A nova estratégia da Europa para lidar com os EVs chineses

A nova estratégia da Europa para lidar com os EVs chineses
Concept map depicting dialogue between China and the European Union. Basemap and background concept. Double exposure hologram.

Para não ser inundada por carros elétricos chineses, a  União Europeia impôs em 2024 tarifas de até 45% nestes veículos – mas acabou inundada pelos híbridos.

Como os híbridos são tarifados com o imposto padrão de 10%, foi neste segmento que as chinesas investiram para conquistar clientes na Europa.

Agora, os europeus mudaram de estratégia.

Em negociação com os chineses, decidiram estabelecer cotas para a importação dos híbridos. Serão inicialmente 350 mil veículos ao ano, com um aumento anual de 6% no volume a partir do segundo ano.

As cotas valerão para as importações originárias de qualquer país – para não ferir as regras da OMC. Mas o alvo principal, obviamente, é a China.

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A exportação chinesa de híbridos para os 27 países da UE somou US$ 7,5 bilhões no primeiro semestre – o triplo do mesmo período do ano passado, segundo a Reuters.

No segundo tri, as marcas da China atingiram uma participação de 15% nas vendas de veículos 100% elétricos (EVs) – e isso com a muralha tarifária.

Nos híbridos plug-in, as chinesas ficaram com mais de um quarto das vendas entre abril e junho – num mercado ainda liderado pela Volkswagen com share de 31%, mas em que a alemã vem perdendo espaço rapidamente.

Entre as chinesas, a campeã nas vendas de híbridos na UE é a BYD – que para contornar os obstáculos comerciais e políticos está prestes a inaugurar uma fábrica na Hungria e estuda outros países para instalar unidades de produção.

Stella Li, a vice-presidente executiva da BYD, disse ontem que a França é um dos países candidatos a receber o investimento na construção de uma fábrica.

Em conversa com o canal francês BFM Business durante o Paris Motor Show – que este ano tem a presença recorde de 20 marcas chinesas – Stella disse que tem como meta fazer com que “as pessoas na França pensem que a BYD é uma empresa francesa. Quero que elas gostem dela.”

A gigante chinesa está determinada a conquistar toda a Europa, não apenas o coração dos franceses – e uma demonstração do tamanho de sua ambição é o plano de abertura de revendedoras na Alemanha.

Até o fim do ano, a BYD deverá ter 350 revendas no país que sempre foi sinônimo de carros avançados.

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Falando ao New York Times, Stefan Bratzel, diretor do Center of Automotive Management, na Alemanha, citou Frank Sinatra para explicar a importância do país para as montadoras chinesas: “Para elas, if you can make it there, you can make it anywhere”.

O sucesso dos carros chineses colocou as autoridades do bloco econômico diante de um equilíbrio delicado.

Os chineses oferecem produtos avançados a preços baixos, o que é bom para os consumidores e incentiva a concorrência. Mas ameaçam condenar à falência a tradicional indústria automobilística europeia – e incitar a ira de trabalhadores e sindicatos.

Ao mesmo tempo, a imposição de barreiras unilaterais pela Europa pode levar à retaliação da China – um dos principais destinos das exportações industriais do bloco.

França e Alemanha estão discutindo uma nova política automotiva para lidar com a concorrência chinesa. Segundo Emmanuel Macron, as propostas – que precisarão ser aprovadas pelos demais integrantes do bloco – devem ser apresentadas nos próximos dias.

Uma das medidas seria adiar as metas de redução dos veículos a combustão.

“Estamos finalizando um acordo com nossos parceiros alemães para que a Europa possa avançar, a fim de proteger melhor nossa indústria, manter nossos objetivos de descarbonização, aumentar nossa competitividade e reforçar nossa soberania,” disse Macron, segundo o Financial Times.

Para o CEO da Stellantis, Antonio Filosa, o ponto central deve ser assegurar “condições equânimes” de competição.

“O que buscamos é um conjunto de regulamentações que assegure a todos os interessados ​​em competir na Europa a possibilidade de fazê-lo em pé de igualdade,” Filosa disse à Bloomberg. “O que isso significa? Regras que incentivem montadoras que projetam e desenvolvem seus veículos na Europa, que os fabricam na região e que utilizam fornecedores também sediados na Europa.”

A própria China começou a se preocupar com o boom de suas montadoras e decidiu colocar um freio no avanço desenfreado, estabelecendo novas regras de controle de qualidade.

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As montadoras agora serão obrigadas a realizar testes mais rigorosos em recursos “inovadores”. A análise vai abranger 30.000 quilômetros ao longo de um período mínimo de um ano, incluindo ao menos dois invernos e um verão.

Segundo o Ministério de Indústria e Tecnologia, nos últimos anos algumas montadoras “correram para lançar novos produtos em resposta às tendências do mercado, sem realizar testes e validações suficientes, o que aumentou os riscos de segurança e ambientais.”

Segundo a Nikkei Asia, algumas startups chinesas de veículos elétricos reduziram seus ciclos de desenvolvimento para pouco mais de 20 meses, cerca de metade do tempo empregado pelas montadoras estabelecidas.

Os relatos de acidentes e defeitos começaram a preocupar Beijing, que teme ver arranhada no exterior a reputação de suas marcas.

Na semana passada, por exemplo, a Malásia suspendeu as vendas do SUV Omoda 5, fabricado pela Chery, enquanto aguarda os resultados da investigação de um acidente no qual o eixo traseiro de um veículo se desprendeu.

De acordo com a consultoria Gavekal, a mudança regulatória sinaliza a crescente disposição chinesa em priorizar a sustentabilidade do setor em detrimento do crescimento a qualquer custo.

“Ao lado do acordo com a UE para limitar as exportações de veículos híbridos, as medidas sugerem um esforço coordenado para abordar questões de segurança, amenizar tensões no comércio internacional e incentivar a consolidação,” disse a Gavekal.

Para a consultoria, o resultado deverá ser um ciclo mais lento de lançamentos de produtos, padrões mais elevados e uma concorrência potencialmente mais saudável.