BOSTON – Abdul El-Sayed foi eleito senador por Michigan, tornando-se o primeiro muçulmano a ocupar este cargo nos EUA.
Apesar de Michigan eleger apenas senadores democratas desde 2000, a campanha de El-Sayed não ocorreu de maneira tranquila – ele teve que lidar não só com os ataques do adversário, Mike Rogers, mas também da Casa Branca e seus apoiadores em Washington.
Uma blue wave nas midterms americanas dependia muito dos democratas tomarem vagas tradicionalmente republicanas no senado, como no Texas e na Carolina do Norte.
Mas a vaga para senador por Michigan preocupava, porque Abdul El-Sayed é membro da ala mais radical do partido e venceu a disputa contra Haley Stevens, uma deputada escolhida a dedo pelo establishment democrata.
Formado na Universidade de Michigan, El-Sayed é um bolsista Rhodes com doutorado na Universidade de Oxford e formado em medicina pela Universidade de Columbia.
Com esse currículo, qual era a preocupação?
Horas após a vitória de El-Sayed nas primárias, os republicanos já começaram a questionar o candidato sobre seu nome, origens e religião.
Em um momento de profunda polarização – agravada pelos conflitos no Oriente Médio – a possibilidade dos EUA elegerem o primeiro senador muçulmano da história foi vista por alguns como um sinal de que os EUA flertavam com o fundamentalismo religioso. Isto apesar de El-Sayed ter nascido em Rochester Hills, Michigan, e cresceu como uma criança americana comum, praticando lacrosse e futebol americano.
Seus pais, imigrantes egípcios, se separaram quando ele era criança, e El-Sayed acabou sendo criado pelo pai.
Após o divórcio, sua mãe, Fatten Elkomy, mudou-se para o Missouri e trabalhou como enfermeira na Islamic American Relief Agency, uma agência que foi alvo de uma operação do FBI em 2004 por acusações de violar sanções e prestar ajuda à Al-Qaeda e a outros grupos terroristas. (Elkomy não foi acusada de nenhuma irregularidade.)
A meia-irmã por parte de mãe, Eman Abdelhadi, professora da Universidade de Chicago, publicou nas redes sociais anos atrás que a mãe deles havia se envolvido com a Irmandade Muçulmana no Egito.
“Minha família é há muito tempo da IM [Irmandade Muçulmana], mas sempre senti que ela atuou mal/de forma destrutiva na esfera política,” Abdelhadi escreveu em junho de 2012.
El-Sayed disse à NBC News que não foi criado pela mãe e que os vínculos dela com a Irmandade Muçulmana eram boatos. “Você está falando sério?”, disse El-Sayed. “Não tenho vínculos. Não temos vínculos.”
Apesar das tentativas de enquadrá-lo como um fundamentalista, El-Sayed não fugiu de tópicos delicados durante a campanha. Falou sobre sua experiência como filho de imigrantes egípcios, criticou duramente a guerra de Israel em Gaza e foi alvo de críticas por fazer campanha ao lado de Hasan Piker, um streamer de esquerda controverso.
El-Sayed defende uma ampliação do Medicare – o seguro saúde governamental para os idosos – e o fim do ICE. Também classifica as ações de Israel em Gaza como um genocídio, posições que lhe renderam o título de “socialista” junto aos críticos, apesar dele não fazer parte do grupo Socialistas Democratas da América (DSA).
O senador eleito se declara um capitalista, e durante entrevista para o programa 60 Minutes classificou o sistema atual como um oligopólio.
“Se você ler Adam Smith, ele dirá que não existe mercado sem moral. Ele dirá que o maior risco para o capitalismo nunca foi a regulação governamental, sempre foi o monopólio e o oligopólio,” disse o então candidato.
Ainda assim, os republicanos continuaram batendo. Rogers afirmou sem provas que a Irmandade Muçulmana financiava a campanha de El-Sayed, e sugeriu que familiares dele têm ligações com terroristas, enquanto o Presidente Trump zombou de seu nome do meio, Mohamed.
Apesar dos ataques, uma pergunta sobre a quem ele deve lealdade acabou rendendo o momento mais viral da disputa no Michigan – deixando clara a capacidade de oratória do senador.
Durante um evento de campanha, um eleitor chamado Tommy perguntou a El-Sayed se ele “vai repudiar a Irmandade Muçulmana?”
Depois de responder “Claro. Sim, com certeza,” El-Sayed passou a questionar o homem.
“Mas por que você está me fazendo esta pergunta? Você presume que eu não repudiaria?”
Quando Tommy, que se identificou como cristão, voltou a repetir a pergunta inicial, o candidato relembrou que John F. Kennedy – o primeiro presidente católico dos EUA – foi questionado se devia lealdade ao Papa.
Parafraseando Kennedy, El-Sayed respondeu:
“Eu não estou concorrendo para ser um senador muçulmano. Eu estou disputando uma vaga para o senado americano e acontece que sou muçulmano. Quero proteger o seu direito de praticar a sua fé como você escolher, mas parece que você não quer proteger o meu direito de praticar a minha como eu escolher.”
A maneira serena como El-Sayed lidou com os ataques deu o tom da campanha, e ajudou os eleitores a dissipar dúvidas em relação a ele – especialmente o eleitorado judeu de Michigan, que demonstrou preocupação com a críticas do senador às ações militares de Israel.
Por outro lado, Michigan abriga a maior comunidade árabe do país, com cerca de 400 mil pessoas, um fator decisivo em sua vitória nas primárias. Numa disputa apertada, El-Sayed precisou conquistar os eleitores negros, judeus e católicos do estado – no condado de Wayne, que inclui Detroit, com três quartos de população negra, El-Sayed perdeu para Stevens nas primárias por seis pontos.
Diante de uma oposição que buscou classificá-lo como um radical islâmico, El-Sayed usou técnicas empregadas com sucesso pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que enfrentou críticas similares quando era candidato.
Se o prefeito de Nova York adotou o terno e gravata como uniforme – uma forma de demonstrar seriedade ante sua pouca experiência política – El-Sayed participou de todos os eventos de campanha com uma camiseta preta e jeans azul, um visual que ajudou a aproximá-lo do eleitor médio.
Assim como Mamdani, El-Sayed nunca se exaltou ou “mordeu a isca” das provocações, sempre direcionando a conversa para suas propostas.





