Os negócios de infraestrutura tiveram investimentos recordes e uma intensa agenda de leilões no Lula 3.
Mas como diz o disclaimer, desempenho passado não garante resultados futuros.
Para representantes de empresas, bancos e gestoras, o quarto mandato do Presidente começará com desafios maiores porque as incertezas sobre a condução da política fiscal devem dificultar a redução das taxas de juros, uma variável chave para o segmento.
"A agenda de infra já deixou de ser uma coisa de Governo e virou de Estado. Os leilões e o pipeline de projetos vão continuar. Mas a maior preocupação do nosso lado é com as questões macro: a viabilidade do fiscal e como ficam os juros. Porque é um setor que tem que se endividar para fazer o capex,” Ronei Glanzman, o CEO da MoveInfra, que reúne grupos como Motiva, EcoRodovias e Rumo, disse ao Brazil Journal.
Após a aceleração dos gastos às vésperas das eleições que ajudou a garantir a vitória de Lula, ainda paira no ar o temor de que, para fechar as contas, o Governo possa propor o fim da isenção de imposto de renda para as debêntures que financiam projetos de infraestrutura.
Em 2025, as debêntures incentivadas captaram um recorde de R$ 178 bilhões para empreendimentos de energia, rodovias, saneamento e outras indústrias.
"A equipe do ministro (da Fazenda) Dario Durigan já sinalizou que quer mexer nisso, e são esses títulos que vêm financiando toda a cadeia,” disse Ronei.
Agentes do setor receiam que, após não conseguir extinguir os incentivos de IR por medida provisória no passado, o Governo possa escolher um caminho de aumentar o IOF das debêntures por decreto.
Para uma fonte de um grande banco, uma alternativa seria instituir uma alíquota de IR mais baixa para esses títulos, de até 5%, ou um maior controle sobre se as emissões estão de fato financiando novos projetos.
“Muita gente já está chegando à conclusão de que algum ajuste nas incentivadas vai ter que ser feito, que viria algo mesmo se o Flávio Bolsonaro ganhasse. Mas se acabar com a isenção numa canetada vai ser um desastre para a infraestrutura."
O sentimento negativo na Faria Lima após a eleição também inviabiliza outros planos de captação de recursos para os projetos, como IPOs e ofertas de ações.
Alguns grupos de infra já sondavam investidores sobre follow-ons depois do rali pós-primeiro turno, e agora não encontrarão mais apetite, disse uma outra fonte do mercado.
A ação da EcoRodovias despencou 60,5% no pregão desta segunda-feira. A Motiva caiu 27%. Sabesp recuou 21%, e Copasa, quase 24%.
“Claramente o sentimento está um pior. No curto prazo vai existir ruído, pode ser que o macro afete mais que o fundamento técnico, o micro dos projetos. No médio e longo prazo, ainda tem toda uma agenda para acontecer. Só que o nível de retorno que vai se exigir pode ficar mais alto.”
No setor de saneamento, por exemplo, alguns leilões recentes tiveram dificuldades para atrair investidores, com analistas citando a preocupação com os juros, o endividamento das empresas e sua maior seletividade como fatores que pesaram sobre o interesse.
Nas rodovias, os melhores projetos já foram licitados, e as ferrovias, que são a próxima prioridade do Governo, envolvem projetos mais caros e complexos.
A agenda do Governo para 2027 prevê até 11 leilões de concessões de rodovias e quatro de ferrovias, além de nove chamamentos públicos.
Também há expectativas de um leilão de repactuação do aeroporto de Viracopos e possivelmente em algum momento do Santos Dumont; em portos, a grande aposta é destravar a licitação do terminal Tecon 10 em Santos, originalmente prevista para este ano.
“A política de concessões todo mundo acha que vai continuar, mas existe uma preocupação de essa agenda de infra ficar meio travada ou desacelerar por conta do patamar dos juros. E aí falamos mais da taxa forward que da Selic,” disse um executivo de um banco.
"O mercado ainda não consegue enxergar quando os juros vão começar a cair. Agora vai ficar todo mundo atento para ver a política econômica. Se vai ter um novo arcabouço fiscal."
As empresas também estão acompanhando as notícias e rumores sobre a composição do Governo.
“Se colocar um Alckmin na Fazenda e der sinalizações corretas, dá pra imaginar um cenário com as coisas melhorando,” disse a fonte do setor bancário.
No Ministérios dos Portos e Aeroportos e dos Transportes, Tomé Franca e George Santoro são elogiados pelo mercado, mas há pouca expectativa de que continuem nos cargos por não serem políticos.
Nos Transportes, Renan Filho também teve atuação bem vista, mas há dúvidas sobre se voltaria ao Governo após as derrotas eleitorais da família Calheiros.





