Em ‘Digger’, os dilemas da transição energética num filme sincerão e divertido

Em ‘Digger’, os dilemas da transição energética num filme sincerão e divertido

Uma plataforma de petróleo do magnata Digger Rockwell acabou de explodir na Groenlândia, e as ondas de impacto ameaçam liberar uma placa de gelo de proporções colossais que poderá destruir cidades inteiras e dizimar milhares de pessoas na Europa.

Mais preocupado com a saúde de sua gata enferma e com os milhões de barris que poderão ser perdidos do que com a tragédia iminente, Digger ignora repetidos alertas de seu diretor de segurança – e, quando o desastre parece inevitável, sua primeira reação é ligar para a Casa Branca.

Imagem

Quem sabe algo poderia ser feito – a implosão do iceberg com mísseis? –, mas a decisão é não tomar nenhuma medida emergencial, apenas cruzar os dedos e rezar para que as correntes carreguem a massa de gelo para longe do continente, mesmo sabendo que esta seria uma possibilidade remota.

O ponto de partida poderia ser a premissa de mais um filme palestrinha e repleto de mensagens simplistas sobre as consequências da ganância desmedida colocando em ameaça a existência da humanidade.

Mas Digger, do cineasta Alejandro Iñárritu, está a alguns desvios-padrão da média dos filmes pedestres que tratam desses temas. É uma mordaz e divertida sátira sobre a crise ambiental, mas não só isso.

Digger é interpretado por Tom Cruise, que, para ser transfigurado no barão do petróleo já em idade avançada, passou por uma rotina de seis horas de maquiagem a cada dia de filmagem.

Por meio de um recurso dramático que fica mais claro ao longo do filme, o diretor mostra que vivemos em um grande e farsesco teatro.

Neste teatro de narrativas, Iñárritu disse ao New York Times que hoje “tudo não passa de uma tentativa de chamar a atenção, de ganhar curtidas, de causar desconforto, de ser irritante – essa é a cultura em que vivemos.”

Imagem

Como meu colega Jerônimo Teixeira escreveu no Page9, será que as COPs, os painéis climáticos e a ira de Greta Thunberg na ONU não têm um quê de encenação? 

Talvez por isso muita gente esteja torcendo o nariz para o filme. (Narciso às vezes acha feio o que é espelho.)

Na sequência central do filme, magistralmente dirigida e com verve operística, Digger depõe em uma comissão de inquérito, mas em vez de explicações ou desculpas, muda o foco da narrativa. O desastre, afirma ele, só aconteceu por causa da nossa sede insaciável pelo petróleo e seus derivados, sem os quais não teríamos nenhum – ne-nhum! – de nossos confortos da vida moderna, dos alimentos à energia e aos infinitos objetos do dia a dia.

Se hoje o cataclismo climático tira o sono de muita gente, em gerações passadas era a possibilidade da hecatombe nuclear que espreitava a humanidade.

A ameaça atômica também rendeu inúmeros bons filmes. Nas mãos de Stanley Kubrick, a tensão da Guerra Frica virou a comédia de humor negro Dr. Fantástico (Dr. Strangelove), de 1964, do qual Digger é tributário.

Uma das sequências mais cáusticas de Digger é a reunião de emergência do barão do petróleo com o Presidente dos EUA e seus assessores, entre eles comandantes das Forças Armadas. Impossível não lembrar da da war room de Dr. Fantástico.

O mexicano Iñárritu tem no currículo uma filmografia marcada por filmes ambiciosos, desde sua estreia com Amores Perros, de 2000. Em um feito raríssimo, ganhou o Oscar de melhor diretor em dois anos seguidos, com Birdman (2014) e O Regresso (2015).

Foi rodando O Regresso que ele teve o insight para fazer Digger, no qual vinha trabalhando desde então com a ajuda de quatro roteiristas.

Como de costume em seus trabalhos, Digger transborda exuberância visual e técnica. Mas dessa vez Iñárritu deixou a sisudez de lado e transformou a histeria climática em uma comédia por vezes irônica e desconfortável, mas com momentos muito divertidos.  

A sequência final reserva uma surpresa tão surpreendente quanto sarcástica, com uma Nova York distópica que faz lembrar a cena derradeira do clássico Planeta dos Macacos, de 1968. É um soco no estômago – com luva de pelica.