Magritte, o pintor-pensador subversivo que questionava o real

Magritte, o pintor-pensador subversivo que questionava o real

LONDRES — Se eu tivesse que escolher uma exposição em cartaz nesta cidade – e são muitas nesta alta temporada do calendário londrino em função da Frieze Art Fair – seria This Is Still Not a Pipe: The Afterlife of Magritte, na Gagosian. 

Morto em 1967, o escritor-pintor e mestre do mistério continua instigante – e o melhor tipo de influencer: a mostra reúne pinturas e esculturas do mestre belga com obras de mais de quarenta artistas influenciados por ele, algumas produzidas especificamente para a mostra.

Tem Vija Celmins, Yoko Ono, Ed Ruscha e Betye Saar realizadas quando Magritte ainda vivia, além de trabalhos recentes de Dana Schutz, Anna Weyant, Allison Katz e Alex Da Corte. 

Um dos dois espaços da Gagosian, no meio de Mayfair, trocou o habitual cubo branco por cortinas escuras para marcar a importância da exposição com ambição museológica. É raro uma galeria comercial reunir empréstimos de museus e coleções particulares de tamanha qualidade para apresentar um artista tão relevante na história da arte. 

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Organizada em colaboração com a Fondation Magritte, com curadoria de Jasper Sharp e Bernard Lagrange, a Gagosian não mediu esforços para conseguir obras hiper importantes, como Les Fleurs du voyage (1926), apresentado na primeira individual de Magritte, em Bruxelas em 1927, e La Clef des songes (1935), pintada para sua primeira individual nos Estados Unidos, na Julien Levy Gallery, em 1936. 

La Lampe philosophique (1936), um autorretrato em que o nariz se prolonga até mergulhar no cachimbo, também está aqui, e tem sido a obra mais viralizada da exposição. O quadro também esteve na mostra Magritte and Contemporary Art: The Treachery of Images, organizada pelo LACMA em 2006–2007, e uma referência fundamental para a mostra da Gagosian. 

Magritte pensou em ser escritor, mas contou durante a vida que pintar foi inevitável, ainda que a literatura o tivesse sempre acompanhado. Era apaixonado por histórias de mistério, e na juventude escreveu romances policiais sob o pseudônimo Renghis, formado pela combinação de René e Ghislain, seus dois primeiros nomes.

“Para mim, pintar é dar vida aos meus pensamentos. Gosto muito de poetas e escritores, mas não sou escritor, por isso penso em imagens, não em romances e poemas,” Magritte disse numa entrevista em 1962.

Ainda assim, escreveu muito. 

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Os Écrits complets, reunidos e anotados por André Blavier, foram publicados em 1979 num volume de mais de 700 páginas. Ensaios, cartas, entrevistas, manifestos, poemas em prosa e outros textos ajudam a compreender um artista introspectivo e complexo. Em inglês, parte da produção está em Selected Writings, com tradução de Jo Levy. 

Em Magritte: A Life, o biógrafo Alex Danchev aproxima o pensamento do pintor ao de Wittgenstein e de Lewis Carroll, dado que todos dividiam o problema filosófico central em torno da possibilidade de a realidade mudar completamente a qualquer momento.

“A arte de Magritte é um cruzamento entre o pensamento de Wittgenstein e Alice no País das Maravilhas, com um tempero de surrealismo, uma pitada de erotismo e um arrepio de pavor”.

O cachimbo de La Trahison des images é o exemplo mais conhecido: o que está na tela difere do que está escrito e dá um comando conflitante ao cérebro.  

Magritte casou-se com Georgette, seu amor da juventude, e morou a vida toda num bairro residencial de Bruxelas. Não tinha ateliê. Gostava de pintar na sala de casa. Seu biógrafo conta que pintava de terno, gravata e pantufas. Uma vida pacata para uma mente tão inquieta e questionadora. Apesar de ter sido admirado por artistas da sua época, só teve sucesso nos últimos anos de vida. 

Passou três anos em Paris, de 1927 a 1930, mas não era boêmio e se desentendeu com André Breton, o pai dos surrealistas. O maior problema com os dois aconteceu em uma jantar na casa de Breton. Georgette estava usando um crucifixo e Breton pediu que ela o tirasse, pois não queria um símbolo religioso em sua casa. Magritte ficou indignado e foi embora com a esposa.  

Outra divergência com o filósofo francês era sobre o papel do sonho, que para Breton era fundamental para o surrealismo, ao lado do inconsciente. Numa carta de 1967 ao historiador da arte Volker Kahmen, Magritte pediu que a palavra “sonho” fosse retirada de uma referência a Le Domaine d’Arnheim: “O sonho é sub-realidade — isto é, não há nada de poético nele”.

Sua definição de poesia estava calcada na surpresa e encantamento em cima da realidade. Na pintura L’Empire des lumières, Magritte apresenta uma paisagem noturna com um céu diurno.

“Essa evocação do dia e da noite me parece ter o poder de nos surpreender e encantar. Chamo esse poder de ‘poesia’,” escreve o autor.

Magritte tinha muita convicção em suas crenças e estilo de vida, o que o tornou um outsider do grupo dos surrealistas. 

Deu poucas entrevistas – não gostava de falar de seus trabalhos.  Para ele, o mistério nunca deveria ser explicado. “O mistério não é uma das possibilidades da realidade. O mistério é o que é absolutamente necessário para que a realidade exista,” escreveu no Mystery Is Not…, um poema em prosa.

Na mostra da Gagosian, uma tela pacífica que apresenta um céu azul com nuvens se chama A maldição. Ao ler o título, o visitante se espanta e muda completamente a percepção sobre a obra. 

No momento em que se vive, onde a imagem parece real mas pode não ser verdadeira, o mistério de Magritte e seu questionamento sobre a realidade estão na ordem do dia. 

A mostra fica até 12 de dezembro.