O livre-arbítrio existe? Somos realmente autores das nossas escolhas, ou elas são determinadas por forças que não controlamos? Essa antiga questão filosófica ganhou uma nova dimensão com a neurociência, que desafia nossas ideias de liberdade, responsabilidade, mérito e culpa.
Pense em dois presos em Israel. O primeiro é ouvido às 8h50, pedindo liberdade condicional. Os juízes acabaram de tomar café. Ele sai solto. O segundo, com crime e ficha parecidos, faz o mesmo pedido pouco antes do almoço. Negado.
Ninguém naquela sala diria que a fome decidiu o caso. Os juízes acreditavam estar pesando provas, reincidência, arrependimento. Mas quando, em 2011, pesquisadores das universidades Ben-Gurion e Columbia analisaram mais de mil decisões, encontraram um padrão: logo após cada refeição, cerca de 65% dos pedidos eram aceitos. Ao fim de cada sessão, quase nenhum.
O estudo foi contestado por quem suspeitava que a ordem dos casos não fosse aleatória. Mas a pergunta que ele deixou não foi embora: se o almoço pode entrar numa sentença, o que mais entra nas nossas decisões sem pedir licença? No limite, escolhemos alguma coisa?
Poucos levaram essa pergunta tão longe quanto Robert Sapolsky.
No fim dos anos 1970, recém-formado em Harvard, Sapolsky foi para o Quênia viver entre babuínos. Passou anos atirando dardos tranquilizantes em primatas e anotando quem atacava quem. Descobriu que os animais na base da hierarquia viviam com níveis altos de hormônios do estresse, e adoeciam mais por isso. A posição social, algo que nenhum babuíno escolheu, estava escrita no seu corpo.
Professor de Stanford, Sapolsky passou as décadas seguintes estendendo esse raciocínio aos humanos. Em Comporte-se (2017) e Determined (2023), chegou a uma conclusão radical: o livre-arbítrio, como gostamos de imaginá-lo, não existe.
O mais interessante não é a conclusão. É o método.
Diante de um comportamento – por exemplo, alguém que perde a paciência e agride outra pessoa – Sapolsky recua no tempo. Segundos antes: o que acontecia naquele cérebro? Horas antes: fome, cansaço, álcool? Meses: que experiências moldaram essa reação? Anos: que infância teve? E antes de nascer: que genes recebeu, em que útero foi gestado?
A cada passo para trás, aquilo que chamamos de “escolha” ganha uma história. E então vem a provocação: em que ponto dessa cadeia aparece um “eu” independente de tudo isso, decidindo livremente, como um morador da cobertura da nossa consciência?
A pergunta incomoda mais quando chega às nossas virtudes. Aceitamos que talento é sorte. Mas e a disciplina, a paciência, a capacidade de insistir depois do fracasso? Sapolsky ameaça não apenas a ideia de culpa, mas a de mérito. E é sempre mais fácil relativizar a culpa dos outros do que o mérito que atribuímos a nós mesmos.
Se ele estiver certo, a liberdade de escolha é uma ilusão confortável. Agora considere outra pessoa.
Charlie Munger nasceu em Omaha em 1924. Largou a faculdade para ir à guerra e, mesmo sem diploma, foi aceito em Direito em Harvard, onde se formou com distinção. Por volta dos 30 anos, recebeu algumas das piores cartas que a vida distribui: um divórcio que o deixou morando num quarto de clube, e, dois anos depois, a morte do filho de nove anos, vítima de leucemia. Em 1980, uma complicação numa cirurgia de catarata lhe custou o olho esquerdo.
Ninguém escolhe essas cartas. E no entanto, Munger se tornou o braço direito de Warren Buffett por mais de quatro décadas na Berkshire Hathaway.
Munger passou a vida estudando por que pessoas inteligentes tomam decisões estúpidas. Em 1995, numa palestra em Harvard batizada de A psicologia do erro humano, listou duas dúzias de tendências psicológicas que distorcem o julgamento: incentivos, inveja, autoengano, coerência, pressão do grupo.
Seu método era a inversão. Em vez de perguntar como acertar, perguntava como errar e fugia disso. Gostava de citar um velho camponês: “Só quero saber onde vou morrer, para nunca ir lá.”
Munger tinha uma intuição que fazia toda a diferença: a vida é um jogo de Pareto. Poucas decisões – como com quem casar, o que estudar, onde trabalhar, com quem se associar – condicionam milhares das que vêm depois. E a qualidade dessas poucas decisões depende mais de inteligência emocional do que de genialidade.
É tentador ler essa história como prova de força de vontade. Sapolsky nos pediria cuidado: admirar a resiliência de Munger talvez seja apenas o nosso velho reflexo de acreditar no livre-arbítrio. Ele responderia que a própria disposição de Munger para pensar assim veio de algum lugar: genes, Omaha, um pai advogado, a dor de enterrar um filho. Munger, provavelmente, concordaria. E continuaria fazendo suas listas.
Sapolsky e Munger enxergavam a mesma paisagem: decisões humanas moldadas por forças que não percebemos. Sapolsky perguntou onde fica a liberdade. Munger perguntou onde ficam as armadilhas.
Um explica a máquina; o outro aprende a operá-la (e, diga-se de passagem, muito bem representado na taxa de retorno da Berkshire ao longo de décadas de alocação de capital). Se o cansaço, os incentivos e a pressão social decidem por nós, a saída não é negar isso, mas desenhar a vida para que essas forças nos atrapalhem menos.
Em vinte anos entre conselhos, comitês de investimento e cadeiras como CEO, vi poucas decisões ruins nascerem da falta de inteligência. Quase todas vieram de pressa, cansaço, vaidade, ou um incentivo mal desenhado. Sapolsky explicaria cada uma delas. Munger teria evitado várias.
Voltemos aos presos. O homem ouvido antes do almoço não escolheu o horário da audiência. Os juízes não escolheram a própria fome. Mas, sabendo o que a fome faz com uma sentença, alguém pode escolher como montar a agenda.
Talvez seja isso o que resta do livre-arbítrio. Não um “eu” soberano decidindo do nada, mas algo mais modesto, que os estoicos já intuíam ao separar o que depende de nós do que não depende. Conhecer o que nos determina não nos liberta. Mas nos dá alavancas.
Pedro Thompson é sócio e CEO da Tuesday Capital.





