Agro Journal

Novo foco de doença em aves em SC. O risco agora são os vizinhos

Novo foco de doença em aves em SC. O risco agora são os vizinhos

A produção de aves no Brasil está em alerta máximo.

Na terça-feira, foi confirmado em uma granja comercial de perus em Nova Erechim, no oeste de Santa Catarina, o terceiro foco da doença de Newcastle no Brasil.

Com 9,6 mil aves, a unidade é fornecedora da MBRF, a companhia dona das marcas Sadia e Perdigão. 

O novo caso foi identificado uma semana depois da primeira ocorrência na região. O Ministério da Agricultura estabeleceu uma barreira sanitária com duração de 60 dias em quatro municípios, área que abrange os três focos confirmados até agora.

A principal preocupação agora é que o vírus ultrapasse as fronteiras catarinenses, em um momento em que as exportações de aves do estado enfrentam restrições. 

Nova Erechim fica a cerca de 50 quilômetros tanto da divisa do Paraná quanto da do Rio Grande do Sul, outros dois grandes polos da avicultura brasileira.

A eventual disseminação da doença para essas regiões ampliaria o risco de restrições comerciais, em um setor no qual a localização dos focos sanitários é determinante para a continuidade das exportações.

“As granjas estão espalhadas pela região e são muito próximas. É muito preocupante,” disse César de Castro Alves, gerente de Consultoria Agro do Itaú BBA. “Se um caso aparecer fora dos limites de Santa Catarina, potencialmente, deve fechar esses outros dois estados e aí o impacto aumenta muito.”

O setor de frango e ovos no Brasil movimentou R$ 140 bilhões no ano passado. A região Sul concentra 60% da produção avícola nacional. O Paraná é o maior produtor do país e apenas no primeiro semestre de 2026 foram abatidas 1,1 bilhão de aves, uma alta de quase 5% em relação ao mesmo período de 2025. 

Santa Catarina e Rio Grande do Sul, segundo e terceiro lugares, respectivamente, juntos abateram 1,7 bilhão de aves no ano passado. 

Enquanto os casos permanecerem concentrados em Santa Catarina, o efeito econômico tende a ser limitado, avalia Alves. Os grandes frigoríficos têm operações diversificadas e mais condições de absorver impactos pontuais. A preocupação é maior para empresas menores, integradoras e cooperativas com negócios concentrados na região.

No momento, China, Arábia Saudita e Chile colocaram embargos restritos a Santa Catarina, enquanto Malásia e México bloquearam as exportações de aves de todo o Brasil. 

A reação chinesa foi considerada um sinal positivo para o setor. Cerca de 24 horas após a confirmação do primeiro foco, o país restringiu as importações catarinenses, sem suspender as compras do restante do Brasil.

A medida atingiu 14 dos 61 estabelecimentos brasileiros autorizados a exportar frango para a China — todos localizados em Santa Catarina — e representa cerca de 10% das exportações brasileiras da proteína para o mercado chinês.

Em relatório, o Citi avaliou que a rapidez da resposta e a adoção de uma restrição regionalizada indicam maior aceitação desse tipo de protocolo pelos importadores. A abordagem, porém, não garante que outros mercados adotem a mesma estratégia.

O episódio ocorre pouco mais de dois anos depois do foco confirmado em julho de 2024, em uma granja comercial de frangos em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul. Antes daquele caso, o Brasil não registrava a doença em aves comerciais desde 2006, quando um foco em aves de subsistência foi identificado no Mato Grosso.

Em 2024, as autoridades vistoriaram 443 propriedades na área de vigilância e não encontraram evidências de disseminação a partir da granja gaúcha. Na ocasião, a produção brasileira também sofreu restrições comerciais.

A contenção do surto permitiu a retomada da normalidade sanitária e comercial. Para Alves, a experiência acumulada com episódios anteriores ajuda a explicar a resposta dos mercados internacionais. “O sistema de detecção e de notificação está funcionando,” afirma.

A doença de Newcastle é altamente contagiosa entre aves e pode provocar problemas respiratórios e neurológicos, levando à queda na produção de ovos e mortalidade. O controle depende da vigilância sanitária, do isolamento das áreas afetadas e de medidas como o abate de aves, quando determinado pelas autoridades.

A transmissão para humanos é rara e costuma estar associada a conjuntivite leve, sobretudo em pessoas com exposição direta a aves infectadas.

O Brasil não é o único país que enfrenta focos da Newcastle no momento. Relatório do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido, publicado nos últimos dias, registra novos focos da doença em diferentes países europeus como Hungria, Espanha, Polônia e República Tcheca. 

A pressão sanitária sobre a avicultura também vem da influenza aviária, outra doença viral. Nos Estados Unidos, os surtos registrados desde 2022 levaram ao abate de mais de 200 milhões de aves. 

O governo americano comprometeu US$ 1,8 bilhão em recursos para indenizações e medidas de controle sanitário. A redução da oferta de ovos contribuiu para que o preço médio do produto no varejo atingisse um recorde em março de 2025.

Os episódios envolvendo as duas doenças reforçam a dimensão do desafio sanitário para a produção avícola. A circulação de aves silvestres pode contribuir para a circulação de agentes infecciosos, mas o papel específico das espécies migratórias na transmissão da Newcastle ainda não é plenamente conhecido.

O desafio imediato, agora, é conter o foco em Santa Catarina e impedir que o vírus alcance outros estados produtores. A rapidez da resposta sanitária será decisiva para limitar os impactos sobre a avicultura e o comércio exterior.