A ArtRio deste ano mostrou um mercado mais ativo nas faixas intermediárias — enquanto museus internacionais ampliaram sua pesquisa sobre artistas brasileiros.
A leitura dos primeiros dias mostrou duas velocidades. De um lado, o mercado secundário de arte moderna brasileira permaneceu seletivo, com compradores negociando e escolhendo com cautela.
Do outro, o contemporâneo apresentou liquidez, sobretudo em obras de preços médios e em artistas cujas carreiras começam a ganhar maior tração institucional. Esse contraste também aparece no relatório da feira: a atividade no secundário foi mais medida, enquanto o contemporâneo teve uma resposta mais dinâmica.
Mais do que grandes cheques isolados, parte relevante do movimento veio de vendas entre US$ 10 mil e US$ 80 mil — uma faixa em que descoberta, trajetória institucional e capacidade de circulação internacional pesam cada vez mais.
Mas talvez o dado mais relevante desta edição tenha vindo de fora do caixa das galerias.
A visita da Sheikha Al-Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani, presidente do Qatar Museums, se somou à presença de Manuel Segade, o diretor do Museo Reina Sofía, além de profissionais ligados à Tate, Centre Pompidou, Turner Contemporary e Wexner Center for the Arts. O movimento reforçou o papel da feira como plataforma de aproximação entre a produção brasileira e redes institucionais internacionais.
Na Galleria Continua, uma pintura monumental de Cristina Canale foi vendida por US$ 80 mil. Outro destaque foi um Manabu Mabe de 1969, reservado por US$ 110 mil, ambas provenientes da família de um importante banqueiro brasileiro. A galeria ainda mantinha em negociação uma obra de Anish Kapoor oferecida por cerca de US$ 1,4 milhão.
Na Pinakotheke Cultural, foram vendidas duas obras de José Pancetti por R$ 350 mil cada. A galeria de Max Perlingeiro também chamou atenção pela visita da Sheikha, que demonstrou interesse particular em Rubem Valentim.
Na Casa Triângulo, uma Sandra Cinto saiu por US$ 60 mil, e um assume vivid astro focus (avaf) por US$ 40 mil. Além disso, obras de cinco artistas da galeria entraram para a Jorge M. Pérez Collection / Espacio 23, em Miami: Lucas Simões, Luiza Gottschalk, Marina Hachem, Rafael Chavez e Zé Tepedino.
A Nara Roesler vendeu várias obras de Flávia Ventura, apresentada em um projeto solo, por entre R$ 40 mil e R$ 60 mil; um André Griffo por US$ 50 mil; e uma de Elian Almeida por US$ 25 mil.
No mercado secundário, a Galatea teve entre as maiores transações um óleo sobre tela de Burle Marx de 1981 de (112x147cm) por R$ 900 mil e uma pintura de Ione Saldanha de 1960, (45x54cm) por R$ 240 mil. No contemporâneo, Mucki foi um dos destaques, com cinco obras vendidas, entre US$ 30 mil e US$ 48 mil. Ygor Landarin e Guilherme Galle também tiveram todas as obras vendidas.
O stand da Vermelho ficou sold out já no primeiro dia do VIP, com obras sobre papel de Chiara Banfi vendidas entre R$ 25 mil e R$ 210 mil.
Na Almeida & Dale, trabalhos de Cassio Michalany, Marlene Almeida, Lidia Lisbôa, Nelson Felix e Laís Myrrha saíram na faixa de R$ 45 mil a R$ 70 mil, enquanto obras de Ana Elisa Egreja, Vivian Caccuri, Nuno Ramos e Alice Shintani ficaram entre R$ 100 mil e R$ 130 mil.
Na Yehudi Hollander-Pappi, um dos destaques foi Ana Raylander Mártis dos Anjos, após sua participação na 36ª Bienal de São Paulo com a instalação A casa de Bené. Na feira, a galeria vendeu os quatro últimos totens da série. Um importante colecionador peruano, patrono de diversos museus internacionais, adquiriu um dos totens e uma escultura em bronze em forma de cesta, com trabalhos na faixa de US$ 10 mil.
Outras vendas incluíram trabalhos de Castiel Vitorino Brasileiro, adquirido por uma instituição sul-americana por cerca de US$ 40 mil, e Natalia Ivanov, na faixa de R$ 100 mil. Trabalhos de Luisa Alcântara e Stefania Lucchese também foram para coleções nos EUA.
Na A Gentil Carioca, as vendas incluíram obras de Renata Lucas, Rodrigo Torres e Maria Nepomuceno, enquanto Agrade Camíz ganhou atenção internacional com a exposição Nome Próprio na sede da galeria.
John Basnage de Beauval, membro do comitê de aquisições de arte africana da Tate Modern, destacou a artista como um nome a acompanhar de perto: “Acho que ela está em plena ascensão e que seu trabalho vem despertando um interesse crescente internacionalmente. Sou particularmente atraído pela maneira como ela se apropria da linguagem visual das periferias do Rio [...] a transforma em algo que se situa entre figuração, geometria e abstração.”
A Galeria Estação vendeu três monotipias de Santídio Pereira por R$ 155 mil cada e um conjunto de 42 ex-votos por R$ 150 mil reunindo peças adquiridas de diferentes núcleos, incluindo de Giuseppe Baccaro nos anos 1990 formado a partir de peças recolhidas em igrejas do Nordeste nos anos 1970.
Na Athena, as vendas incluíram um Gustavo Prado por R$ 200 mil, Edu de Barros por R$ 55 mil, Jonas Arrabal por R$ 35 mil e Pandro Nobã por R$ 28 mil. Além das vendas, a galeria também entrou no radar institucional: Manuel Segade, diretor do Museo Reina Sofía, demonstrou interesse pelo trabalho de Ayla Tavares, artista que já integrou exposições internacionais como Several Eternities in a Day, no Hammer Museum, em Los Angeles.
Na Janaina Torres Galeria, uma das principais vendas foi a pintura monumental de Sandra Mazzini por cerca de US$ 50 mil. A galeria também vendeu várias pinturas de Manuela Navas por aproximadamente R$ 30 mil cada, artista que chamou a atenção de Jacintha Regoletta, cofundadora da MALA — Mujeres Artistas Latinoamericanas — que participou da programação internacional da Latitude.
Na Galeria Inox, o cubano Jorge Mayet teve obras vendidas na faixa de US$ 24 mil a US$ 30 mil. Em 2026, a galeria também fará sua estreia na Untitled Art Miami com uma apresentação solo do artista.
No setor Solo Duo, a galeria Cave destacou a venda de 11 fotografias de Jane Batista, vencedora do Prêmio PIPA 2026 — incluindo a série completa de cinco obras, adquirida por R$ 35 mil, além de seis fotografias avulsas. A galeria também doou obras de Gi Monteiro e Bárbara Banida ao MAR – Museu de Arte do Rio, enquanto outra escultura de Banida foi adquirida por uma colecionadora privada. Bárbara Banida também participa do 39º Panorama da Arte Brasileira, no MAM São Paulo.
A Mazzucchelli Cardoso, inaugurada em maio deste ano em São Paulo, vendeu obras de Luísa Matsushita e Romulo Barros entre US$ 5 mil e US$ 45 mil, para colecionadores da América Latina, Estados Unidos, Europa e Brasil.
No eixo institucional, a ArtRio doou ao MAM Rio Emi, de Nádia Taquary, da Portas Vilaseca. A escolha foi feita por Raquel Barreto, a curadora-chefe do museu, e Maria Luz Bridger, a diretora artística da feira.
Entre as vozes internacionais, três curadoras trouxeram um olhar feminino particularmente pertinente sobre a cena brasileira: Rebecca Lowery, do Wexner Center, destacou práticas ligadas à natureza e a contextos indígenas e amazônicos; Melissa Blanchflower, do Turner Contemporary, chamou atenção para novas leituras de paisagem, citando Juliana dos Santos e Wallace Pato; e Jacintha Regoletta, da MALA, ressaltou Pamela Castro e Manuela Navas, além da força das narrativas afro-brasileiras e indígenas.
A ArtRio deste ano demonstra uma vez que o impacto de uma feira vai muito além das vendas imediatas. Os encontros são importantes, e as relações mais profundas se constroem ao longo do tempo – por meio de aquisições institucionais, residências, pesquisa curatorial, encomendas e exposições internacionais desenvolvidas ao longo de vários anos.
Sophie Su Art Advisory é uma consultoria de arte independente, com atuação no mercado secundário internacional e foco especial no Brasil e na América Latina. Você pode acessar o conteúdo completo aqui.





