Camil, o IPO do arroz com feijão

A Camil Alimentos reduziu a ambição de preço para sua oferta inicial de ações, dando aos investidores uma margem de segurança e aumentando as chances de sucesso da oferta.

A faixa indicativa caiu de R$ 10,50-13 para R$ 9-10,50; segundo os bancos, na nova faixa a oferta já estaria coberta. O prazo final das ordens é amanhã.

Se sair no meio da faixa, a oferta vai precificar a Camil a 12,5 vezes o lucro esperado para 2018 e a 7x EV/EBITDA, múltiplos que chegam a parecer módicos depois do rali das últimas semanas.

Desde o início do processo de pre-marketing da oferta, há quase dois meses, os investidores tiveram uma ótima impressão do management — mais especificamente do CEO, Luciano Quartiero — mas reclamaram do preço.

A maior parte da oferta é secundária. Fundos do Warburg Pincus, que compraram 32% da empresa da Gávea há pouco mais de um ano, estão vendendo metade de sua participação.

Os 68% restantes seguem nas mãos de Jairo Quartiero e seus três filhos, dois dos quais, Jacques e Thiago, estão vendendo uma quantidade marginal de ações.

Nas interações como mercado, o CEO surpreendeu os investidores por sua franqueza.

"Quando alguém achava que tinha encontrado uma vantagem competitiva na empresa, ele dizia, ‘Não, isso aí não é vantagem não. Mas eu lhe mostro essa outra vantagem aqui que você não está vendo,’” disse um gestor.

Arroz, feijão e honestidade: os ingredientes que todo investidor exige.

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A história da Camil começa nos anos 1960, quando o hoje chairman Jairo Quartiero abandonou o seminário e voltou para Itaqui, no Rio Grande do Sul, depois que um incêndio dizimou o engenho da família.

Jairo passou a transportar arroz de uma cooperativa da região para São Paulo. Nas muitas idas e vindas de caminhão, teve uma ideia: empacotar e comercializar o produto na capital paulista, num mercado que até então era dominado pela venda a granel.

Ele abriu um centro de distribuição em São Paulo na década de 1980 e acabou se tornando dono da cooperativa que deu origem à Camil. Seguindo o caminho natural, passou a comercializar também o feijão.

Nos anos 2000, já consolidado e com escala, Jairo decidiu que o modelo era replicável em outros países, e comprou operações no Chile, Peru, Argentina e Uruguai.

A Camil virou uma máquina de aquisições. Em 2011, levou a Femepe, uma processadora de pescados catarinense dona das marcas Pescador e Alcyon, e a Coqueiro, que então pertencia à PepsiCo.

No ano seguinte, a Camil pagou à Cosan R$ 345 milhões pelas marcas de açúcar União e da Barra.

Para financiar as aquisições — foram 13 desde 2007 — a Camil recebeu um aporte da Gávea em 2011, numa operação que deu 31,75% da companhia para a gestora de Arminio Fraga.

Em agosto do ano passado, o Warbug Pincus comprou a fatia do Gávea, com conhecimento de causa: Piero Minardi, gestor da Pincus, antes trabalhava na Gávea, onde era responsável pelo investimento.

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É difícil passar pelo supermercado sem abastecer o caixa da Camil.

A empresa é líder no mercado de arroz, com 17% de share no mercado nacional e 31% em São Paulo. No mercado de açúcar, o share é de 36%; na sardinha enlatada, 45%. No atum em lata, a empresa é vice-líder com 24%.

Ao todo, são 29 unidades de processamento e 18 centros de distribuição na América do Sul, onde a empresa é líder nos mercados de arroz do Uruguai, Chile e Peru.

Apesar de exportar para 50 países, o mercado doméstico responde por 90% do faturamento da Camil.

Apesar de o negócio ser relativamente simples – empacotar e vender commodities – a companhia afirma que consegue praticar preços de 5% a 10% maiores que a média das categorias em que atua por conta da preferência dos consumidores pela marca, o que aumenta sua capacidade de repassar choques de custos.

Mesmo em meio à pior recessão da história, o faturamento aumentou. De março de 2016 a fevereiro deste ano (o ano fiscal da companhia), as vendas cresceram 17% para R$ 4,95 bilhões.

A rentabilidade também subiu: o EBITDA avançou 29%, com margem de 11,1%, 1,1 ponto percentual a mais do que nos 12 meses anteriores. O lucro praticamente dobrou: de R$ 110,8 milhões para R$ 201,5 milhões.

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A companhia pretende usar os recursos levantados com a oferta primária para crescer.

A ideia é atuar como consolidadora dos mercados de arroz e feijão, ainda bastante pulverizados. O foco é fora do eixo Rio-São Paulo, especialmente no interior do Rio, Minas Gerais e Espírito Santo, regiões onde a atuação ainda é mais tímida.

A Camil diz ainda que pretende entrar em segmentos alimentares nos quais ainda não tem presença, mas que tenham sinergias com o seu negócio, como “farináceos, enlatados, café, biscoitos e massas”.

Outro nicho é a extensão da marca União para outros produtos como adoçantes, café, leite condensado, doces e produtos saudáveis.