Ricardo Sardenberg: o ‘insider outsider’ da arte brasileira

Ricardo Sardenberg: o ‘insider outsider’ da arte brasileira

Ao longo de 30 anos de carreira, Ricardo Sardenberg trabalhou em lugares emblemáticos e com figuras icônicas da arte brasileira.

Na Pinacoteca de São Paulo, esteve ao lado de Emanoel Araújo; com Karla Camargo, dirigiu a Camargo Vilaça logo após a morte de Marcantonio Vilaça. Em junho de 2001, ajudou Bernardo Paz no projeto que daria origem ao Inhotim. Não bastasse tudo isso, foi um dos fundadores da editora Cobogó e representante da Art Basel no País por 15 anos.

Formado em fotografia e história da arte pela NYU, Sardenberg começou na galeria Zabriskie, em Manhattan, onde foi de estagiário a diretor antes de voltar ao Brasil no final dos anos 90. 

“Já trabalhei em todas as áreas do sistema de arte – só não fui artista,” Sardenberg disse ao Brazil Journal, rindo, enquanto finalizava a montagem da nova exposição Entrar na Roda, de Janina McQuoid, em sua galeria homônima. 

Sardenberg é galerista há cinco anos, e agora preside a Associação Brasileira de Arte Contemporânea.  Filho de um diplomata que foi embaixador do Brasil na ONU duas vezes, ele cresceu entre uma grande e variada biblioteca e a discoteca dos seus pais.

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Foi uma amiga galerista, Alessandra D'Aloia, quem o incentivou a assumir a liderança da associação, reconhecendo nele uma visão de conjunto do sistema da arte, e não só o ponto de vista das galerias.

Depois de crescer exponencialmente nos últimos 15 anos, o mercado brasileiro de arte agora avança a um ritmo mais moderado. Sardenberg faz uma distinção importante: o número de compradores aumentou muito, mas poucos são colecionadores de verdade. 

“As pessoas usam o termo colecionador com muita facilidade. Eu geralmente falo: ‘você não é colecionador, você é um comprador’. Para provar para mim que você é um colecionador, é outra coisa.”

Ele pega emprestada a distinção que Walter Benjamin fazia com livros: Benjamin dizia que o leitor compra o livro para lê-lo, enquanto o colecionador compra por outra razão.

“Quando ele era leitor, comprava o livro e o lia. Quando vira colecionador, compra e forma uma biblioteca extensa – sempre tem alguém que pergunta: ‘você já leu todos esses livros?’ Claro que não. ‘Você já conviveu com toda a obra de arte que faz parte de uma coleção?’ Claro que não. Mas o colecionador tem que ter. É uma coisa de posse mesmo, não tem uso.”

E conclui que “o comprador compra arte para uso. Tenho um apartamento novo, tenho uma parede e preciso botar uma obra na parede. [...] O colecionador, não. Ele compra porque tem que comprar.”

Decorar uma casa ou apostar numa valorização futura não é o motor de um colecionador. Ele é incisivo com quem procura na arte uma promessa de retorno financeiro. “Você tem que querer aquilo, gostar daquilo, entender bem antes de comprar. A chance de errar é muito grande. O que parece estar dando certo hoje daqui a dois anos a moda pode mudar...."

O que mudou muito foi o mercado depois da pandemia. Hoje existem muitos art advisors, influenciadores, grupos de arte que organizam visitas e aulas, o que faz Sardenberg refletir sobre o futuro.

“Não tenho a menor ideia de como vai ser. A única coisa que sei é que está mudando e vai mudar. Está se estruturando uma nova rede, um novo modelo. Existem essas novas fórmulas que estamos todos meio que testando.”

A única certeza é a importância de se conviver com a arte e seu circuito. “Se você quer se aprofundar, tem que ir para a galeria, tem que ver exposição. Numa individual, você vê a obra, entende o raciocínio. Depois vai à feira, encontra a galeria, vê o trabalho daquele artista, reconhece e sabe colocar aquilo em relação a outras obras que você já viu.”

Na exposição individual, ele diz, aprende-se a reconhecer tanto um artista quanto o programa de quem o representa. “É muito importante conhecer a sua galeria, o seu galerista, com quem você faz negócio. É tão importante o galerista conhecer o cliente quanto o contrário.” 

Sua curiosidade tem se voltado para os mercados regionais. Sardenberg acompanha feiras em Goiânia e no Recife, atento às novas gerações de compradores. 

Desde o advento do Inhotim, ele espera que apareçam mais iniciativas de grande escala fora do eixo Rio-São Paulo. “Eu sabia que ia dar certo, que as pessoas iriam. Mas achava que iam aparecer outras iniciativas no Centro-Oeste, com muita terra e muito espaço, fazendo coisas assim. Isso não aconteceu. Toda hora acho que vai acontecer. Continuo eternamente acreditando.”

Em São Paulo, ele se orgulha de ter contribuído para a abertura de um novo circuito em Higienópolis. Na vila onde está a Sardenberg, os espaços se apoiam e articulam aberturas conjuntas.

Há residências artísticas, espaço de coleção privada, espaço para artistas, editoras  – o tipo de lugar cool que atrai visitantes nas grandes capitais da Europa – mas nunca valorizamos devidamente quando são nossos. 

Ele ainda se surpreende com a resistência de parte do público local a mudar seus percursos. “As pessoas ficam presas nos seus pequenos currais e não circulam.  Estamos a 10 minutos dos Jardins e mesmo assim algumas pessoas ficam por lá e hesitam em vir.” 

A proposta da ABACT de uma Art Week – para estimular a circulação entre galerias, museus e instituições – reflete essa crença na importância da experiência das exposições na formação do olhar.

Nesses últimos anos como galerista, Sardenberg tem curtido a liberdade absoluta para experimentar e criar o programa com a sua cara. 

“Passei a vida inteira trabalhando para os outros. Mesmo quando tinha a Cobogó, tinha sócios para quem precisava responder. A galeria é a primeira vez em que é tudo meu, para o bem e para o mal. Quando acerto, posso bater no peito e falar: acertei. Mas, quando erro, não tenho em quem jogar a culpa. O erro é meu.”

Então ele está feliz?

“Eu me divirto.” Pausa. “Quando chegam os boletos, nem tanto.”