A primeira reunião do conselho da Petrobras após as eleições, na segunda-feira, foi um exemplo dos choques de realidade que o Lula 4 terá pela frente nos próximos meses.
Não haviam se passado nem 24 horas da abertura das urnas quando o conselho da estatal cobrou planos para um aumento dos preços dos combustíveis em suas refinarias.
Desde o início da guerra no Irã, a Petrobras vem segurando o valor da gasolina e do diesel no mercado doméstico – na prática combinando seus reajustes com políticas de subvenção do Governo para limitar os impactos aos motoristas nos postos.
Mas até o momento, essa estratégia não tem sido suficiente para garantir o cumprimento da política de preços definida pela própria companhia, que prevê algum alinhamento aos mercados internacionais e ao câmbio.
“Existe um atraso importante e que tem que ser endereçado. Há uma inquietação sobre o tema,” uma fonte com conhecimento das discussões disse ao Brazil Journal.
“O problema é que, se for fazer o ajuste, ele será tão monumental e veloz que vai resultar num desarranjo econômico. Então, como fazê-lo? Essa será uma decisão da diretoria.”
No diesel, a defasagem em relação à referência internacional atingiu 127%, aumentando ainda mais com o salto do dólar após as eleições, segundo cálculo da Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom). Na gasolina, a defasagem é de 32%.
“É meio que uma questão aritmética, né?,” disse uma segunda fonte com conhecimento dos debates no conselho, acrescentando que o tema está no radar há algum tempo.
A atual política de preços da Petrobras não é totalmente clara, mas a companhia adota como referência em alguma medida o mercado internacional e o câmbio, e busca compensar eventuais defasagens temporárias dentro de um mesmo exercício.
Descumprir essa política poderia sujeitar os administradores a questionamentos judiciais pelo descumprimento de seu dever fiduciário.
“Eu não acredito que a Petrobras vá descumprir a política. Ela pode até não conseguir cumprir dentro do ano. Mas não há uma rebeldia contra a política. Acho que isso vai ser endereçado,” disse uma das fontes que acompanha as discussões internas na empresa.
Em um relatório sobre a Petrobras antes da definição das eleições, o BTG disse esperar um possível reajuste nos preços dos combustíveis após o segundo turno.
Além da disparada dos preços do petróleo depois da Guerra no Irã, o mercado de combustíveis tem sido pressionado pelos ataques da Ucrânia contra refinarias russas, que levaram a uma disparada do diesel em relação ao Brent, o chamado crack spread.
Em meio a este cenário, o Governo Lula reduziu os impostos sobre os combustíveis e aprovou subvenções às produtoras e importadoras para segurar os preços nas bombas.
O Ministério do Planejamento anunciou nesta terça-feira a renovação por 30 dias do subsídio de R$ 2,12 por litro de diesel. Para importações, ainda há uma subvenção adicional de R$ 1,40 por litro.
Para a gasolina, está em vigor uma desoneração de R$ 0,89 por litro, com alíquotas zeradas de PIS/Pasep, Cofins e Cide.
Analistas da XP estimam que o Governo está gastando cerca de R$ 9 bilhões por mês com os subsídios ao diesel e à gasolina. Eles calcularam ainda que esses valores podem ser compensados com a arrecadação extra decorrente do petróleo – desde que os preços do Brent se mantenham acima de US$ 105 por barril.
“Por outro lado, assumimos que os preços do petróleo recuarão nos próximos meses para uma média de US$ 75 por barril em 2027,” escreveram os economistas Tiago Sbardelotto e Basiliki Litvac.





