MEMÓRIA. Netinho, o corpo e voz da axé music

MEMÓRIA. Netinho, o corpo e voz da axé music

Netinho, o cantor que ajudou a definir o conceito de axé music e o exportou para todo o Brasil e alguns países da Europa, morreu hoje em Salvador.

Ele tratava um linfoma não Hodgkin do tipo B, um câncer que se origina no sistema linfático. Tinha 60 anos.

Ernesto de Souza Andrade nasceu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano.

À frente da Banda Beijo, Netinho abraçou o rótulo axé, até então tido como pejorativo (o termo nasceu da pena do jornalista baiano Hagamenon Brito para definir os artistas locais que desejavam fazer música pop).

Axé Music foi o nome do disco da Beijo de 1992, e que a colocou no primeiro time do showbiz baiano graças a sucessos como Barracos e versões de Sandra, de Gilberto Gil, e Banana Boat Song, sucesso de Harry Belafonte (virou Novela da Cana).

Netinho definiu, ao lado de Daniela Mercury, o arquétipo de vocalista de bloco e banda de axé music – aquela mistura de professor de aeróbica e animador de colônia de férias, mas com pique para suportar mais de cinco horas em cima de um trio elétrico e um repertório que vai de canções autorais aos principais clássicos do pop brasileiro e dos blocos afro da Bahia.

Netinho não só foi a cara e deu movimento aos cantores do gênero como foi um dos principais arautos do Carnaval de Salvador. Nas entrevistas que deu no início dos anos 1990, quando os olhos da mídia se voltavam apenas para o Rio, ele foi o primeiro a falar de como aquele turbilhão de trios se tornaria referência de festa no país – o que se concretizou ainda naquela década.

Netinho tinha dez anos quando sua família se mudou da região do Recôncavo para Salvador, e catorze quando sua mãe o presenteou com um violão.

Embora tenha sido admitido no curso de Engenharia Civil da Universidade Católica de Salvador, preferiu seguir a carreira musical. Peregrinou por bares da capital baiana até ser contratado como vocalista da Beijo.

Em 1988, o primeiro ano no qual esteve à frente do grupo, a banda emplacou a canção Beijo na Boca. Na ocasião, se apresentaram no Domingão do Faustão, tornando-se o primeiro grupo do gênero a participar do programa. Dois anos depois, foram o primeiro conjunto de axé a tocar numa Copa do Mundo – a da Itália.

O cantor saiu em carreira solo em 1993 e se caracterizou não só como ícone do gênero como empresário do ramo. Ele percebeu, por exemplo, o potencial comercial das Micaretas, os carnavais fora de época que aconteciam em diversas capitais do país e no exterior. E reinou, por exemplo, no Axé Natal, que acontecia na capital potiguar e até em Lisboa, quando em 2000 reuniu 80 000 pessoas no Parque das Nações (o evento se chamou Portugal Elétrico).

Intérprete diversificado, Netinho foi de canções dolentes de Paulinho Nogueira (Menina, que entrou na trilha sonora da novela Tropicaliente) ao axé Milla, canção do conjunto Jheremmias Não Bate Córner que ele agregou ao seu repertório. Teve ainda sucessos como o samba-reggae A Vida é Festa, o axé com influência do pop rock brasileiro Pra te Ter Aqui e a releitura de Você é Linda, de Caetano Veloso.

Em O Informante, filme do cineasta Michael Mann, o jornalista Mike Wallace, interpretado com maestria por Christopher Plummer, diz que “a fama dura pouco, mas a infâmia dura um pouco mais.”

No caso de Netinho, sua colaboração para o crescimento da axé music foi ofuscada por críticas às suas posições políticas. Foi criticado por prestar apoio ao então candidato Jair Bolsonaro (dizia ser “soldado” do político), demonstrou simpatia às manifestações de 8 de janeiro e chegou a cantar Milla num ato pró-Bolsonaro em 2021 – o que gerou críticas de Manno Góes, o autor da canção.

Em 2022 Netinho tentou, sem sucesso, uma vaga na câmara de vereadores de Salvador.

Os problemas de saúde o acompanhavam desde 2013, quando sofreu três acidentes vasculares cerebrais que afetaram sua voz. Em março de 2022, depois de sofrer de fortes dores na perna, recebeu o diagnóstico de câncer do sistema linfático que veio a matá-lo.

Netinho deixa uma filha, Bruna Trindade, do casamento com a jornalista Mariana Trindade. O velório e a cremação serão reservados a amigos e familiares.