Depois de concluir a leitura de “Amazon sem limites” (Editora Intrínseca, 512 páginas, R$ 69,90), olhei de relance para o Amazon Echo, um cilindro preto e lustroso pousado sobre o balcão da cozinha, bem ao lado de algumas latas de ração para cachorro que comprei na Amazon e tinham acabado de chegar. Em vez de enxergar o dispositivo, imaginei que diante de mim se encontrava o rosto do próprio Jeff Bezos, também lustroso, com uma careca perfeitamente lisa e o rosto bem bronzeado, olhando-me com serenidade sob o reluzente halo de LED.
Essa pequena alucinação fazia sentido porque ─ como descobrimos a partir do novo retrato da Amazon e de seu fundador feito por Brad Stone ─ Alexa, a voz que sai do meu Echo, é mais ou menos a encarnação do próprio Bezos. Ele pensou num alto-falante inteligente em janeiro de 2011, na era do Google Plus e do iPod Shuffle. Mandou um email para seus principais colaboradores naquele mês e declarou: “Deveríamos construir um dispositivo de US$ 20 com cérebro na nuvem e completamente controlado por voz.”
Depois disso, durante quase quatro anos, ele microgerenciou o projeto de um modo obsessivo, obrigando equipes em Atlanta e Gdansk a desenvolver um reconhecimento de fala impecável. Bezos implementou um protocolo surreal de testes que envolvia a contratação de funcionários temporários para ficar tagarelando durante dias em apartamentos vazios, conversando com aparelhos silenciosos, e criticou de maneira severa executivos que lhe disseram que levaria décadas para desenvolver o reconhecimento de fala. Levou para casa um dos primeiros protótipos do Echo. Quando, num momento de frustração, Bezos mandou a máquina “dar um tiro na própria cabeça”, os engenheiros que acompanhavam o teste entraram em pânico.


O fato de a cidade de Nova York ter entrado no leque de possibilidades foi resultado de uma decisão de Bezos, que descartou meses de estudos cuidadosos ─ que restringiam as opções a Chicago, Filadélfia e Raleigh ─ e resolveu seguir sua intuição.
Um dos acréscimos de última hora ao projeto ─ símbolo máximo da ganância corporativa para seus opositores locais ─ foi a instalação de helipontos. O próprio Bezos detestara helicópteros no passado, mas de repente eles começaram a surgir em todos os projetos. E foi durante esse período que ele se aproximou de uma ex-atriz chamada Lauren Sanchez, piloto carismática que dirigia uma empresa de aviação na época.
O lado mais humano de Bezos vem à tona nos trechos em que Stone descreve como ele se apaixonou por Sanchez, jogando a cautela ao vento e cortejando-a de forma tão pública que tinha certeza de que seria pego em flagrante. O autor tem os incríveis e-mails entre um repórter do National Enquirer e sua fonte, que primeiro prometeu expor a relação entre uma “atriz casada do segundo escalão” e alguém “tipo Bill Gates”. A fonte era ninguém menos do que o próprio irmão de Sanchez, um personagem controverso que jogou em todas as posições e insistiu até o fim que “nunca trairia ninguém.”
Portanto, é difícil não torcer por Bezos quando, encurralado pelo The Enquirer, ele induz a publicação a lhe enviar uma carta ameaçadora ─ e depois, descaradamente, a publica, expondo ele mesmo o escândalo.
Mas Bezos não é uma vítima comum da extorsão dos tabloides. Ele é o homem mais rico do mundo e recentemente se tornou um campeão da “Verdade” e da “Democracia” ─ assim mesmo, em letras maiúsculas ─ ao salvar o Washington Post.

Bezos especulou publicamente sobre os possíveis motivos políticos por trás da revelação de seu caso amoroso, segundo Stone, e tentou desviar a atenção do sensacionalismo barato, transferindo-a para o assassinato brutal do colunista Jamal Khashoggi. A compra do jornal, como o próprio Bezos chegou a escrever, trouxe mais complexidade à sua vida pública, fazendo com que “pessoas poderosas” o considerassem um “inimigo”.
O relato de Stone mostra que isso era, na melhor das hipóteses, uma paranoia razoável e, na pior, um ato cínico de relações públicas, tirando partido do assassinato de um jornalista para desviar a atenção do escândalo de tabloide. Seu “sentimento nobre”, Stone comenta de forma seca, “tinha pouca relação com sua conduta aberta de um relacionamento extraconjugal que já durava um ano”.
Bezos será sempre protegido pela riqueza e pelo poder, mas também há outro lado a considerar: a riqueza e o poder podem também macular qualquer coisa que ele toca.
Ben Smith é colunista de mídia do The New York Times.
Este artigo foi publicado pelo Times e licenciado pelo Brazil Journal.
A tradução é de Livia de Almeida.






