Nas colinas de Águas de Santa Bárbara, um município de cerca de 7 mil habitantes no interior de São Paulo, o Patria Investimentos está testando uma nova tese climática para o seu Reforest Fund.
O Patria entrou no mercado de capital natural olhando para uma das apostas mais recorrentes da transição climática: o carbono. Acabou encontrando uma oportunidade menos óbvia – e bem mais saborosa: o avocado.
É na região centro-oeste do estado de São Paulo que a gestora está investindo cerca de R$ 100 milhões para produzir a fruta, ainda pouco conhecida dos brasileiros. O projeto combina produção agrícola, restauração ambiental e geração de créditos de carbono.
O Patria comprou duas fazendas que juntas somam mil hectares, e fechou uma parceria com a Jaguacy, que é um dos maiores produtores e exportadores brasileiros da fruta e vai tocar a operação.
Hoje o Brasil produz pouco mais de 60 mil toneladas do abacate Hass, uma variedade criada na Califórnia há um século e que reina no avocado toast e nas saladas dos americanos. Boa parte da produção nacional é voltada para a exportação.

O Reforest Fund foi desenhado para combinar diferentes fontes de capital – e diferentes interesses. De um lado estão investidores que olham para a agenda de restauração, biodiversidade e descarbonização. De outro, o capital mais tradicional, que precisa enxergar retorno, risco e previsibilidade de receita.
“Ao longo do desenho do fundo, a pergunta era quanto da exposição ao mercado de carbono queríamos ter. É uma solução relevante, porque muitos dos esforços de descarbonização passam pelo mecanismo de offset. Mas o mercado tem se desenvolvido de uma forma que exige soluções mais customizadas. A gente sabia que o avocado preenchia essa lacuna,” disse Pedro Faria, sócio do Pátria e co-CEO da vertical de high growth.
O fundo nasceu com a meta de mobilizar R$ 2 bilhões — e já chegou perto disso. Na primeira rodada, anunciada pelo Patria em 2025, foram captados R$ 100 milhões com a Desenvolve SP, a agência de fomento do Governo de São Paulo; David Vélez, o fundador do Nubank; Teresa e Candido Bracher, reconhecidos ambientalistas; e o Enseada, o family office dos Larragoiti.
Mais recentemente, o fundo atraiu novos investidores – entre eles a Vale – e chegou a R$ 160 milhões. No momento, o Patria está em negociações com investidores institucionais internacionais.
Outra frente de captação vem de instrumentos de capital catalítico – que aceitam maior risco, menor retorno ou prazos mais longos . No início do ano, o fundo foi um dos sete selecionados na chamada pública de mitigação climática que vai destinar R$ 4,3 bilhões em aportes do BNDESPar.
Nessa frente, o veículo pode receber até R$ 500 milhões. Além disso, o Patria também vai acessar recursos do Fundo Clima e do terceiro leilão do Eco Invest.
Os recursos do capital catalítico funcionam como uma espécie de colchão para atrair investidores. “O capital catalítico passa a ser uma camada de proteção. Nesse modelo, o dinheiro que pode ser ‘perdido’ é utilizado antes dos recursos do investidor tradicional,” disse Faria.
A lógica adotada é que cada investidor também possa enxergar uma porta de entrada diferente para o mesmo ativo. Para uma empresa com metas de descarbonização e restauração, o projeto entrega atributos ambientais. É o caso da Vale, que entrou no fundo para acessar os créditos gerados pelo sequestro de carbono.
Já para um investidor financeiro, a produção agrícola e a receita associada aos créditos ajudam a compor a equação de risco e retorno.
“No nível da operação é um arranjo agroflorestal, no nível do fundo é um arranjo multifacetado de investidores entrando em cotas,” disse o executivo.
Foi nesse desenho que o avocado ganhou espaço. Estima-se que o mercado global da fruta movimente cerca de US$ 20 bilhões por ano.
O Brasil ocupa hoje a sétima posição entre os produtores, mas, na visão de Faria, tem condições para avançar bastante.
“Quando você olha a questão de custo, competitividade e acesso a dinheiro, não há nenhuma razão para que o Brasil não esteja entre os três maiores produtores mundiais de avocado.”
Para o Patria, os mercados europeu e asiático são o foco para a exportação. Em 2025, Japão e Chile passaram a importar a fruta do Brasil.
A parceria com a Jaguacy, que cultiva 1200 hectares de avocado e atende clientes como Carrefour e Pão de Açúcar, garante não só a operação das fazendas como também o acesso à infraestrutura de processamento e aos canais de distribuição.
A região de Águas de Santa Bárbara escolhida não foi por acaso. As propriedades estão em uma área de solo fértil, altitude adequada e disponibilidade de água, mas que também passou por ciclos de agricultura, pecuária e monoculturas que degradaram parte do território.
O cultivo será feito em sistema agroflorestal, combinando as fileiras de avocado com espécies nativas, que protegem as árvores frutíferas contra potenciais danos causados pelo vento.
Dos quase 1 mil hectares, a previsão é plantar cerca de 100 hectares neste semestre. A primeira colheita virá em quatro anos. O projeto também servirá como laboratório para o que pode vir depois.
O Patria já identificou café e cacau como próximas culturas a serem desenvolvidas e vê espaço para levar o modelo a outros biomas.
Para Faria, as mudanças climáticas estão tornando a produção de alimentos uma questão cada vez mais estratégica para o capital. A demanda global cresce, enquanto eventos climáticos mais frequentes aumentam o risco de choques de oferta.
É essa combinação que transforma a agricultura resiliente em uma tese de investimento: produzir mais, restaurar áreas degradadas e, ao mesmo tempo, construir cadeias de alimentos menos vulneráveis às mudanças do clima.
O avocado do Patria deverá ganhar mesas mundo afora. O carbono, por sua vez, fica como crédito para o planeta.

