Foi o paraíso na Terra.
Durante pouco mais de uma década, entre o final dos anos 60 e o começo dos 80, os filmes que saiam de Hollywood surgiam na cabeça dos diretores. Eram eles – e só eles – que tinham direito de levar à tela o que bem entendessem.
O início, com Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas, lançado em 1967, serviu para revelar uma geração brilhante, incluindo Peter Bogdanovich, Hal Ashby, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Robert Altman, William Friedkin, George Lucas e Steven Spielberg. Muitos deles eram oriundos das universidades, íntimos dos ensinamentos do cinema europeu, e alguns até com vínculos com a produção de uma cultura de massa proposta pela televisão.
Os anos loucos em que essa turma deu as cartas foram inventariados primeiro, de maneira mais ampla e geral, em Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’roll Salvou Hollywood, livro do jornalista norte-americano Peter Biskind com primorosa tradução de Ana Maria Bahiana, e, mais recentemente, de forma detalhada e específica em 1975 – O Ano do Colapso, documentário de Morgan Neville (o mesmo de A Um Passo do Estrelato) disponível na Netflix.
Com uma montagem criativa e nervosa, o documentário revê o ano em que os EUA viveram perigosamente e, ao recuperar fatos ocorridos há mais de cinco décadas, se mostra ainda mais atual. Os conflitos daquela época encontram semelhanças com muitos dos problemas da Era Trump.
Como definiu a mesma Ana Maria Bahiana – com a autoridade de quem escreveu o Almanaque dos Anos 70 – aquela década foi tão intensa e diversificada que poderia ser dividida em duas, cada uma completamente distinta da outra.
No recorte proposto pelo documentário, o ponto de inflexão foi exatamente o ano de 1975. O curto espaço de tempo – resumido em obras como Todos os Homens do Presidente e em outros filmes do mesmo ano, como A Trama (de Alan J. Pakula), Taxi Driver (que revela o alucinado delírio sobre a violência urbana narrado por Martin Scorsese), Um Dia de Cão e Rede de Intrigas (de Sidney Lumet), Um Estranho no Ninho (de Milos Forman), A Última Missão (de Hal Ashby), Três Dias do Condor (de Sydney Pollack), Nashville (de Robert Altman) e A Conversação (outro ensaio sobre a paranoia, este dirigido por Francis Ford Coppola) – comprova como esses diretores – auxiliado por atores como Warren Beatty, Jack Nicholson, Al Pacino, Robert De Niro e Peter Fonda – assumiram o controle da produção cinematográfica depois da falência dos grandes estúdios.
A Nova Hollywood era ousada e atrevida. Surgia desafiando os produtores que até então mandavam e desmandavam, e colocava no centro a proposta de um cinema de autor em que a figura do diretor era soberana. Cabia a essa nova elite ter a coragem para propor e realizar filmes sobre temas polêmicos (Máfia, Guerra do Vietnã, conspirações, paranoias, suicídios, drogas, homossexualidade, serial killers). Dinheiro para gastar não faltava.
Morgan Neville sustenta sua tese partindo do princípio de que aquele ano – assolado pelo fim da guerra do Vietnã, pelos desdobramentos do escândalo de Watergate e pela expectativa pela celebração do bicentenário da independência em 1976 – jogou o país no mais estressante período dos seus dois séculos de história.
Os Estados Unidos perderam a inocência e passaram a viver uma até então inédita situação de falta de confiança nas autoridades, nos políticos e nos discursos oficiais. Tudo parecia desmoronar.
Para corroborar seu argumento, Neville se sustenta em depoimentos de artistas que estavam na linha de frente daqueles acontecimentos, gente como Martin Scorsese, Oliver Stone, Albert Brooks e Ellen Burstyn. A narração também é de alguém profundamente identificada com o período, a atriz Jodie Foster, estrela de Taxi Driver.
Neville é ao mesmo tempo otimista e pessimista em sua avaliação final. Pessimista por vislumbrar que a consagração de Rocky, de Sylvester Stallone, no Oscar de 1976 (premiado em março de 1977) representaria uma guinada conservadora na política e na cultura americana. Otimista pela crença de que o país teria condições históricas de superar qualquer crise, das passadas às futuras.
Em parte, o diretor seria desmentido pelos fatos. A calmaria trazida pelo Democrata Jimmy Carter logo após Watergate seria soterrada pela consagração do conservadorismo de Ronald Reagan e a confirmação de 12 anos do poderio Republicano, culminando com o final da Guerra Fria e o triunfo de uma política individualista.
O cinema também entraria numa nova fase. Tubarão, lançado no Natal de 1975, revelaria o talento de Steven Spielberg, talvez o menos político e revolucionário entre os diretores de sua geração, e definiria o tipo de filme que o espectador americano estava interessado.
O medo agora não era de algo desconhecido, como muitos longas-metragens até então deixavam no ar. O medo tinha forma e tamanho. E o público estava interessado em exemplos explícitos.
Tubarão reformulou a maneira de produzir filmes e inaugurou um novo momento na indústria cinematográfica. A ousadia dos diretores agora seria pautada pela bilheteria. A saga Guerra nas Estrelas, lançada pouco depois, seria a maior confirmação desses novos caminhos.
Para os representantes da Nova Hollywood, o sonho que já então começava a agonizar acabaria no começo dos anos 80, com o megafracasso de O Portal do Paraiso, de Michael Cimino, um filme que custou US$ 50 milhões e faturou apenas US$ 1,5 milhão.
Foi a senha para que os produtores e os estúdios retomassem o controle da situação. Os golden boys caíram em desgraça e muitos enfrentaram tragédias pessoais. Mas durante aqueles 13 anos, eles fizeram filmes que transformaram a história do cinema, ganharam muito dinheiro – e se divertiram muito.











