A vida são ciclos – e não este mito da linha reta

A vida são ciclos – e não este mito da linha reta

Vivemos convencidos de que a vida avança em linha reta. Nascemos, crescemos, construímos e envelhecemos – como se a existência fosse uma sequência contínua de acontecimentos.

Mas basta observar a Natureza para encontrar outra lógica. A Terra completa uma volta ao redor do Sol a cada ano, a Lua atravessa suas fases, as estações retornam, e nosso corpo alterna sono e vigília.

Até na escala atômica encontramos regularidade: o próprio segundo é definido a partir de 9.192.631.770 períodos de uma radiação associada ao átomo de césio. O tempo avança, mas a Natureza se organiza em ciclos que se repetem.

E se essa mesma lógica atravessasse a história, a economia, e nossa própria existência?

Friedrich Nietzsche levou essa intuição ao extremo com a ideia do eterno retorno: e se tudo o que vivemos – escolhas, conquistas e fracassos – tivesse de se repetir infinitamente? Mais do que uma hipótese cosmológica, era um teste sobre nossa relação com a vida. Mas a percepção é muito anterior a ele.

Há mais de dois milênios, o livro do Eclesiastes, do Antigo Testamento, já lembrava que existe um tempo para tudo: plantar e colher, construir e destruir, nascer e morrer. Talvez a vida não seja apenas uma marcha linear em direção ao futuro, mas também uma sucessão de ciclos que se renovam.

A história oferece um dos exemplos mais claros. No início do século XX, o mundo vivia uma globalização sem precedentes, liderada pelo Império Britânico e pelas potências europeias.

Mercadorias, capitais e pessoas cruzavam fronteiras numa escala que parecia irreversível. Em 1914, a Primeira Guerra interrompeu essa trajetória: vieram décadas de nacionalismo, protecionismo, depressão e outra guerra devastadora.

Mais de um século depois, após décadas de renovada integração, assistimos ao retorno de forças familiares: rivalidades geopolíticas, barreiras comerciais e cadeias produtivas fragmentadas. A história não se repete exatamente, mas o passado conversa com o futuro. Quem estuda os ciclos anteriores não consegue prever exatamente o próximo, mas talvez esteja mais preparado para reconhecer seus primeiros sinais.

Na economia, essa dinâmica é ainda mais visível. Expansões são sucedidas por contrações, crédito abundante dá lugar à escassez, tecnologias dominantes acabam substituídas. Joseph Schumpeter, que dedicou uma obra inteira aos ciclos de negócios, chamou de destruição criativa o processo pelo qual a inovação renova continuamente a estrutura econômica.

O Brasil conhece bem esse movimento. Em 2009, a The Economist estampou o Cristo Redentor decolando como um foguete; quatro anos depois, a capa era o Cristo em queda. Entre aqueles dois momentos, empresas e investidores tomaram decisões como se aquela prosperidade fosse permanente.

Eu mesmo vivi essa dinâmica. Em 2016, assumi a Estácio (hoje Yduqs) depois que a retração do FIES havia transformado o setor de educação superior. Durante anos, o financiamento estudantil sustentara matrículas, receitas e planos de expansão. Na chegada, a pergunta na mesa já não era quanto a companhia cresceria, mas quanto da base de alunos se sustentaria sem o financiamento público.

Desde então, primeiro como executivo e depois como investidor, passei a fazer uma pergunta diante de cada crise: estamos diante de uma dificuldade passageira ou uma mudança estrutural? Uma empresa pode executar bem sua estratégia e descobrir que as premissas sobre as quais foi construída deixaram de existir. As premissas, afinal, também não andam em linha reta.

Com o tempo, aprendi a olhar três sinais. Primeiro, se o problema atinge só a empresa ou todo o setor. Segundo, se a recuperação depende de algo que controlamos ou de uma variável externa voltar ao que era. Terceiro, se os clientes estão apenas adiando decisões ou mudando de comportamento.

Quando as respostas apontam para fora e para mudança, insistir na estratégia antiga é só adiar a conta.

Os ciclos não pertencem apenas aos mercados. Rudolf Steiner, o fundador da antroposofia, propôs compreender o desenvolvimento humano em períodos de sete anos, os setênios. Não há comprovação científica de intervalos tão precisos, mas a metáfora é poderosa.

A juventude costuma ser marcada pela descoberta; a vida adulta, pela construção de carreira, relações e patrimônio; mais tarde, emergem perguntas sobre significado e legado. O que buscamos aos vinte raramente é o que nos move aos quarenta ou sessenta.

Quanto mais experiências acumulo, mais percebo essa transformação nas minhas próprias prioridades. Durante boa parte da vida profissional, o sucesso parecia associado à próxima conquista, ao crescimento de uma empresa ou a um novo projeto. Com o tempo, outras perguntas ganham espaço.

O que realmente merece nossa energia? Quais relações queremos cultivar? O que vale a pena continuar construindo? Maturidade não é só aprender a vencer determinados jogos, mas reconhecer que nem todos precisam continuar sendo jogados.

O curioso é que resistimos a essas transições. Queremos que carreiras avancem continuamente, que relações permaneçam imutáveis e que conquistas se acumulem. Mas nossos desejos também mudam. Há ciclos que exigem perseverança, outros que pedem transformação. Nem toda crise representa o fim de uma história, assim como nem toda continuidade significa progresso.

Nietzsche imaginou um círculo perfeito em que tudo volta exatamente igual. Mas a imagem mais fiel à nossa existência é outra: a espiral.

A Terra completa sua órbita a cada ano, enquanto o sistema solar segue seu movimento pela galáxia. O movimento se repete, mas o contexto nunca é exatamente o mesmo. Da mesma forma, revisitamos questões antigas sem voltar ao mesmo lugar. Carregamos aprendizados, escolhas e perdas que mudam a maneira como as enxergamos.

O tempo segue adiante, mas os padrões retornam. Civilizações ascendem e declinam, relações nascem e se transformam. E há sim um tempo de plantar e outro de colher.

A sabedoria não está em prolongar os bons ciclos ou evitar os ruins, mas em compreender que nenhum deles é permanente – e que, muitas vezes, aquilo que interpretamos como o fim de uma trajetória é apenas o início de outra, cujo sentido ainda não conseguimos enxergar.

Pedro Thompson é fundador e CEO da Tuesday Capital.