Dudu Salamonde “é du Brasiiiil”

Dudu Salamonde “é du Brasiiiil”

Neste domingo, no México, Kimi Antonelli pode se tornar campeão mundial de Fórmula 1, aos 20 anos.

Os italianos da Minardi Management, a agência que ajudou a descobri-lo quando ele ainda era criança, agora apostam num brasileiro de 15.

Em 2027, Dudu Salamonde vai estrear na mesma categoria em que Antonelli foi campeão aos 16 – e quer repetir o feito logo no primeiro ano.

Só a temporada de estreia na F4 custa cerca de € 1,3 milhão. E ela é apenas o primeiro degrau: na Fórmula 1, onde ele quer chegar, existem só 22 vagas no mundo inteiro.

Duas já são de brasileiros.

Daqui a uma semana, Gabriel Bortoleto larga em Interlagos. Aos 22 anos e em sua segunda temporada na F1, ele marcou os primeiros pontos da história da Audi e tem dividido de igual para igual o duelo interno com o veterano Nico Hülkenberg.

E em 2027, Rafael Câmara – campeão da Fórmula 3 em 2025 e hoje na F2 – estreia pela Haas e será apenas o 34º brasileiro a disputar uma temporada de F1. Pela primeira vez em uma década, o país terá dois pilotos no grid.

A pergunta que fica é se isso é o começo de uma nova geração – ou apenas uma coincidência feliz.

A disputa agora é para ser o terceiro brasileiro no grid, e Dudu é o mais novo da fila. Não é o mais adiantado: Pedro Clerot e Fernando Barrichello, o filho de Rubens, já correm na Fórmula 3. Mas é no degrau de Dudu, a saída do kart, que a maioria das carreiras se decide, e muitas terminam.

Paulistano, ele foi campeão brasileiro de kart em 2024 e garantiu, no ano seguinte, a única vaga do País no Mundial de kart da categoria Rotax Júnior, no Bahrein. Em 2026, correu contra a elite mundial do kart pela equipe italiana Parolin. Não venceu, mas ganhou experiência.

Agora Dudu encara o salto mais difícil (e o mais caro) da carreira de um piloto: trocar o kart pelos monopostos.

O Brasil está cada vez melhor em criar talentos na categoria de base do automobilismo. 

Em 2022, a Vicar – a promotora da Stock Car – criou a F4 Brasil, homologada pela FIA. Seu primeiro campeão foi justamente Pedro Clerot. Outro talento, Heitor Dall’Agnol, foi campeão da F4 em 2025 e corre este ano na Eurocup-3, categoria de acesso disputada na Europa.

Há hoje duas rotas principais para a Europa. Uma passa antes pela F4 Brasil, como fizeram Clerot e Dall’Agnol. A outra leva o piloto direto do kart europeu para a F4 italiana – o caminho escolhido por Dudu. Foi também por esta rota que passou Rafael Câmara antes de chegar à Haas. 

Em comum, a maioria dos pilotos deixa o Brasil ainda adolescente. 

O que não mudou é o tamanho do desafio financeiro.

Pelas contas da equipe que cuida da carreira de Dudu, uma temporada de kart profissional no Brasil custa entre R$ 400 mil e R$ 500 mil. Na Europa, o valor sobe para algo perto de € 200 mil. Um único dia de teste com um carro de F4 sai, em média, por € 12 mil.

Depois da F4 vêm a Fórmula Regional, a F3 e a F2, cada degrau mais caro que o anterior.

Por isso, a carreira de Dudu é conduzida como um projeto de longo prazo sob a gestão da Minardi, que tem nele seu único piloto no Brasil.

O projeto combina recursos próprios, patrocínio privado, – liderado pela EXA Tecnologia, do empresário Alberto Leite – e a Lei de Incentivo ao Esporte, que permite a empresas e pessoas físicas destinar parte do IR devido a projetos esportivos. O de Dudu foi aprovado para captar R$ 1 milhão. Em 2024, segundo o Ministério do Esporte, mais de R$ 1 bilhão chegaram a projetos esportivos por esse caminho.

A temporada de 2027 já está financeiramente garantida, e a equipe deve ser anunciada até o fim de novembro. O desafio maior vem depois: é a partir da F3 que o apoio de patrocinadores, seja direto ou via Lei de Incentivo, passa a ser decisivo.

É também o degrau em que muitas carreiras costumam travar.

“A pressão financeira existe, mas lido com ela tratando-a como uma questão de planejamento integrado com patrocinadores, gestão e equipe,” Dudu disse ao Brazil Journal.

Ele já participa das reuniões com potenciais patrocinadores, que querem saber como ele encara o esporte, quais são os planos de carreira e como funciona a preparação física e mental.

Em 2027, vai morar na Itália, longe dos amigos e de casa. Chama a mudança de “sacrifício necessário”. Nas horas vagas, seu programa favorito continua sendo o mais comum para um garoto da idade: assistir a filmes. Entre os circuitos do mundo, gosta mais de Spa-Francorchamps, na Bélgica, e de Interlagos.

O cenário ideal, nas palavras dele, é passar um ano em cada categoria e chegar à F1 aos 18. Ele mesmo admite que ficar dois anos num degrau faz parte do processo. E, se a F1 não vier, não se imagina fora das pistas: cita o Mundial de Endurance, a IndyCar e o rali como caminhos possíveis.

E daqui a cinco anos, no fim de semana do GP de São Paulo, Dudu sabe exatamente onde quer estar. “Largando da pole position, disputando a vitória diante da torcida brasileira.”