A China construiu uma capacidade industrial que seus consumidores já não conseguem absorver – especialmente quando o assunto é o aço.
O problema é que isso pode representar um golpe fatal na indústria brasileira (e global).
Quem diz isso é Jorge Guajardo, ex-embaixador do México na China. Ele acredita que a inundação de produtos chineses pode fazer com que vários países percam a capacidade de fabricar insumos para consumo interno.
“Não tenham dúvida. Se permitirmos que a China continue exportando, vai desindustrializar o mundo inteiro,” disse Guajardo durante o Congresso Aço Brasil deste ano.
Guajardo descreve a China como uma economia que perdeu parte do impulso da urbanização e da construção, mas manteve sua estrutura industrial voltada à produção em grande escala.
Com menor espaço no mercado doméstico, as fábricas chinesas só têm uma opção: buscar compradores no exterior. “Caso não façamos algo agora, não haverá o que fazer depois,” disse o ex-embaixador.

Jorge Guajardo, ex-embaixador do México na China
No aço, a dimensão do problema ajuda a explicar a preocupação. Segundo o Instituto Aço Brasil, com base nos dados do worldsteel e OCDE, existe um excedente mundial de capacidade de 624 milhões de toneladas, dos quais 306 milhões estão na China.
Como comparação, o Brasil tem capacidade instalada de aproximadamente 51 milhões de toneladas, segundo Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil.
“O setor está sob ataque dessas importações predatórias,” disse Marco Polo.
É verdade que as medidas de defesa comercial adotadas pelo Brasil já produziram resultados, contribuindo para a redução das importações de aço. Apesar do recuo, os volumes ainda permanecem muito acima dos patamares históricos, mantendo a pressão sobre a indústria nacional.
Desde 2024, o governo adotou um sistema de cotas para determinados produtos siderúrgicos, com alíquota de importação de 25% sobre os volumes que ultrapassam esses limites. Além disso, aplicou direitos antidumping a produtos específicos, como aços pré-pintados da China e da Índia, para enfrentar práticas desleais de comércio.
Entre janeiro e setembro, a importação de aços laminados caiu 17,7% na comparação anual, chegando a 3,7 milhões de toneladas. As compras originadas na China recuaram quase 40% na mesma base de comparação. Atualmente, o país responde por 46,5% do volume importado.
Mas o recuo das compras diretas conta apenas parte da história. O aço também entra no País incorporado a automóveis, equipamentos, eletrodomésticos e peças que poderiam mobilizar fornecedores brasileiros.

Marco Polo De Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil
Segundo cálculo do Instituto Aço Brasil com dados do MDIC e da worldsteel, o volume de aço nos bens importados aumentou 16,6% entre janeiro e setembro, para 5,40 milhões de toneladas. O setor automotivo, incluindo autopeças, respondeu por aproximadamente 72% desse incremento.
Para a indústria automotiva, o efeito aparece na distância entre o crescimento das vendas e o da fabricação.
Para este ano, a Anfavea projeta 3,1 milhões de carros emplacados, alta de 15,2% em relação a 2025. O problema: a produção deve crescer apenas 6,7%, para 2,8 milhões.
“Ou seja, a produção nacional não está capturando todo o crescimento do mercado,” disse Igor Calvet, presidente da Anfavea.
Há outra diferença dentro do próprio número de produção.
Segundo a Anfavea, das 173 mil unidades adicionais contabilizadas entre janeiro e setembro, 50 mil vieram da fabricação local plena e 123 mil da montagem de kits importados, nas modalidades CKD e SKD.
Esses kits chegam desmontados ou parcialmente montados e passam por etapas finais no Brasil. O problema é que essa modalidade substitui processos com maior participação de fornecedores locais, engenharia e desenvolvimento tecnológico – impactando investimentos e empregos.
A conta é simples: um automóvel produzido no Brasil recebe, em média, cerca de 900 quilos de aço, segundo o executivo. Também utiliza plástico, vidro, borracha, componentes eletrônicos e materiais têxteis.
Quando esses insumos vêm incorporados ao veículo ou ao kit, parte da demanda deixa de chegar às empresas brasileiras dessa cadeia. Os investimentos até podem continuar, mas em ritmo menor do que visto em outros anos.
“O que nós temos hoje é a confirmação de quase 200 bilhões de reais de investimentos do setor no Brasil, mas isso pode mudar caso os modelos CKD e SKD prevaleçam,” disse Calvet.

Igor Calvet, presidente da Anfavea
No aço, Marco Polo descreve uma restrição semelhante.
O setor siderúrgico operava com 66% de utilização da capacidade em 2025. Com essa ociosidade, é difícil justificar o investimento em novas linhas de produção, embora as empresas no País continuem aportando cerca de R$ 12 bilhões por ano, segundo o executivo.
A resposta defendida pelas entidades combina defesa comercial e condições para produzir no País.
Marco Polo defende a manutenção e o fortalecimento dos instrumentos de defesa comercial já existentes, além da adoção de novos mecanismos que permitam reduzir as importações aos patamares históricos.
Calvet defende a renegociação de compromissos tarifários de produtos selecionados na OMC, um processo que envolve negociação com parceiros comerciais.
O executivo da Anfavea afirma que o Brasil está defasado em relação a outros países. Enquanto a alíquota de importação para veículos eletrificados está em 35%, esse valor chega a 100% nos EUA, para citar apenas um exemplo.
A Anfavea também discute propostas tributárias que diferenciem operações com maior conteúdo produtivo local, considerando etapas fabris, desenvolvimento tecnológico e pegada de carbono.
A agenda inclui reduzir o custo de capital, ampliar o financiamento às exportações e renegociar acordos na América Latina, para que a indústria instalada no Brasil recupere mercados.
O objetivo das entidades é fazer com que o crescimento da demanda sustente uma cadeia produtiva mais ampla no País. Para a siderurgia, isso exige também ampliar o consumo: o Brasil utilizou 122,5 quilos de aço por habitante em 2025, diante de uma média mundial de 209 quilos.
“O mais importante ativo de cada país é o seu mercado interno, então não podemos ter importação predatória e desleal,” disse Marco Polo.
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Foto de abertura: Marco Polo de Mello Lopes (Instituto Aço Brasil), ao lado de Jorge Oliveira (ArcelorMittal), Marcelo Chara (Usiminas), Gustavo Werneck (Gerdau), e Rodrigo Villela (Aperam) durante Painel “A visão dos CEOS”, além da jornalista Vanessa Cochi.

