A próxima geração de líderes empresariais começa sua trajetória em um contexto singular. A inteligência artificial já escreve, projeta, programa e executa tarefas em uma velocidade difícil de acompanhar.

Em poucos comandos, ajuda a estruturar reuniões, redigir mensagens e preparar decisões complexas com um nível de sofisticação que, até recentemente, exigiria horas – ou dias – de trabalho.

E, ainda assim, ela não faz o essencial.

Não define ambições nem toma decisões sob pressão. Não constrói confiança entre pessoas com interesses divergentes nem sustenta padrões de desempenho ao longo do tempo.

Tampouco cria, no sentido mais profundo da palavra, aquilo que ainda não existe.

Esse trabalho continua sendo humano. Justamente por isso, torna-se mais valioso à medida que a tecnologia avança.

Para quem está se preparando para a liderança agora, este é o ponto de partida: elementos inerentemente humanos são decisivos para o sucesso.

No novo contexto, não vai prosperar quem tiver mais domínio da tecnologia em si, mas quem souber combiná-la com julgamento, direção e capacidade de mobilizar pessoas em meio à incerteza.

No dia 29 de abril, a McKinsey realiza o evento Brilliant Moves, no Teatro B32, em São Paulo, voltado para a próxima geração de líderes.

Nosso convidado é Fábio Porchat, que construiu, entre riscos e oportunidades, uma trajetória marcada por escolhas ousadas e nada óbvias. Para participar, inscreva-se aqui.

Revisão silenciosa do que se espera de um líder

Durante décadas, liderança esteve associada à capacidade de acumular conhecimento e oferecer respostas rápidas. Em ambientes mais estáveis, isso criava vantagem: como a informação era escassa, a experiência funcionava como um guia relativamente confiável.

Esse paradigma está se deslocando. Sistemas analisam volumes massivos de dados em segundos, o que reduz o valor de “saber mais” e amplia a importância de “saber o que fazer com o que se sabe”.

Cabe ao líder hoje construir o contexto em que as melhores respostas emergem.

Isso exige outro tipo de presença. Formular perguntas mais precisas, apontar uma direção mesmo quando o caminho não está totalmente claro e sustentar escolhas em ambientes ambíguos tornam-se competências centrais.

Nesse mesmo movimento, a lógica de controle cede espaço a algo mais sutil. À medida que decisões e execução passam a ser compartilhadas entre humanos e sistemas inteligentes, liderar deixa de significar centralizar e passa a significar orquestrar.

Criar clareza suficiente para alinhar esforços, sem eliminar a autonomia necessária para que equipes – e tecnologias – operem com eficácia.

Esse tipo de liderança não elimina a complexidade, mas convive com ela. É precisamente nesse ponto que a tecnologia, ao ampliar o que pode ser automatizado, também torna mais visível o que não pode.

Definir uma ambição que faça sentido para as pessoas continua sendo um ato humano. Fazer um julgamento quando faltam dados ou há conflitos de valores também.

E a criação genuína, aquela que rompe padrões em vez de apenas reorganizá-los, segue dependendo de imaginação e contexto, dois elementos que não são facilmente programáveis.

Essas dimensões são o núcleo da liderança, agora exposto com mais clareza.

Naturalmente, isso reverbera na forma como se entende talento. Se o acesso ao conhecimento se amplia e ferramentas digitais potencializam capacidades técnicas, atributos mais intrinsecamente humanos passam a diferenciar desempenho.

Curiosidade, resiliência, capacidade de aprender continuamente e de colaborar em ambientes híbridos agora são determinantes.

Para a próxima geração de líderes, isso redesenha o caminho. Credenciais formais e trajetórias lineares perdem parte do peso, enquanto ganha relevância a forma como cada indivíduo evolui, decide e mobiliza outras pessoas.

Há, no entanto, um risco nesse novo cenário. A facilidade com que a AI oferece respostas pode reduzir o espaço dedicado à reflexão.

O atalho é tentador e, no curto prazo, pode ser eficiente. Mas os líderes que vão, de fato, se destacar seguirão outro rumo. Eles tratarão a AI como uma parceira de raciocínio, não como substituta do próprio pensamento.

Questionarão suas recomendações, explorarão alternativas e reconhecerão que a resposta mais provável nem sempre é a mais relevante.

Quanto mais poderosa a ferramenta, maior a responsabilidade de quem a utiliza.

A história da gestão sempre esteve ligada à busca por eficiência. A inteligência artificial pode transformar profundamente a forma como o trabalho é feito, mas não responde às perguntas mais fundamentais.

Por que fazemos o que fazemos? O que realmente estamos tentando construir? Liderar continua sendo a articulação entre direção, propósito e confiança.

No fim, o que distinguirá a próxima geração de líderes será a capacidade de garantir que a tecnologia amplie – e jamais substitua – aquilo que só pessoas podem oferecer.

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Se você é um líder de agora ou do futuro, participe do evento Brilliant Moves, que acontece no dia 29 de abril, no Teatro B32, em São Paulo.

Uma conversa sobre ousadia, coragem e liderança com Fábio Porchat.

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Heloisa Callegaro é sócia sênior e Managing Partner da McKinsey no Brasil.

Mauricio Rebelo é sócio da McKinsey em São Paulo e líder da prática de Transformação no Brasil.

 

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