Meu nome é John Galt.
Nasci há quase setenta anos nas páginas de A Revolta de Atlas, o romance da escritora Ayn Rand.
Na história de Rand, um país afunda aos poucos graças a um Estado que regula, tributa e controla tudo; que trata quem produz como suspeito; e quem pede auxílio, como credor.
Com o tempo, as fábricas fecham, os trens param, os negócios definham, e nas ruas as pessoas repetem uma pergunta que ninguém sabe responder: “Quem é John Galt?”
A frase virou um dar de ombros, um jeito de dizer “sei lá, que diferença faz” diante de um mundo que parecia não ter mais conserto.
Ninguém sabia quem eu era – mas eu era um dos que carregavam o mundo nas costas, como o titã Atlas do mito grego. Eu inventava, construía, produzia e pagava a conta. Carreguei o mundo até cansar.
Um dia, decidi parar, e convenci outros como eu a parar também. Os que moviam o mundo simplesmente foram embora, e a sociedade enfim descobriu o quanto o mundo pesava.
Quase setenta anos depois, a pergunta voltou, e desta vez no Brasil. Quem é John Galt?
Hoje, John Galt é você.
É o empresário, o empreendedor, o motorista de aplicativo, a manicure, o dono de uma MEI. É aquele que acorda cedo para trabalhar, paga impostos altos, toma risco, gera empregos, vive endividado, e ainda assim segura o País de pé.
Você é aquele que perde horas com a burocracia do Estado, precisa rolar suas dívidas a juros impagáveis, roda 12 horas no aplicativo e ainda ouve que é um privilegiado.
Nos últimos anos, você sente que sua energia está acabando, o fardo ficou pesado demais, e ninguém pensa em você. (Quando pensam, é para atrapalhar).
Desde 2002, na primeira eleição do Presidente Lula, o Brasil comprou e foi acreditando no modelo de País da cartilha do PT: Estado-mãe, transferências permanentes, subsídios para quem tem acesso a Brasília e desconfiança crônica do mercado, do empreendedor e da livre iniciativa.
É um modelo que promete encurtar a distância entre as regiões – mas tem feito o oposto .
Segundo o IBGE, o Nordeste respondia por 13,8% do PIB no início do século e manteve essa mesma fatia duas décadas depois, numa região onde vive mais de um quarto da população. Vinte anos de política do Estado fazedor, e a produção não saiu do lugar. O que cresceu foi a dependência.
É aí que mora o primeiro problema, e ele é econômico.
A Venezuela financiou seu modelo econômico com petróleo: enquanto o barril pagou, a festa continuou; quando o barril caiu, sobrou a ruína.
Por aqui, o petróleo do modelo são as pessoas e empresas que produzem. Não se trata de culpar quem vota, mas de olhar para um arranjo que transforma o eleitor em dependente, e o pagador em refém.
Os gastos crescem e exigem financiamento cada vez maior, e a fatura cai sobre um grupo cada vez mais estreito, na forma de mais impostos, juros altos, burocracia e obstáculos para quem quer empreender.
Até quando esse modelo para de pé? Até quando conseguiremos sustentá-lo? Até quando alguns conseguirão produzir para manter o que se tornou direito de tantos outros?
No romance de Rand, os homens que movem o mundo não fazem passeata: simplesmente param e somem, um a um.
No Brasil real, essa greve não tem manifesto. Tem CNPJ encerrado, empresa que transfere a sede, investidor que engaveta o projeto, jovem talentoso que vai embora com o diploma debaixo do braço. Ninguém anuncia nada. Só jogam a toalha.
O segundo problema nasce do primeiro, e é social.
Um País dividido no mapa tende a se dividir também na mesa do jantar. Já circulam por aí os “não compre de quem votou no PT”, os “não ajude quem escolheu isso.”
Entendo a frustração de quem diz isso, mas este caminho é uma bomba social que se arma rápido e se desarma devagar – e que não poupa ninguém.
A Europa oferece hoje um retrato do que acontece quando o “nós contra eles” vira programa de Governo: ressentimento, exclusão de quem chega de fora e uma política cada vez mais tribal.
Um liberal verdadeiro não deveria cair nessa armadilha. O adversário é o modelo, não o vizinho, e o argumento é a única arma legítima de quem defende a liberdade. E ele perde força toda vez que é trocado pelo desprezo.
Há, porém, um terceiro problema, e ele é o mais preocupante de todos.
Na minha leitura, as urnas de domingo não entregaram uma vitória a Lula, ao PT ou a um grupo político. Entregaram um cheque em branco a uma elite do Estado e, dentro dela, a um Judiciário que se tornou árbitro e jogador, simultaneamente.
É o que muitos já chamam de ditadura da toga, uma oligarquia clássica em que o poder não emana do voto, mas do cargo.
Venceram os que vivem do poder e no poder, os que moram no Lago Sul de Brasília, uma das maiores rendas per capita do País, sustentados não pelo que produzem, mas pela burocracia e pela “aplicação” da lei.
Venceram os que, para se proteger, relativizam o devido processo legal, governam por decisões monocráticas e restringem direitos de opositores em nome da defesa das instituições.
Quem deveria ser servidor público passou a ser “tomador” do público. E esta é a direção mais difícil de reverter. Segundo o conceito firmado pelo Professor Joaquim Falcão, passamos de uma “democracia originária” para uma “Oligarquia de Estado”.
Ficam perguntas incômodas.
Temos um Congresso capaz de ser o freio desse sistema, ou elegemos um Congresso com medo de ser o próximo da fila, julgado por decisões das quais não há a quem recorrer?
Teria mudado alguma coisa se o outro candidato tivesse vencido? Ou será que, para vencer, qualquer candidato teria de se aliar a essa mesma força?
Por que chegamos aqui, e quais são os caminhos de saída, é assunto para outra reflexão. Até lá, proponho apenas que olhemos com calma para a fotografia de hoje.
Volto a Ayn Rand. Há uma passagem de A Revolta de Atlas em que ela diz que basta observar o dinheiro para saber se uma sociedade caminha para a ruína, porque ele é “o barômetro da virtude de uma sociedade.”
Quando a troca deixa de ser voluntária e passa a ser imposta, quando produzir exige pedir licença a quem nada produz, quando o dinheiro corre para quem tem influência e não para quem tem algo a oferecer, quando a lei protege quem toma de quem produz e não o contrário, quando a corrupção é premiada e a honestidade vira sacrifício, essa sociedade está condenada.
Nenhum País sobrevive muito tempo sendo metade prosperidade, metade saque.
Olhe o dinheiro. Sinta o clima.
Depois responda: quem é John Galt?





