E se o boom de AI for tão bullish a ponto de se tornar extremamente bearish?
Um cenário hipotético desenhado pela casa de research americana Citrini, em que o avanço da AI arrasa diversos mercados e a economia global em apenas dois anos, provocou pânico no mercado ontem.
As ações mais afetadas foram as de setores como pagamentos, consumo cíclico e software, todos duramente prejudicados na hipótese descrita no exercício: Visa recuou 4,5%, Doordash caiu 6,6% e IBM implodiu 13%, também pressionada pela notícia de que o Claude, da Anthropic, consegue atualizar uma velha linguagem de programação, o COBOL, desintermediando assim os serviços prestados por consultores da IBM, Accenture e Cognizant, por exemplo.
Embora analistas e a própria Citrini caracterizem o relatório como um exercício de worst-case scenario, a reação dos ativos reforça o baixo nível de confiança e visibilidade do mercado neste momento em que os avanços da AI já se tornaram exponenciais.
Com uma data futura de 30 de junho de 2028, o paper da Citrini é uma viagem no tempo intitulada A Crise Global de Inteligência de 2028, que narra uma sucessão de “fatos” relacionados ao avanço da AI que fizeram o mundo mergulhar em apuros em apenas dois anos.
O princípio da crise descrita no relatório, datado do início de 2026, está mais para fato do que para elucubração: agentes de AI começam a replicar funcionalidades de SaaS e deslocam o mercado de software, impactando o poder de negociação e posteriormente as receitas das empresas do setor.
No cenário da Citrini, à medida que a AI avança em todas as grandes corporações, as vendas de licenças de software recuam, obrigando as desenvolvedoras a substituir humanos por AI para reduzir custos.
“As empresas mais ameaçadas pela AI tornam-se as que adotam a tecnologia mais agressivamente,” diz o texto, indicando que toda economia gerada pela substituição de humanos passa a financiar novas ferramentas de AI para substituir mais trabalhadores.
No início de 2027, o uso de LLMs já é universal, e os agentes de AI passam a tomar decisões de compra por nós, eliminando qualquer “fricção” humana do processo.
Como resultado, negócios baseados em recomendação e taxas de conveniência – de viagens a seguros – são dizimados.
Aplicativos de delivery, por exemplo, perdem todo o seu economic moat porque a AI vai sempre buscar o melhor preço; e a barreira para a criação de novas plataformas que oferecem o mesmo serviço nunca foi tão baixa.
Além da busca por melhores preços, os agentes de AI passam a encontrar maneiras de evitar taxas de cartão de crédito, transacionando entre si com stablecoins e desafiando o modelo de negócios de gigantes do setor de pagamentos.
Também em 2027, segundo o cenário da Citrini, a AI já substitui humanos em trabalhos altamente qualificados como finanças e software, a taxa de desemprego dispara e o consumo da população começa a despencar.
A produtividade nunca foi tão alta, mas a riqueza também nunca esteve tão concentrada e, como as máquinas não consomem bens, o dinheiro para de girar – chegamos à era do “ghost GDP” (o PIB fantasma).
Não demora a derrocada do setor de crédito privado, afundado em leveraged buyouts de empresas de software e tecnologia e sem o colchão das seguradoras para financiar seus negócios.
A estrutura de capital destas empresas é tão opaca que não é possível dizer quem está arcando com as perdas no momento – mas calotes acontecem, os reguladores exigem mais capital de garantia e o setor entra em crise de liquidez.
A insolvência também se estende ao mercado imobiliário, já que nem os tomadores de crédito com melhor score recebem mais salários – e assim deixam de honrar seus compromissos.
Economias baseadas em serviços, como a Índia, afundam, e o governo dos EUA precisa transferir renda à população como nunca, enquanto sofre uma queda inédita nas receitas.
O governo debate o Transition Economy Act, que cria um imposto sobre o processamento de AI; e o Shared AI Prosperity Act, que estabelece um fundo para distribuir os dividendos do setor às famílias.
Enquanto os políticos não se decidem, no entanto, a AI continua avançando.
Os analistas da Citrini concluem, já de volta a 2026, que a escassez da inteligência humana sempre foi o grande motor da evolução do mundo no passado, mas que este “prêmio” está acabando – e nós precisamos agir.
“A economia pode encontrar um novo equilíbrio, e chegar lá é uma das poucas tarefas que restam apenas aos humanos. Precisamos fazer isso corretamente,” disse o time liderado por Alap Shah. “Esta é a primeira vez na história que o ativo mais produtivo da economia gera menos (e não mais) empregos. Nenhum modelo se encaixa, porque nenhum foi projetado para um mundo onde o insumo escasso se tornou abundante. Portanto, precisamos criar novos modelos. A única questão que importa é se os construiremos a tempo.”






