Medellín já foi conhecida como uma das cidades mais violentas do mundo. Mas nas últimas décadas, a segunda maior cidade da Colômbia se transformou e virou uma referência internacional.
Como? Combinando investimentos em infraestrutura e mobilidade com educação, cultura e uma intensa participação da comunidade.
Agora, a Motiva quer trazer parte dessa experiência para o Brasil.
Por meio do Instituto Motiva, a maior empresa de infraestrutura de mobilidade do País mapeou cerca de 500 iniciativas capazes de melhorar a qualidade de vida e estimular o desenvolvimento econômico de 20 territórios próximos às suas operações de rodovias e trilhos.
A lista vai de projetos de capacitação profissional e apoio a cooperativas à revitalização de espaços públicos, iniciativas culturais, centros esportivos e soluções para tornar as cidades mais sustentáveis, resilientes e inclusivas.
A ambição faz parte de um compromisso de investimento de R$ 1 bilhão até 2035 e de uma mudança na forma como a companhia realiza seu investimento social.
Em vez de financiar projetos isolados, o Instituto Motiva identificou as principais necessidades de cada um dos 20 territórios prioritários e busca reunir empresas, governos, organizações sociais e lideranças comunitárias para construir planos de desenvolvimento de longo prazo.
“A principal lição que aprendemos com Medellín é que mudanças sustentáveis acontecem quando diferentes atores assumem juntos a responsabilidade pelo futuro de um território,” disse Renata Ruggiero, a presidente do Instituto Motiva.
A metodologia é inspirada no chamado urbanismo social, que ganhou projeção internacional com a transformação da cidade colombiana.
O conceito parte da ideia de que os territórios mais vulneráveis devem ser colocados no centro das decisões e que as intervenções precisam ir além da construção de obras.
“Precisamos criar condições para que as pessoas tenham mais oportunidades e qualidade de vida,” disse Renata. “É essa visão sistêmica que buscamos trazer para o nosso trabalho nos territórios.”
Na prática, o Instituto Motiva está tentando substituir o modelo tradicional de investimento social – muitas vezes pulverizado entre projetos sem conexão entre si – por uma atuação mais próxima da lógica de planejamento urbano.
O primeiro passo foi entender os territórios.
Com o apoio técnico do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável, o CIEDS, o Instituto realizou visitas de campo, entrevistas e questionários entre julho e agosto do ano passado.
O diagnóstico ouviu moradores e lideranças comunitárias e mapeou os principais riscos, oportunidades e atores com capacidade de mobilização em cada região.
Os 20 territórios estão distribuídos por São Paulo, Bahia, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. A seleção inclui bairros de grandes capitais, regiões metropolitanas e cidades do interior próximas aos ativos da Motiva.
Entre eles estão o Capão Redondo, a Luz, o Bom Retiro e a Vila Congonhas, na cidade de São Paulo; Presidente Altino, em Osasco; o Morro da Providência, no Rio de Janeiro; bairros de Salvador, como Águas Claras, Pernambués e São Cristóvão; e cidades como Guarulhos, Sorocaba, Paraty, Resende, Londrina, Ponta Grossa, Lajeado e Campo Grande.
O levantamento deu origem a planos de desenvolvimento territorial e a uma lista de aproximadamente 500 possíveis iniciativas, divididas em três frentes: soluções sustentáveis, redução das desigualdades e qualidade de vida.
Em Guarulhos, por exemplo, as oportunidades mapeadas incluem projetos de gestão de resíduos e fortalecimento de cooperativas, programas de educação profissional em parceria com universidades e empresas e atividades esportivas voltadas à população idosa.
Em Paraty, o plano inclui iniciativas de incentivo à leitura, democratização do acesso à cultura, construção ou revitalização de centros esportivos e a criação de uma estratégia de economia circular e logística.
A meta do Instituto é implementar ao menos três ações em cada território até o fim deste ano.
Algumas iniciativas têm potencial para gerar resultados mais rápidos, como cursos de capacitação profissional, ações culturais, apoio a cooperativas e reformas de espaços comunitários.
Mas as transformações mais ambiciosas – como elevar a renda, reduzir desigualdades, melhorar a educação e aumentar a resiliência climática – dependerão de uma atuação contínua.
Segundo Renata, nenhuma cidade se transforma em um ou dois anos, mas “o importante é combinar entregas que gerem confiança no curto prazo com estratégias que produzam mudanças estruturais ao longo do tempo.”
A primeira tentativa de colocar o modelo em prática está acontecendo em Presidente Altino, bairro de Osasco onde a Motiva administra as linhas 8 e 9 de trens urbanos da CPTM.
Renata diz que o Instituto Motiva está estruturando uma coalizão territorial para reunir o poder público, empresas, organizações sociais e lideranças comunitárias em torno de uma agenda comum para a região.
A proposta não é apenas escolher projetos para financiar, mas construir uma estrutura permanente de colaboração, com regras de governança e prioridades de curto, médio e longo prazo.
Ainda este ano, o Instituto pretende iniciar um projeto-piloto para acompanhar a implementação da coalizão e testar seus processos, mecanismos de decisão e modelo de governança.
“A qualidade da governança é um fator decisivo para que os planos não fiquem apenas no papel,” disse Renata. “Nosso desafio não é somente identificar oportunidades, mas criar as condições para que os diferentes atores consigam trabalhar juntos ao longo do tempo.”
Apesar dos investimentos vultosos, não caberá à Motiva executar ou financiar tudo sozinha.
Em projetos que não estejam diretamente relacionados à sua área de atuação, o Instituto pretende agir como um articulador, conectando empresas, governos, organizações sociais e possíveis financiadores.
“Não acreditamos que uma única organização seja capaz de resolver sozinha os desafios de um território,” disse Renata. “Nosso papel é atuar como catalisador, ajudar a conectar parceiros, mobilizar recursos e construir coalizões.”
Além de Medellin, o Instituto Motiva também está estudando as chamadas cidades-esponja chinesas, que utilizam áreas verdes, parques, jardins, reservatórios e superfícies permeáveis para absorver a água das chuvas e reduzir o impacto de enchentes.
Outras inspirações vêm do Sudeste Asiático, com o uso de soluções baseadas na natureza, e de Singapura, que integrou tecnologia, infraestrutura, gestão da água e planejamento urbano de longo prazo.
“O que une todos esses exemplos é a capacidade de antecipar desafios e construir soluções que geram benefícios ambientais, sociais e econômicos ao mesmo tempo,” disse Renata.
Além do impacto social, o mapeamento pode abrir oportunidades de negócio para a própria Motiva.
Ao conhecer melhor as necessidades e as vocações econômicas das regiões no entorno de suas rodovias, estações e linhas ferroviárias, a companhia pode identificar novos projetos nas áreas de mobilidade, logística, ocupação urbana e desenvolvimento imobiliário.
Entre as possibilidades estudadas estão programas de formação profissional associados a empreendimentos logísticos; serviços de última milha conectados a estações e eixos de transporte; projetos de habitação social com capital de impacto; e iniciativas de ocupação urbana que combinem retorno econômico, desenvolvimento local e redução das emissões.
“O foco principal é gerar impacto social positivo,” disse Renata. “Mas seria ingênuo dizer que não existem aprendizados e oportunidades que podem surgir desse processo.”
O Desenvolvimento Territorial faz parte da nova estratégia do Instituto Motiva, anunciada em setembro do ano passado.
Na ocasião, a entidade elevou de R$ 750 milhões para R$ 1 bilhão seu compromisso de investimento social até 2035.
Desse total, R$ 239 milhões foram investidos entre 2023 e 2025. Para este ano, a previsão é desembolsar mais R$ 74 milhões.
No ano passado, as iniciativas apoiadas pela organização beneficiaram mais de 2 milhões de pessoas, segundo o Instituto. Desde 2014, o alcance acumulado supera 20 milhões.
A Motiva já é uma das maiores patrocinadoras privadas de cultura do País. Seu portfólio inclui a Flip, a Flipelô e a Feira do Livro de São Paulo, além do Museu da Língua Portuguesa, do Museu do Amanhã, do Instituto Tomie Ohtake, do MuBE e da Fundação Casa de Jorge Amado.
Também lançou o programa Escolas Baseadas na Natureza, que busca incorporar questões ambientais ao currículo e às práticas pedagógicas. Segundo o Instituto, o projeto já alcança 500 mil alunos, 16,7 mil educadores e 6 mil escolas.
Na frente cultural, o Instituto investiu R$ 1 mihão para criar o Circuito Cultural, que levará crianças e adolescentes de escolas públicas e projetos sociais dos 20 territórios a museus, concertos e feiras literárias – beneficiando 3 mil pessoas diretamente.
Os resultados vistos em Medellín ainda estão distantes – e o próprio Instituto reconhece que os resultados estruturais levarão anos para aparecer.
Mas o ponto de partida é justamente uma das lições da cidade colombiana: nenhuma realidade precisa ser permanente.

