, como países da América Central, além de México e Colômbia.

A Evertec nasceu em Porto Rico como o braço de tecnologia do Banco Popular, responsável por processar pagamentos e operar sistemas para o sistema financeiro local. 

Por atuar em um mercado altamente regulado e bancarizado, a empresa precisou desde cedo desenvolver sistemas com alta segurança e resiliência. 

Mas como Porto Rico é um mercado minúsculo, a Evertec percebeu que precisava atravessar a fronteira e levar seu modelo de processamento e pagamentos para outros mercados da América Central, onde os bancos preferem terceirizar a tecnologia em vez de investir internamente.

No Brasil, a história seria diferente.

Mac disse que seria arriscado apostar na mesma estratégia para entrar no País – afinal, o Brasil é conhecido por seu mercado de pagamentos altamente desenvolvido. 

Por isso, a Sinqia apareceu como uma oportunidade. Segundo Mac, a companhia oferecia à Evertec escala imediata, relacionamento com praticamente todo o sistema financeiro, uma base instalada crítica e a governança de uma companhia listada. 

Ao mesmo tempo, vinha de um ciclo intenso de aquisições, com um portfólio amplo porém fragmentado, e crescimento em desaceleração – algo que os analistas já estavam colocando no preço.

Para o comando da empresa, a Evertec escolheu Claudio Prado, um ex-CIO do Santander e do Deutsche Bank no Brasil e que atuava há nove anos na Sinqia, sete como conselheiro e dois como vp de operações. 

A principal missão de Prado era resolver a “colcha de retalhos” que a Sinqia havia se tornado após mais de 20 aquisições, o que impactou diretamente na sua eficiência e integração. 

“Antes éramos mais um ‘one-stop-sell’ do que um one-stop-shop,” disse Prado. “Ou seja, tínhamos muitos produtos mas eles não conversavam entre si, o que dificultava o cross-sell.”

Segundo Prado, a aquisição da Sinqia pela Evertec sempre foi menos uma compra tradicional e mais uma fusão dado o tamanho das duas empresas: na época da aquisição, a Sinqia faturava cerca de R$ 750 milhões, enquanto a Evertec tinha receita próxima de US$ 800 milhões; em pessoas, eram 2.100 funcionários na Sinqia e 2.300 na Evertec. 

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“O que distorce essa percepção é o câmbio, pois operacionalmente as empresas não eram tão diferentes, o que trazia mais dificuldades na integração. Não era uma empresa grande comprando uma menor,” disse Prado. 

Um ano e meio depois da aquisição, Prado disse que 90% da integração está concluída, e isso pode ser visto no aumento do cross-sell: hoje, 25% das vendas da companhia já são feitas nessa modalidade. “O cross-sell era tão residual que nem era um considerado KPI importante,” disse. 

Além disso, o nome Sinqia deixou de ser usado, e a empresa passou a operar como Evertec Brasil. 

Agora, a operação brasileira entrou numa nova fase. Mac define o País como o laboratório de inovação da companhia – inclusive para exportar novos produtos. 

Mas a Evertec quer fazer isso com calma, até pelas barreiras regulatórias de cada país. Por enquanto, a operação brasileira já exportou uma plataforma de consórcios para o Peru e uma solução de onboarding de clientes para um banco na Costa Rica. 

Hoje essa contribuição representa pouco no balanço da operação brasileira, mas o plano é que comece a representar de 20% a 25% do resultado nos próximos três anos, segundo Prado. 

Além disso, com a casa arrumada, a agenda de M&A voltou. Em outubro, a Evertec Brasil comprou 75% da Tecnobank, uma empresa especializada em registro digital de contratos de financiamento, em um negócio de R$ 790 milhões. 

Segundo Mac, a aquisição segue a lógica da Sinqia se tornar uma plataforma completa de serviços financeiros – e novos M&As podem acontecer. “O Brasil é onde estamos dispostos a investir mais capital e assumir projetos maiores,” disse.

O CEO também descarta a possibilidade de entrar em meios de pagamento no Brasil.

“Esse é um mercado extremamente competitivo e dominado por bancos e grandes players locais. Se entrássemos dessa forma, estaríamos competindo com os próprios clientes que queremos atender.”

No terceiro tri, a Evertec registrou receita de US$ 228,6 milhões, um avanço de 8% em relação ao mesmo período de 2024, quando havia faturado cerca de US$ 212 milhões. 

O destaque veio do segmento de Latin America Payments & Solutions – onde está o Brasil – cuja receita saltou 20% ano contra ano para US$ 90 milhões.

Os analistas que acompanham a Evertec reconhecem que a empresa começa a colher os frutos, mas mantêm cautela sobre o avanço da integração, especialmente no Brasil. 

O Morgan Stanley, por exemplo, fez uma atualização em novembro da sua cobertura e manteve a recomendação de equal weight – mas reduziu o preço alvo de US$ 34 para US$ 29, exatamente o preço de tela atualmente, por causa dos desafios de execução.

A ação da Evertec cai 13% nos últimos doze meses. A empresa vale US$ 1,9 bilhão na NYSE.

Mac disse que as conversas com analistas têm sido focadas mais em execução do que em narrativa. Ele disse entender a cautela do mercado, mas prefere mostrar que não haverá um “turnaround rápido”, já que a empresa está focada na construção de uma plataforma no longo prazo.

“Reconhecemos os riscos e não estamos tentando mudar a estratégia para convencer o mercado no curto prazo: preferimos executar bem e deixar que os resultados falem por si,” disse o CEO.

Para o mercado, a dúvida não é mais se a Evertec acertou ao entrar no Brasil, mas quanto tempo levará para transformar essa complexidade em retorno.