No meu trabalho, procuro frequentemente fazer paralelos entre o mundo dos esportes e dos negócios. Quanto mais observo os dois, mais vejo semelhanças — performance, liderança, talento, competitividade, inovação e resiliência.
Recentemente, me deparei com uma história incrível. Li, reli, procurei matérias, entrevistas e vídeos. A história havia sido contada pelo New York Times. Quanto mais pesquisava, mais parecia “too crazy to be true”.
Mas era verdade. Seu protagonista é Craig Johnston.
O menino que decidiu que seria jogador de futebol
Johnston nasceu na África do Sul e cresceu na Austrália. Aos seis anos, ficou gravemente doente. O diagnóstico inicial foi de poliomielite. Médicos chegaram a dizer que sua perna talvez precisasse ser amputada. A família buscou outras opiniões até que um especialista diagnosticou corretamente uma grave infecção nos ossos. Ele foi operado e sua perna foi salva.
Era 1966, ano da Copa do Mundo na Inglaterra. Durante a recuperação, Johnston começou a assistir aos jogos pela televisão e se apaixonou pelo futebol. Disse a uma enfermeira que um dia seria jogador e marcaria um gol em Wembley. Ela riu. Vinte anos depois, ele faria exatamente isso.
Ainda adolescente, começou a escrever para clubes ingleses pedindo uma oportunidade. Depois de muita insistência, o Middlesbrough lhe ofereceu um teste. Aos 15 anos, após um grande esforço financeiro da família, Johnston desembarcou sozinho na Inglaterra.
O primeiro contato com o futebol profissional foi brutal. Jack Charlton, treinador do Middlesbrough, disse que ele era provavelmente o pior jogador que já havia visto. Johnston chegou a arrumar as malas, mas ficou. E, por meses, limpou carros e chuteiras dos jogadores e treinou obsessivamente, cerca de seis horas por dia.
A chance veio quase por acaso. Um vírus atingiu o elenco e faltava gente até para compor o banco. Alguém sugeriu o nome de Johnston. “O canguru? Ele é muito ruim”, foi a primeira reação. Mas não precisava ser bom. Precisavam só completar o time.
Johnston jogou — e marcou dois gols. Pouco tempo depois, chegou ao time principal. Aos 20 anos, foi contratado pelo Liverpool, uma potência do futebol mundial. Jogou 271 partidas, marcou 40 gols e viveu uma das eras mais vitoriosas do clube: cinco títulos ingleses, European Cup, FA Cup e League Cup. Em 1986, na final da FA Cup contra o Everton, marcou em Wembley. A promessa feita no hospital estava cumprida.
Ele ainda ajudou a criar o “Anfield Rap”, música do Liverpool para a final da FA Cup de 1988, que chegou ao terceiro lugar nas paradas britânicas. Se a história terminasse aqui, já seria extraordinária. Mas ela estava apenas começando.
Do jogador ao inventor — e a inspiração do tênis de mesa
No auge da carreira, aos 27 anos, Johnston decidiu deixar o futebol. Sua irmã mais nova havia sofrido graves danos cerebrais.
Depois de um tempo tentando conciliar o Liverpool com viagens e tratamentos, decidiu voltar para a Austrália e ajudar a cuidar dela. Havia passado a vida tentando chegar ao topo do futebol e, quando conseguiu, abriu mão daquilo porque existia algo mais importante.
De volta à Austrália, começou a trabalhar com crianças. Num dia chuvoso, tentava ensiná-las a colocar efeito na bola e usou uma raquete de tênis de mesa para explicar como gerar spin. Uma das crianças apontou o óbvio: a raquete tinha borracha; a chuteira era de couro e, molhada, escorregava no contato com a bola.
Johnston levou a observação para casa. Retirou a borracha de uma raquete, prendeu-a a uma chuteira e foi testá-la na chuva. Funcionou. Ali nascia a ideia que anos depois se transformaria em uma das chuteiras mais icônicas da história do futebol.
Johnston passou cerca de quatro anos testando materiais, criando protótipos e investindo recursos próprios. Então procurou as grandes empresas esportivas. E ouviu “não”. Nike. Puma. Reebok. Umbro. Adidas.
A ideia funcionava, mas convencer as pessoas de seu valor era outra história. Então mudou a abordagem: foi para a Alemanha, conseguiu que Beckenbauer e Rummenigge testassem seus protótipos na neve, filmou a experiência e voltou à Adidas.
Desta vez, a conversa mudou. Em 1994, chegava ao mercado a Adidas Predator. Zidane e Beckham ajudariam a transformá-la em uma das chuteiras mais reconhecidas do mundo.
Tudo começara com algumas crianças, uma tarde chuvosa e alguém disposto a questionar a forma tradicional de fazer as coisas.
Empreendedor em série
A Predator poderia ter sido uma grande ideia isolada. Não foi. Johnston continuou criando. Desenvolveu a PIG — Patented Interactive Grip —, indicada ao Designer of the Year no Reino Unido. Criou o Butler, para minibares de hotéis, e trabalhou com televisão, música, fotografia e jovens jogadores.
Algumas iniciativas deram certo, outras não. Johnston seguiu em frente, colocando ideias no mundo e assumindo riscos. Quando lhe perguntaram como um jogador de futebol havia se tornado inventor, corrigiu a premissa. Para ele, a lógica estava invertida: era um inventor que havia se tornado jogador de futebol.
Como jogador, precisou entender o que atletas mais talentosos faziam por instinto. Como inventor, continuou observando, questionando, experimentando e aprendendo. Sua história oferece muitas provocações para quem lidera empresas, constrói negócios ou busca performance excepcional.
Cinco reflexões que ficaram comigo:
1. Pense grande — e aja com determinação e obstinação.
Johnston não apenas sonhava em jogar na Inglaterra. Sua aspiração mudou seu comportamento: escreveu para clubes, atravessou o mundo ainda adolescente e continuou treinando quando quase tudo indicava que deveria voltar para casa.
Aspiração não é aquilo que você gostaria de alcançar. É aquilo que muda o que você está disposto a fazer hoje.
Vejo algo parecido nas empresas. Os melhores CEOs não se limitam ao que a organização consegue entregar confortavelmente nem praticam o famoso “underpromise and overdeliver”. Colocam a barra alta, usam benchmarks e melhores práticas e desafiam a organização a construir as capacidades necessárias.
Agassi conta em sua autobiografia que, desde criança, enfrentava diariamente uma máquina construída pelo pai, rebatendo milhares de bolas por dia. A imagem é poderosa: pensar grande sem determinação e disciplina dificilmente se transforma em performance.
2. Esteja aberto ao diagnóstico — sem aceitar automaticamente o prognóstico.
Jack Charlton disse a Johnston que ele não tinha nível para ser jogador. E talvez, naquele momento, tivesse razão. Johnston, porém, se recusou a aceitar que aquela avaliação determinasse seu futuro.
Aceitar o diagnóstico é humildade. Não aceitar automaticamente o prognóstico é resiliência.
Como consultor, vejo muitas empresas que estão indo bem terem dificuldade de aceitar que precisam mudar. O sucesso gera confiança, mas também pode gerar negação. Num mundo em que tecnologias, modelos de negócio e comportamentos mudam em velocidade exponencial, a humildade é essencial.
A Microsoft sob Satya Nadella é um exemplo. Ainda enorme e lucrativa, percebeu que o Windows já não seria suficiente. Mudou prioridades, acelerou cloud e transformou sua cultura.
Tom Brady oferece um paralelo no esporte. Foi apenas a 199ª escolha do draft da NFL, com seis quarterbacks selecionados antes dele. Ainda assim, não permitiu que aquela avaliação definisse sua carreira.
Os melhores líderes e atletas conseguem sustentar duas ideias ao mesmo tempo: precisamos mudar — e podemos mudar.
3. Questione a abordagem óbvia — e mude a forma de chegar ao resultado.
O diferencial em problem solving — seja para executivos, empreendedores ou inventores — não está apenas em encontrar respostas melhores. Muitas vezes, está em abandonar a abordagem óbvia. Johnston poderia ter insistido para que as crianças treinassem mais. Em vez disso, questionou a chuteira.
Nadal fez algo parecido diante de Federer. Já dominava o saibro, mas queria vencer Wimbledon. Não bastava levar para a grama o mesmo jogo de Roland Garros. Sua equipe precisou adaptar padrões específicos para enfrentar Federer, entre eles a bola alta, cheia de topspin, sobre o backhand de uma mão do suíço. Depois de perder as finais de 2006 e 2007, Nadal venceu em 2008.
A Zara ajudou a criar o “fast fashion”. Em vez de insistir em antecipar o que o consumidor desejaria meses depois, reduziu radicalmente o tempo entre tendência, design, produção e loja.
Johnston não tentou apenas ensinar melhor. Nadal não tentou apenas jogar mais do mesmo. A Zara não tentou apenas prever melhor.
Às vezes, a melhor resposta vem de mudar a forma de atacar o desafio.
4. Transforme intenção em resultado — o problema não é saber “o que” fazer, e sim “como” fazer.
Esse é um mantra que uso com frequência. Na maioria das empresas, saber o que fazer raramente é o problema. Existem benchmarks, dados e melhores práticas. O diferencial está no “como”. Johnston já tinha a ideia da Predator, mas precisou transformá-la em protótipos, testar materiais, investir, ouvir “não” e adaptar a forma de convencer.
Usain Bolt tinha atributos físicos extraordinários, mas aperfeiçoava continuamente detalhes como largada e aceleração para transformar talento em performance.
O Walmart construiu uma das maiores empresas do mundo não porque descobriu que consumidores gostam de preços baixos, mas porque criou uma máquina de execução capaz de entregar “Everyday Low Price” em escala — compras, logística, estoques, tecnologia e disciplina operacional.
A estratégia aponta a direção. A execução decide o resultado.
5. Toque a cabeça e o coração das pessoas — propósito amplia a definição de sucesso.
As transformações mais bem-sucedidas que vejo não se sustentam apenas em metas, KPIs e incentivos. Tudo isso é necessário, mas não suficiente. Os melhores líderes dão clareza sobre estratégia e performance e, ao mesmo tempo, conectam as pessoas a algo maior. Tocam a cabeça e o coração.
Isso exige uma visão mais ampla de sucesso: performance financeira, saúde organizacional, colaboradores, clientes e contribuição para a sociedade. Johnston parece ter vivido dessa forma. Parou no auge para ajudar a família e depois continuou criando e inventando. Títulos, dinheiro e reconhecimento nunca foram sua única medida de sucesso.
Lewis Hamilton, depois de conquistar praticamente tudo na Fórmula 1, passou a falar sobre um legado maior do que campeonatos, ligado à diversidade e a oportunidades fora das pistas.
Performance não deixou de importar. Apenas deixou de ser a definição integral de sucesso.
Uma história muito maior do que futebol
Quanto mais pesquisava sobre Craig Johnston, menos achava que estava lendo apenas uma história sobre futebol. É uma história sobre aspiração, determinação, humildade, resiliência, curiosidade, execução e propósito.
Talvez esta seja a resposta à provocação do título: Craig Johnston não foi apenas um jogador de futebol que virou inventor e empreendedor. Ele sempre foi um inventor e empreendedor, alguém movido pela curiosidade de entender e melhorar as coisas e que, por alguns anos, também jogou futebol no mais alto nível.
Ao longo da vida, mudaram os campos, os projetos e os desafios. Mas havia uma constante: a disposição de pensar grande, aprender, insistir, adaptar-se, executar e encontrar propósito naquilo que fazia.
Talvez Craig Johnston nunca tenha realmente mudado de profissão. Mudaram apenas os problemas que ele decidiu resolver.
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Fábio Stul é sócio sênior da McKinsey e liderou por 5 anos a prática global de Transformações. Atualmente lidera a prática global de Esportes.

